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jun15

As lições para a esquerda brasileira sobre a polêmica Boechat vs. Malafaia

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O fim de semana passado foi efervescente nas redes sociais brasileiras, com um furioso Ricardo Boechat, via rádio, esmurrando verbalmente o sacerdote do ódio Silas Malafaia e mandando-o “procurar uma rola” e milhões de pessoas comemorando o ataque. Houve também quem criticou a resposta irada do jornalista (caso deste Consciencia.blog.br) e recebeu como resposta uma receptividade bastante desagradável de quem havia posto Boechat no pedestal dos “esculhambadores de pregadores do ódio”. Do que se viu naquele 20 de junho, creio que podemos extrair sérias lições sobre os atuais (des)caminhos da esquerda brasileira.

A primeira dessas lições, sobre as quais considero urgente uma reflexão, é que estamos nos contentando com pouco demais. No atual estado de marasmo, indignação impotente e resignação (pelo menos aparentes) da esquerda perante a força ascendente de um conservadorismo intolerante e autoritário, muita gente sentiu que a fúria de Boechat contra Malafaia era o golpe doloroso que a esquerda tem sido, ultimamente, incapaz de aplicar ela mesma em seus autodeclarados inimigos.

Isso mesmo que a dor desse golpe sentida pelo pseudopastor tenda a ser algo passageiro e ele o esqueça dentro de poucos dias ou semanas. Tanto que já se está jogando no limbo do quase esquecimento o esculacho que ele recebeu do jornalista, e hoje, poucos dias depois do ocorrido, quase não se fale mais do assunto.

A efusiva comemoração vista nas redes sociais mostra que não se tem conseguido reagir à escalada do “movimento” teocrático pentecostal brasileiro. Praticamente não tem havido diante dele obstáculos, nem jurídicos, nem de reação ativista, tampouco da hoje fraca banda progressista dos poderes Legislativo e Executivo.

Cada retrocesso à democracia, à tolerância religiosa e ao respeito às diversidades imposto pelos teocratas falsos-cristãos tem sido motivo de repercussão revoltada das pessoas que prezam pelos Direitos Humanos e pela justiça social. Mas isso não tem mais ido além das verbalizações indignadas e dos artigos em páginas de políticos de esquerda e sites progressistas. Não se tem mais conseguido transformar o repúdio escrito em manifestações nas ruas.

O ataque verbal proferido por Boechat foi um breve respiro nesse contexto político de inércia. Enfim alguém teve a coragem, que tem faltado na esquerda assumida, de peitar o influente sacerdote do ódio. Daí vimos tão radiantes “festejos”, promovendo o jornalista da Band a “garoto Turn Down For What” do momento.

Ou seja, no momento, qualquer metafórica jogada de pedra que cause dor na cabeça de algum daqueles conservadores antidemocratas já é motivo para festa. Já que não se tem conseguido infligir danos permanentes ao poder deles, tampouco esboçar uma reação que leve a uma virada do jogo político, então que se comemore os pequenos e efêmeros golpes mesmo – é assim que está sendo.

E a outra lição também é dura: a esquerda parece ter desaprendido a valorizar a liberdade de expressão e a diversidade de pensamentos em seu seio. Houve sim muitas pessoas expressando educadamente sua discordância às críticas dedicadas ao discurso agressivo e irracional de Boechat – argumentando, por exemplo, que o contexto ali era de ataque a um homem homofóbico, não uma agressão verbal a uma mulher ou a um homem gay. Mas muitas outras não hesitaram em baixar o nível.

Pôde-se ver gente da esquerda partindo para a falácia de apelo à pedra e/ou de desqualificação pessoal. Alguns esnobaram os argumentos dos críticos de Boechat, ou os próprios críticos, com adjetivos como “puritanos”, “moralistas”, “politicamente corretos”, “pós-modernos” e “patrulheiros da fala alheia” – curiosamente “desqualidades” bem parecidas com as usadas por fãs de “humoristas” “politicamente incorretos” para atacar quem repudia “piadas” preconceituosas. Outros “preferiram” julgar que quem não curtiu o destempero da declaração do jornalista estava “dividindo ainda mais a esquerda” e “promovendo sectarismo”.

Essas acusações mostram que parte significativa da esquerda brasileira parece estar esquecendo a arte de prezar (e lutar) pela liberdade responsável e ética de expressão. A própria diversidade de opiniões na metade canhota do espectro político passou a ser vista como um “problema”, um “obstáculo” que, pelo que pareceu vir dos teclados de algumas pessoas, deveria “idealmente” ser eliminado por meio do silenciamento e censura moral a quem não quis participar da festa do “Viva Boechat”.

Além de não estar mais conseguindo reagir e recuperar as forças, a esquerda não consegue aceitar sua diversidade interna de pensamentos e opiniões. Nem aprende a reconhecer nessa característica uma parte essencial de sua identidade como conjunto de ideologias defensoras da emancipação libertária dos seres sencientes. Nem a considerá-la uma característica positiva e proveitosa para as lutas.

Da impotência que faz comemorarem os mais ínfimos ataques “bem-sucedidos” aos opositores de direita até o descarte, por parte de alguns, da liberdade de expressão e do respeito à diversidade de opiniões como valores, fica evidenciado que a esquerda no Brasil está enfraquecida e doente. É preciso repensarmos crenças e práticas viciosas, fazermos as devidas autocríticas e reconstruirmos as lutas – isso a tempo antes que a direita reacionária seja bem-sucedida em destruir o pouco que há de democracia no Brasil.

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