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jun15

O reino das falácias de Rachel Sheherazade (Parte 6)

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Esta é a sexta postagem, de dez, sobre o uso de falácias por Rachel Sheherazade em grande parte, senão em todos, de seus argumentos conservadores. Esta e as próximas três postagens virão com quatro textos desmontados.

São priorizados nesta série artigos que escancarem a posição ideológica conservadora de direita da comentarista.

Leia aqui todos os posts da série

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17. O direito de ser de direita – 27/04/2015

Meu destaque final vai para o excelente artigo do colunista de VEJA, José Roberto Guzzo, intitulado MAIORIA SEM MEDO, publicado nessa semana.

Em sua coluna, o jornalista chama atenção para a preocupação do PT com relação ao crescimento da direita no Brasil.

Tradicionalmente, o máximo da direita que o PT admite é o PSDB, partido da social democracia, que está a anos luz do pensamento conservador. O ex-presidente Lula nunca escondeu seu contentamento em disputar as últimas eleições somente com candidatos da esquerda.

Falácia de omissão – Sheherazade omite que, ao longo desses anos, o PT manteve boa parte da direita, incluindo o PP de Jair Bolsonaro e Paulo Maluf e o PSC de Marco Feliciano, em sua base aliada, e que só em 2014 partidos como o PSC se desgarraram da base aliada de Dilma.

Distorção de fato – Ela não distingue entre a direita partidária que está ou estava na base aliada de Dilma e a direita oposicionista, composta por tucanos, simpatizantes do PSDB e apartidários assumidos.

Anfibologia – Não está claro se as “últimas eleições” referidas são as eleições presidenciais nas quais Lula concorreu e ganhou (em 2002 e 2006), as eleições concorridas por Dilma (2010 e 2014) ou as eleições de 2018, que, caso a reeleição no Poder Executivo seja abolida de fato e Lula siga em frente como candidato, poderão ser a última campanha eleitoral dele.

Invenção de fato – Inventa que as “últimas eleições” (que não sabemos quais são, vide a anfibologia acima) foram (ou serão) disputadas “somente com candidatos da esquerda”, esquecendo nomes que definitivamente não tinham um programa de governo de esquerda, como Pastor Everaldo, Eymael, Levy Fidelix e os candidatos do PSDB.

Para o partido de Lula e Dilma, o avanço do pensamento conservador é um risco, uma ameaça, um perigo à democracia.

Distorção de fato – Deixa a entender que a ameaça à democracia seria apenas o pensamento em si, em ascensão, e não as bandeiras que ele tem sacudido – diversas delas orientadas ao ódio contra minorias, à revogação de direitos, à oficialização do autoritarismo como modo de governar, à perseguição política de opositores etc. – e as possíveis consequências das mesmas.

E Guzzo questiona:

“É estranho. Em qualquer sociedade democrática o pensamento conservador é tão legítimo quanto qualquer outro. O que poderia haver de errado em acreditar que existem valores, convicções e costumes que devem ser conservados por parecerem corretos a que os admira e defende?”

Falácia do espantalho reversa, falácia de omissão – Reduz o conservadorismo brasileiro como se vê hoje a “acreditar que existem valores, convicções e costumes que devem ser conservados por parecerem corretos a que os admira e defende”, escondendo sua faceta autoritária, avessa aos Direitos Humanos e às liberdades civis, defensora da perseguição política e da censura e adepta do fanatismo.

O jornalista segue defendendo que que todo cidadão que se comporte dentro das leis, tem direito a suas opiniões, crenças e julgamentos sobre o que é bom ou ruim.

Falácia de omissão 1 – Novamente esconde que não está em jogo apenas ideias e crenças convencionadas como “conservadoras de direita”, mas sim uma proposta autoritária, perseguidora, censuradora e eliminadora de liberdades de comando político para o Brasil.

Falácia de omissão 2 – Esconde também as diversas violações à lei promovidas ou apoiadas pelo conservadorismo reacionário em ascensão, como violências contra pessoas de minorias políticas, defesa de golpe militar e crimes cometidos por policiais militares (abuso de autoridade, tortura, constrangimento ilegal etc.).

Segundo Guzzo, a própria Constituição não proíbe que alguém seja de direita ou o obrigue a ser de esquerda.

Distorção de fato – Guzzo e Sheherazade expõem a crença de que o verdadeiro problema seria “ser de direita”, e não defender violações diversas à lei, o ódio e a intolerância contra minorias políticas, a perseguição política, a censura, a quebra do regime democrático vigente por força militar etc.

(Obs.: É curioso o silêncio e acobertamento, por parte dos conservadores “civilizados” e “letrados”, sobre os incontáveis abusos perpetrados por reacionários convictos.)

Ao contrário do que pregam os partidos vermelhos, a política partidária não pode ser dividida entre conservadores e progressistas, como se os conservadores fossem automaticamente contrários ao progresso.

Falácia do espantalho, generalização precipitada – Teoriza indevidamente que “os partidos vermelhos” dividem estritamente o Brasil na dicotomia “conservadores X progressistas” e ignoram a existência, por exemplo, de liberais (tanto livre-mercadistas quanto liberais da corrente estadunidense), fascistas, teocratas, comunistas, anarquistas etc.

O desespero real do PT e de seus partidos satélites como PcdoB, PSOL, PCB, PCO, PSTU, é constatar que o pensamento conservador não tem crescido no Brasil, mas ele sempre foi maioria entre a população, muito embora não haja, no país, uma legenda ideologica e genuinamente de direita que possa representar, no parlamento, essa filosofia.

Quem dera!

Invenção de fato 1 – Tacha de “satélites do PT” partidos que na verdade são oposição de esquerda do mesmo – especificamente PSOL, PCB, PSTU e PCO.

Invenção de fato 2, omissão de fontes – Imagina, sem nenhuma comprovação estatística e/ou histórica, que “o pensamento conservador não tem crescido no Brasil, mas ele sempre foi maioria entre a população”.

O que o PT não aceita é que, apesar e ter a hegemonia política, o pensamento de esquerda não é hegemônico, não encontra eco nos valores da maioria dos brasileiros.

Omissão de fontes – Alega que “o pensamento de esquerda (…) não encontra eco nos valores da maioria dos brasileiros” sem apresentar nenhuma fonte estatística disso.

Falsa dicotomia – Divide os pensamentos político-ideológicos de todos os brasileiros, rigidamente, entre “pensamento de esquerda” e “pensamento de direita”, ignorando que muitas pessoas podem ter algumas crenças e posições de esquerda e outras de direita, como os declarados de centro-esquerda, centristas e de centro-direita.

Mais de 90 por cento se declaram cristãos, que, por essência são conservadores, pois têm o compromisso de manter vivos os valores e os ensinamentos milenares de Jesus.

Falsa causa – Cria uma falsa relação de causa e efeito entre ser cristão e ser conservador.

Falácia do espantalho inversa, invenção de fato – Atrela o cristianismo ao conservadorismo, quando na verdade há interpretações de esquerda aos ensinamentos bíblicos de Jesus e muitos dos comportamentos vistos vindos de conservadores se opõem polarmente aos mesmos.

Não à toa, as bancadas cristãs estão cada vez mais fortes, pois os cidadãos procuram eleger quem defenda seus interesses e seus princípios.

Distorção de fato, falácia de omissão, falácia do espantalho reversa – Omite as diversas manipulações e outras táticas desonestas, promovidas por candidatos teocratas, para conquistarem votos acríticos de evangélicos, e pinta esses mesmos teocratas como “representantes legítimos dos interesses e princípios dos cidadãos cristãos”.

Outra prova do conservadorismo do brasileiro está demonstrada em números: pesquisas dizem que a maioria da sociedade, 87 por cento dos cidadãos, é favorável à redução da da maioridade penal para 16 anos.

Apelo à autoridade anônima, omissão de fontes – Menciona “pesquisas” sem nome, sem autoria, sem data e sem fonte para tentar corroborar a suposta estatística trazida.

O brasileiro também defende penas mais duras para condenados por crimes graves, outra bandeira do pensamento conservador.

Generalização precipitada – Menciona “o brasileiro” como defensor de “penas mais duras para condenados por crimes graves”, como se toda a população brasileira defendesse essa medida.

Sim, os conservadores estão, finalmente, saindo do armário, e fazendo coro contra o pensamento de esquerda, que julgava-se dominante.

O PT está com medo, pois agora é a direita que não tem mais medo de mostrar a sua cara e defender abertamente suas bandeiras, seus pensamentos, valores e princípios. Sem medo de ser direito.

Distorção de fato – Considera que a direita só agora estaria “saindo do armário”, quando na verdade ela sempre foi a parcela hegemônica do espectro ideológico no Brasil, graças à mídia, à publicidade empresarial, às igrejas e a muitas escolas.

Falácia de omissão – Omite o papel dos governos federais do PT como favorecedores da radicalização recente do conservadorismo no Brasil.

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18. Ex-gays: eles também existem – 29/04/2015

Hoje eu poderia denunciar mais um caso de racismo, de preconceito contra nordestinos, discriminação contra mulheres, ou homofobia. Mas quero falar de um tipo de preconceito silencioso e pouco difundido que sofrem os chamados ex-gays – homossexuais que, por razões diversas (religiosas, sociais ou de foro íntimo), decidiram deixar a prática ou a condição de homossexuais.

Falácia de omissão 1 – Sheherazade omite que a homoafetividade e homossexualidade é uma qualidade interente a alguns indivíduos (estima-se que 10% da população brasileira) e não pode ser “eliminada” da psique da pessoa.

Falácia de omissão 2 – Omite também os processos que violentamente levam homossexuais a reprimirem sua orientação sexo-afetiva e se declararem, ou acreditarem ser, “ex-gays” ou “ex-lésbicas”.

Falácia de omissão 3 – Omite também que alguns “ex-homossexuais” na verdade são bissexuais, tendo descoberto que também sentem afeto e atração sexual por pessoas do gênero convencionado como “oposto”.

O deputado Marco Feliciano convocou uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos para discutir o assunto.

O parlamentar, que também é pastor, e desenvolve um trabalho voltado a cristãos gays, defendeu o debate dizendo que os ex-homossexuais enfrentam duplo preconceito da sociedade: tanto dos héteros, quanto dos certos grupos LGBT, que os tratam como dissimulados, fingidos ou doentes mentais.

Falácia do espantalho, omissão de fontes – Atribui aos “certos grupos LGBT” o maltrato a pessoas que se dizem “ex-homossexuais”, sem apresentar nenhum exemplo ou fonte dessa suposta informação.

Falácia de omissão – Esconde as verdadeiras formas como grupos de militância pela diversidade sexual tratam a questão dos “ex-homossexuais”.

Nove ex-gays foram convidados a participar da audiência e contar, aos parlamentares, seus dilemas, seus sofrimentos, e o preconceito de que são vítimas. A intenção é cobrar proteção do Estado a essas pessoas, por se tratarem da minoria de uma minoria.

Apesar da forte discriminação, os novos héteros não têm medo de mostrar o rosto, nem de relatar suas sofridas historias de vida.

Vídeos de ex-gays estão se proliferando nas redes sociais, com um alerta em comum: “Eu existo”.

Falácia de omissão – Esconde que, entre esses sofrimentos, estão a repressão sexual, a coerção vinda de suas igrejas e a tentativa de ser quem na verdade não são.

Os depoimentos, que postarei em meu blog pessoal, revelam a angústia de quem decidiu mudar de opção sexual, um direito de qualquer cidadão – gay ou não.

Distorção de fato – Confunde orientação sexual, que é algo inerente aos seres humanos, com “opção” sexual. Traz a falsa crença de que é possível deixar de ser homossexual para se tornar hétero, ou, como outro exemplo, optar por deixar de ser hétero para se tornar bissexual.

**, homossexual desde os 14 anos, conta que teve apoio total da comunidade LGBT para se assumir; que, à época, sofreu preconceito por ser gay, mas, foi muito mais repreendido quando decidiu voltar a ser hétero.

**, ex-lésbica, revela que após ser abusada dos 8 aos 15 anos, achava que não seria feliz ao lado de um homem, por isso, se assumiu gay. Quando deixou a homossexualidade, passou a ser discriminada. Disseram-lhe que o que ela vivia era uma mentira. Mas, ** rebate: “ninguém está na minha pele para dizer o que eu sinto ou deixo de sentir.”

**  também sofreu violência sexual na infância. Hoje sofre outra forma de abuso. É discriminado pelos amigos; acusa o ativismo gay de perseguição e ameaça; e ainda completa: “Até o Conselho de Psicologia não nos reconhece. Para eles, eu não existo. Mas, eu existo. Eu sou livre, numa nação livre, para viver segundo aquilo que eu acredito.”

Evidência-anedota – Coloca relatos pessoais, que nem sempre são confiáveis em termos de veracidade, como “provas” objetivas de que, nesse caso, existe “ex-homossexualidade” e “repressão e preconceito contra ex-homossexuais”.

Falácia de correlação coincidente, falsa causa, falácia do espantalho, invenção de fato – Teoriza, preconceituosamente, que a homossexualidade é fruto de abusos sexuais na infância.

A psicóloga Marisa Lobo é uma das que apoiam e reconhecem a condição dos ex-gays. Ela está redigindo um relatório para ser entregue à ONU, onde descreve cerca de cem casos de gays e lésbicas que mudaram sua opção sexual.

Se gays não têm cura, pois a homossexualidade não é, definitivamente, uma doença, eles têm ao menos o direito de tentar mudar de opção, se assim o quiserem. A isso, damos o nome de livre arbítrio.

Distorção de fato – Novamente confunde orientação sexual, algo imutável, com uma “opção” que pode ser livremente modificada a qualquer momento.

** Nomes suprimidos pelo Consciencia.blog.br

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19. O progresso requer sacrifícios – 05/05/2015

Não é à toa que o PL 4.330 passou dez anos parado na Câmara. O projeto de terceirização é complexo, polêmico e divide opiniões.

Há economistas contra a e a favor da proposta. No Congresso, o presidente da Câmara quer a aprovação, o do Senado garante que vai mudar o projeto.

A presidente Dilma, que mal entende de governo e muito menos de negócios, já que conseguiu afundar uma lojinha de um e 99, se posicionou contra a terceirização.

Ataque pessoal (ad hominem), bulverismo, apelo à hipocrisia (tu quoque) – Desqualifica a opinião de Dilma em função de um trecho do seu passado, ao invés de tentar rebater os argumentos dela.

Para o ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, esse, sim, um especialista no assunto, a resistência ao projeto é demagógica e ideológica. Para o economista, a terceirização é favorável aos trabalhadores e não diminui nem direitos, nem salários.

Desqualificação pessoal (ad hominem) – Trata Dilma como se tivesse menos direito e embasamento para opinar do que o ex-ministro Maílson da Nóbrega, por este ter tido uma autoridade econômica e Dilma não.

Apelo à autoridade – Confere mais legitimidade à opinião de Nóbrega do que à de Dilma por Nóbrega ele ter sido dotado da autoridade de ministro da fazenda no passado.

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf diz que, caso aprovada, a lei poderá gerar, no futuro, mais de três milhões de empregos no país.

Falácia de omissão – Sheherazade esconde o que proporcionaria esses três milhões de empregos a mais. Omite que, por exemplo, esses empregos seriam de alta rotatividade e poderiam vir resultantes de prévia demissão de outras pessoas.

O impacto nos direitos trabalhistas é uma das questões mais delicadas do projeto. Os defensores dizem que não haverá precarização de direitos, já que as empresas terceirizadas seriam obrigadas a seguir a CLT, assegurando aos subcontratados, todos os benefícios, como férias e décimo terceiro.

Falácia de omissão 1 – Esconde que esses direitos são bem inferiores aos trabalhadores que são integralmente beneficiados pela CLT.

Falácia de omissão 2 – Omite também que há incontáveis casos de violação de direitos trabalhistas em empresas terceirizadas, além de haver inclusive um risco de vida maior para subcontratados do que para empregados celetistas.

De acordo com o projeto aprovado na Câmara, as empresas contratante e terceirizada são corresponsáveis no cumprimento das obrigações trabalhistas.

Falácia de omissão – Sheherazade omite o principal ponto de discórdia do projeto de lei: que a atividade-fim da empresa poderá ser feita com mão-de-obra terceirizada (ex.: uma escola poderá subcontratar professores subordinados a uma empresa de terceirização, não devendo mais ter esses professores como seus subordinados diretos).

Falácia do espantalho sutil, distorção de fato – Ela deixa a entender que a oposição ao PL estaria defendendo para já a extinção total da terceirização no Brasil, e não a extensão da terceirização à atividade-fim das empresas privadas e públicas.

Para a CUT, que é contra o projeto, a terceirização não só reduziria os salários e benefícios dos trabalhadores, como também aumentaria a carga horária do terceirizado.

Pesquisa da Central Única aponta que o terceirizado permanece quase três anos a menos no emprego que os demais contratados e estão mais sujeitos a acidentes de trabalho, devido à falta de capacitação.

Falácia de omissão, distorção de fato – Esconde que a CUT é contra, sobretudo, a extensão da terceirização às atividades-fins.

Mudanças nas relações de trabalho sempre geraram muita discussão e até confrontos desde o início da industrialização. Mas, foi graças a esses embates que chegamos até aqui – com mais desenvolvimento, mais geração de empregos, mais lucros e mais direitos trabalhistas.

Falácia de omissão – Sheherazade omite que os embates em questão foram as lutas dos trabalhadores por mais direitos e pelo respeito aos existentes, lutas essas que comumente se tentou silenciar com violência e coação, enquanto, em diversos momentos, como hoje, o patronato tentou mexer os pauzinhos para cassar esses direitos – e, como no caso da extinção da estabilidade empregatícia e sua substituição pelo FGTS na ditadura militar, conseguiu, uma vez que o movimento sindical-trabalhista estava sob repressão na época.

Independente do que decidir o Congresso Nacional sobre a questão da terceirização, é bom que se diga: toda mudança gera perdas e ganhos. O progresso requer sacrifícios tanto de um lado quanto de outro.

Falácia de omissão, distorção de fato – Omite que, no caso da nova lei de terceirizações, o “sacrifício” é compulsório e só atinge os trabalhadores.

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20. Psicologia e cristofobia [sic] – 13/05/2015

Está marcado para o próximo dia 22, no Conselho Federal de Psicologia, o julgamento da psicóloga Marisa Lobo.

Ela teve o registro profissional cassado sob alegação de que teria ferido o Código de Ética ao declarar, em seu blog pessoal e na sua conta no twitter, ser cristã.

Falácia do espantalho, distorção de fato – Sheherazade reproduz o argumento falso de que Marisa Lobo teria perdido seu registro profissional simplesmente por “declarar ser cristã”, e não por sua insistência em promover a chamada “cura gay” e impor suas crenças religiosas no seu ofício de psicóloga.

O Conselho havia notificado a psicóloga, e estabelecido prazo de 15 dias para que retirasse qualquer menção ao cristianismo de suas redes sociais. A psicóloga se negou, e o Conselho de Psicologia, eivado de preconceito e arbitrariedade, decidiu processá-la.

Falácia do espantalho, distorção de fato – A decisão do CFP foi que ela parasse de misturar suas crenças religiosas com seu trabalho de psicóloga, e não uma irrazoável “perseguição religiosa”.

Seria um caso de cristofobia? Pois, estranhamente, o órgão não processou outros profissionais que se denominam budistas, xamanistas, judaicos, umbandistas, e até parapsicólogos… Não estariam eles incorrendo nas mesmas “transgressões”?

Falácia de omissão – Omite-se aqui que não houve no Brasil, até hoje, nenhum caso denunciado de judeus, muçulmanos, afrorreligiosos, espíritas etc. promovendo coação religiosa em seus consultórios.

A Ordem dos Advogados se manifestou sobre o caso, e, em parecer técnico, classificou o inquérito contra Marisa Lobo de “descabido” e “inconstitucional”. Não adiantou. A psicóloga teve o registro cassado. Seis meses depois, a Justiça Federal anulou a cassação. Mas, o Conselho apelou ao Supremo, e marcou um novo julgamento para a psicóloga.

Falácia de omissão – Sheherazade omite as razões pelas quais o CFP rejeitou a defesa de Marisa Lobo.

Para Marisa, a reabertura do caso não passa de retaliação, depois que ela participou de uma audiência na Comissão de Direitos Humanos para ouvir o depoimento de ex- gays.

Como outros psicólogos, ela também defende o direito dos pacientes recorrerem à ajuda profissional para resolver conflitos de orientação sexual, o que foi vedado pelo Código de Ética.

Falácia de omissão – Como abordado na listagem das falácias do segundo discurso neste post, Sheherazade omite o que existe por trás das “terapias” religiosas e pseudopsicológicas de “mudança” de orientação sexual.

Estranho, o Conselho de Psicologia proibir pessoas de procurar ajuda profissional para reverter sua orientação sexual, mas não questionar o direito dos gays de mudar de sexo por meio de cirurgias, bancadas pelo SUS.

Distorção de fato 1 – Confunde identidade de gênero (pessoas trans) com orientação sexual (gays), sendo ambas coisas completamente diferentes.

Distorção de fato 2 – Trata de maneira rasa a questão da identidade de gênero, como se ela fosse algo totalmente flexível (à parte pessoas de gênero fluido), ao invés de inerente ao indivíduo. Teoriza que “homens viram mulheres e vice-versa”, quando o que realmente acontece é que pessoas trans já nascem e crescem com determinada identidade de gênero, mesmo que tenham um outro gênero imposto ao nascerem por conta do genital e demorem para descobrir e assumir sua verdadeira identidade.

Então, o cidadão tem liberdade para ser gay, mas não pode querer deixar de ser? É isso, ou estou enganada?

Falácia do espantalho, distorção de fato, falácia de omissão – Coloca a orientação sexual como se fosse algo mutável e flexível, que pode ser mudada a qualquer momento, ao invés de uma condição inerente ao indivíduo. Desenha a questão da orientação sexual como se fosse “questão de liberdade” “deixar de ser gay”, ignorando que a “ex-homossexualidade” é ela mesma resultado de negação da liberdade de orientação sexual.

Falsa analogia – Compara erradamente a liberdade de ter, por toda a vida, uma orientação sexual diferente do que a heteronormatividade exige, com a “liberdade de deixar de ser gay”.

Segundo Marisa Lobo, o Conselho quer cassá-la porque ela se recusa a negar sua religião e por afirmar que ex-gays existem.

Distorção de fato – Marisa Lobo diz que a cassação seria por ela “assumir-se cristã”, e não por misturar suas crenças religiosas (fundamentalistas, a saber) com o exercício da profissão de psicóloga.

Daqui a nove dias, o futuro profissional de Marisa estará nas mãos do Conselho Federal de Psicologia. Todos sabemos que conselhos não são peritos em legislação, por isso, não custa lembrar aos ilustres membros do C.F.P., alguns incisos do artigo 5º, aquele que trata dos direitos fundamentais do cidadão:

“É livre a manifestação do pensamento; é inviolável a liberdade de consciência e de crença; e ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa.”

Nenhum código de ética profissional, senhores psicólogos, pode estar acima da Lei Maior.

Distorção de fato – Confunde a imposição coerciva de uma crença religiosa (que é o que acontece em consultórios de “psicólogos” que misturam sua religião com seu trabalho) com a liberdade de ter livremente uma crença.

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Conheça as falácias nessas páginas:

http://www.logicallyfallacious.com/index.php/logical-fallacies (em inglês)
https://ateus.net/artigos/ceticismo/guia-de-falacias-logicas-do-stephen/
http://livrepensamento.com/guia-de-falacias-logicas/
http://veganagente.consciencia.blog.br/guia-de-falacias-carnistas/ (lista de falácias antiveganas que pode servir de base para detectar falácias com outros temas)

 

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