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O reino das falácias de Rachel Sheherazade (Parte 7)

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Esta é a sétima postagem, de dez, sobre o uso de falácias por Rachel Sheherazade em grande parte, senão em todos, de seus argumentos conservadores. São priorizados nesta série artigos que escancarem a posição ideológica conservadora de direita da comentarista.

Leia aqui todos os posts da série

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21. Condecoração ao petismo – 22/04/2015

Vaias sonoras e um panelaço foram o pano de fundo pra solenidade de entrega da medalha da inconfidência, principal horaria concedida pelo governo de Minas.

O governador petista Fernando Pimentel entregou a medalha a 141 pessoas, entre elas vários petistas, com o advogado geral da União do governo Dilma, Luiz Adams, o ministro do planejamento, Nelson Barbosa, além do ministro e atual presidente do STF, Ricardo Lewandowsky que, inclusive votou contra a condenação da cúpula petista no processo do mensalão.

Falácia de omissão – Sheherazade omite aqui o viés ideológico-partidário conservador e antipetista das vaias e do panelaço. Esconde que as razões desse protesto não eram altruístas e abrangentes (ex.: revolta contra a corrupção em todos os partidos, reivindicações que visem a apuração e julgamento de todos os casos de corrupção), e sim permeadas de interesses político-partidários, tendo sido uma manifestação de “indignação” seletiva.

O magistrado foi o principal contra-ponto ao relator do mensalão, o paladino da Justiça, Joaquim Barbosa. Graças ao empenho sobre-humano do ministro, da irretocável relatoria de Barbosa e de sua incansável luta por justiça, os principais réus do escândalo acabaram na cadeia, ainda que por pouco tempo, graças a uma manobra no STJ, que reformou uma decisão anterior e livrou os réus do crime de formação de quadrilha.

Falácia do espantalho reversa, distorção de fato, falácia de omissão – Joaquim Barbosa é sacralizado, como um super-herói imaculado, no discurso da comentarista, como se ele nunca tivesse cometido falhas em sua atuação e não tivesse se dedicado a apenas alguns casos de corrupção, quando poderia ter julgado outros com o mesmo afinco.

Mas, o que causou a maior revolta na cerimônia de condecoração foi a homenagem concedida ao comandante do MST, o líder anarquista do Movimento dos sem Teto, um movimento dito social, mas que se alimenta da pobreza e da ignorância de seus seguidores para propagar a violência e praticar crimes impunemente.

Invenção de fato 1 – Atribui a João Pedro Stédile uma suposta postura ideológica anarquista (caso tenha sido esse o sentido do termo “anarquista” usado no discurso).

Equívoco – Confunde o ouvinte sobre qual é o sentido da palavra “anarquista” usado por Sheherazde – se é no sentido de defensor de uma das vertentes do anarquismo ou no sentido pejorativo senso-comum de “desordeiro” e “promotor do caos e da negação das regras morais”.

Invenção de fato 2, omissão de fontes – Acusa Stédile, sem apresentar nenhuma prova e embasamento, de “se alimenta[r] da pobreza e da ignorância de seus seguidores para propagar a violência e praticar crimes impunemente”.

O movimento é subordinado também aos caprichos do poderoso chefão petista Luiz Inácio Lula da Silva, como ficou claro durante a convocação do ex-presidente para que o MST saísse às ruas contra as passeatas pró-impeachment.

Distorção de fato, falácia do espantalho – O MST não saiu as ruas “contra as passeatas pró-impeachment”, no sentido de tentar impedi-las e/ou opor-se violentamente a elas, mas sim para lhes fazer o contraponto político, defendendo o governo e o respeito ao voto da maioria da população (voto esse que reelegeu Dilma em 2014).

Por ordem do exercito de Stédile, soldados, armados de foices e ancinhos, queimam pneus, bloqueiam rodovias, impedem o direito de ir e vir do cidadão, invadem propriedades privadas, destroem maquinários, queimam plantações, depredam laboratórios, intimidando o estado democrático de direito.

Distorção de fato, falácia de omissão, falácia do espantalho – As ações do MST são pintadas aqui como vilanias superviolentas, sem distinção de alvos (como se ocupasse propriedades rurais quaisquer, incluindo roças familiares, e não enfocasse os latifúndios) e dotadas de intenções absolutamente malignas. Exagera-se na “descrição” das ações do movimento e invisibiliza-se as bandeiras defendidas pelo mesmo.

A condecoração de João Pedro Stédile pelo governador petista João Pedro Stédile é uma ode à ilegalidade e ao crime.

Distorção de fato – A partir do exagero e da malignização das ações do MST, Sheherazade considera as lutas do movimento, representadas na solenidade por Stédile, algo “maligno”, “ilegal” e “criminoso” e trata a solenidade como “uma ode à ilegalidade e ao crime”.

O Movimento vem Pra Rua, uma das principais lideranças dos protestos pró-impeachment, divulgou nota repudiando a condecoração. “Repudiamos que a medalha da inconfidência seja dada a apadrinhados do PT. Tiradentes é um herói que não merece tamanha afronta.” diz o texto do Vem Pra Rua.

Para o movimento, apadrinhados do PT de reputação duvidosa, pessoas ligadas a corrupção e à impunidade não deveriam ser condecoradas pelo governador Pimentel.

Falácia de omissão – Omite-se aqui que o “movimento” Vem Pra Rua não está interessado em defender o mesmo boicote de condecorações a corruptos e outros criminosos de fora do PT.

Bem se era para reverenciar os companheiros, porque não incluir na lista de condecorados os grandes mártires do partido dos trabalhadores. Faltou o trio de heróis do mensalão: Dirceu, Delúbio e Genoíno.

É o cúmulo do cinismo!

Falácia do espantalho – Afirma erroneamente que a condecoração era “para reverenciar os companheiros [do PT]”, e não pelo mérito de Stédile em coordenar o MST em suas ações de luta pela terra.

Redução ao absurdo – Imagina uma consequência absurda, embora improvável, para a condecoração: a homenagem ao “trio de heróis do mensalão [petista]”.

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22. Je suis Aussi Moro – 15/05/2015

Enquanto a Excelentíssima senhora presidente da República, Dilma Rousseff se esconde dos brasileiros temendo vaias, xingamento e panelaço, o juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava é recebido como herói nacional por onde quer que passe.

Distorção de fato 1, falácia do espantalho – Sheherazade pinta Dilma como se suas decisões de se esquivar da mídia fossem mera “covardia” ao invés de estratégias políticas que, mesmo que sejam questionáveis, merecem uma análise mais aprofundada.

Distorção de fato 2, generalização precipitada – Argumenta falsamente que Dilma está “se escondendo dos brasileiros”, ao invés de ter optado por dar suas declarações em meios de visualização mais voluntária – a transmissão via internet. Ao contrário do que acontece na televisão, a opção pela transmissão online do discurso não interrompe a programação de nenhuma emissora audiovisual, tampouco interfere no que os internautas estão fazendo ao usar a internet.

Falácia do espantalho reversa, falácia de omissão – Sérgio Moro é introduzido como um “herói nacional” – tal como Joaquim Barbosa na listagem de falácias do texto anterior –, como se suas ações (e omissões) não estivessem sendo criticadas por muitas pessoas dotadas de argumentos compreensíveis. Omite-se, por exemplo, que Moro não tem dado a mesma atenção de justiça às denúncias contra parlamentares de partidos como o PMDB, o PSDB e o PP, em outros escândalos, já escancarados ou a serem revelados, que não a Lava Jato.

Ontem, o magistrado paranaense foi ovacionado durante o lançamento de um livro em São Paulo. Ao chegar ao local do evento, Moro foi imediatamente cercado por dezenas de pessoas, que seguravam cartazes e faixas com dizeres “Je Suis Moro” (Eu sou Moro, em francês). Outros, saudavam o Ministério Público, e, como não poderia faltar, também havia cartazes que pediam o impeachment de Dilma. Até um ramalhete de rosas foi entregue ao juiz mais popular do Brasil.

Entre pedidos de entrevista e selfies, Moro estava visivelmente constrangido com o assédio do público. Costuma trabalhar anonimamente, sem as luzes da ribalta. Mas, o escândalo do Petrolão o tornou uma verdadeira celebridade.

Falácia de omissão – Sheherazade omite o viés ideológico e partidário dessas manifestações. Omite que a maioria dos que o receberam como “herói” estão interessados não que magistrados honestos passem a limpo a política no Brasil, mas sim em vê-los desmoralizar e até mesmo clandestinizar o PT e (todos os) seus membros.

Por sua retidão, sua conduta legalista e inflexível com os réus e investigados, Moro tem sido alvo de muitas críticas principalmente dos advogados dos réus e de militantes dos partidos envolvidos no esquema.

Falácia de omissão – O discurso não revela que críticas são essas. Essa omissão é estratégica, já que através dela Sheherazade sonega a seus ouvintes o conhecimento das razões que levam muitas pessoas a criticarem a atuação de Sérgio Moro e refletir autonomamente a partir delas, e o faz parecer um super-herói infalível, cujas ações (contra o PT e seus membros) estão “sempre certas”.

Mas, o juiz austero que não se dobra diante das intimidações nem mesmo das ameaças tem o apoio e a admiração incondicionais da maioria da população.

Falácia de omissão, omissão de fontes – Sheherazade não diz em que consistem essas ameaças, nem de onde vieram, nem quais noticiários divulgaram que Moro tenha sido ameaçado.

Invenção de fato, omissão de fontes – Desenha a crença, desprovida de qualquer fonte estatística, de que “a maioria da população” apoia e admira “incondicionalmente” o juiz.

No Brasil de hoje, não é qualquer magistrado que tem as medidas certas de decência, competência, lisura, coragem e resiliência.

Moro tem todas essas virtudes. Para a sorte dos brasileiros e infortúnio dos corruptos.

Falácia do espantalho reversa – Sérgio Moro novamente é divinizado e convertido em “super-herói”, como se não cometesse falhas e não estivesse sendo omisso, por exemplo, perante denúncias contra deputados e senadores ruralistas e teocratas.

Depois da aposentadoria inesperada do paladino da Justiça, o ex-ministro Joaquim Barbosa, relator do processo do Mensalão, a esperança dos brasileiros na idoneidade da Justiça, no fim da impunidade para os poderosos finalmente renasceu na figura de Sérgio Moro.

Falácia do espantalho reversa – Idem ao trecho anterior, adicionando-se a divinização de Joaquim Barbosa.

Em circunstâncias normais, um juiz seria apenas um julgador, um operador do Direito com o dever de aplicar as leis e nada mais.

Mas, nestes tempos tenebrosos, de profunda crise ética e de uma quase absoluta carência moral, um juiz íntegro e perseverante pode sim, ser mais que um magistrado, e se tornar um verdadeiro herói.

Je suis aussi Moro!

Falácia de omissão, falácia do espantalho reversa – Sheherazade esconde que Moro também poderia estar atuando, com o mesmo afinco relatado pela direita, contra a corrupção e a improbidade de políticos de outros partidos que não o PT, mas não o está.

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23. Cadeia para o menor – 29/05/2015

Enquanto o Brasil ainda discute, sem sair do lugar, a redução da maioridade penal, a Áustria, no velho continente, não espera: faz acontecer.

O país condenou, ontem, um adolescente de 14 anos a dois anos de prisão por acusações de terrorismo. É que lá na Áustria, que tem uma das menores taxas de homicídio da Europa, o menor não pode se esconder atrás de uma legislação retrógrada e paternalista para cometer impunemente seus crimes. Não! Nem pode alegar a pouca idade para escapar da punição. De jeito nenhum! Nos tribunais austríacos não há lugar para vitimização de criminosos.

Falsa causa, falácia de correlação coincidente – Sheherazade deixa a entender que a maioridade penal estrita é a razão, ou uma das principais razões, pelas quais a Áustria alegadamente tem “uma das menores taxas de homicídio da Europa”.

Falácia de omissão – Omite que a responsabilização penal de adolescentes de 14 a 17 anos na Áustria não é uma maioridade penal propriamente dita, havendo nessa faixa etária medidas socioeducativas não tão diferentes do que já acontece no Brasil. (Outra fonte)

O jovem, que estava detido preventivamente há 16 meses para investigação, declarou-se culpado das acusações e cumprirá o restante da pena num centro de detenção juvenil, de onde só poderá sair em liberdade condicional. Isso, SE for submetido a uma psicoterapia.

Falácia de omissão – Omite que no Brasil já existe responsabilização penal para menores de 18 anos, ainda que, como no caso da Áustria, as penas não sejam tão duras quanto na idade adulta e visem mais a reeducação socioeducativa do adolescente do que a simples punição.

Falácia de equívoco, distorção de fato – Confunde a penalização de adolescentes na Áustria com maioridade penal.

E o que fez o adolescente? Ele baixou, da internet, instruções sobre como construir uma bomba e pretendia cometer atentados terroristas em Viena. Também fez contato com militantes do Estado Islâmico para lutar na Síria junto ao grupo terrorista, cometendo estupros coletivos e degolando cabeças por onde passasse.

O garoto era uma verdadeira bomba-relógio, prestes a levar pelos ares os “infiéis” austríacos. Mas, seus planos foram frustrados, pois o protótipo de terrorista encontrou pela frente uma polícia articulada e eficiente, leis duras e uma Justiça corajosa que investigam, processam, prendem e punem sociopatas que não merecem nem têm condições de viver em sociedade.

Falácia de omissão – O discurso omite que ele foi persuadido pela propaganda do Estado Islâmico, e o trata como se tivesse simplesmente surgido dentro dele, espontaneamente, do alto de uma (na verdade inexistente) maturidade psicossocial, a “vontade” de cometer terrorismo, isentando o EI do papel de tê-lo seduzido e atraído ao terrorismo.

Sem choro nem vela. O terroristazinho teve o que mereceu. E ainda servirá de exemplo para outros desmiolados simpatizantes do Estado Islâmico. O recado da Áustria para os criminosos – adultos ou jovens – é claro: o país não dialoga com terroristas. Para o bem dos austríacos, ele os pune.

Falácia de omissão – Sheherazade esquece que a Áustria não tem nenhum reconhecimento mundial de eventualmente se opor a todo e qualquer terrorismo. O Estado austríaco não se posiciona, por exemplo, contra o terrorismo de Estado cometido em países do Sul por países geopoliticamente poderosos.

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24. O crime é uma escolha, não uma imposição – 29/05/2015

Foi preso, ontem, o segundo menor suspeito de assassinar o médico Jaime Gold. Ele foi morto a facadas enquanto pedalava na Lagoa, um dos principais cartões postais do Rio.

Jaime foi derrubado e, mesmo indefeso, rendido, no chão, levou quatro golpes certeiros, que atingiram a axila, o tórax e o abdome.

O primeiro menor preso, filho da catadora [nome omitido*], já era um velho conhecido da Polícia e da Justiça. Cumpria medida sócio-educativa por outro crime e estava foragido.

Também tem um histórico de roubos de celulares, cordões, e, claro, bicicletas, cujas marcas conhece bem.

Segundo a Polícia, costumava roubar cinco bicicletas por mês, principalmente, das grifes Burnett e Giant. O ladrão tem 15 passagens por roubo e furto, cinco deles com uso de faca ou tesoura. Coincidência?

(Trecho sem falácias, já que os parágrafos acima não trazem argumentos, mas sim descrições objetivas)

Caso a proposta da redução da maioridade penal já tivesse sido aprovada, é provável que o desfecho do crime na Lagoa tivesse sido outro.

Falácia da causa complexa – Supervaloriza a “importância” e o impacto da redução da maioridade penal na prevenção de crimes/delitos cometidos por adolescentes, ignorando o peso de outras razões, sejam elas individuais ou sociais, que levam adolescentes a cometerem crimes contra a vida e ignorarem a lei vigente.

Certos da impunidade, garantida pelo obsoleto Estatuto do Adolescente, menores costumam atacar suas vítimas sem economizar na dose de violência. Valem-se da idade para cometer os crimes mais atrozes. Sabem que não importa o grau de crueldade de seus atos, não haverá consequência à altura para eles. Os marginais ditos “de menor” sabem aproveitar bem a janela de impunidade do ECA, que se fecha aos 18 anos.

Falácia do espantalho – Sheherazade maliciosamente renomeia o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para “Estatuto do Adolescente”, para deixar uma impressão mais forte de que o ECA seria focado em adolescentes delinquentes e não estaria sendo usado na proteção a crianças.

Falácia da causa complexa – Supervaloriza a suposta impunidade “garantida” pelo ECA como razão que impulsiona a delinquência juvenil, ignorando todo um sistema de múltiplas razões que levam adolescentes a cair na criminalidade.

Respondendo como adultos, não teriam mais o séquito de patéticos ativistas dos direitos desumanos querendo aparecer, advogados de rapina em busca de fama instantânea para promover suas bancas, sem falar nos demagógicos políticos de esquerda que costumam, nessas horas, vociferar o bolorento mantra da coitadizição dos criminosos, principalmente, os menores.

Ataque pessoal (ad hominem) – Ataca os defensores dos Direitos Humanos e advogados apoiadores da causa com adjetivos ofensivos e, assim, tenta desqualificá-los como argumentadores e desmoralizar seus argumentos sem que precise respondê-los.

Bulverismo – Pressupõe que os defensores dos DH, com destaque a advogados que embandeiram a causa, não têm argumentos válidos e, a partir dessa crença, tenta emplacar um suposto objetivo escuso à argumentação deles. Segundo ela, eles argumentam por nenhum outro motivo a não ser querer “aparecer”, ganhar fama gratuitamente, “promover suas bancas”.

Falácia do espantalho – Argumenta que políticos de esquerda estão “coitadizando” delinquentes, sejam adolescentes ou adultos, como se tentassem minimizar os crimes que estes cometem. Distorce e desqualifica o que esses políticos realmente argumentam.

Na lógica enviesada dos defensores de bandidos, assassinos, ladrões, traficantes, sequestradores e estupradores não passam de vítimas da sociedade, como se a pobreza fosse desculpa para o crime, salvo conduto para o criminoso.

Ataque pessoal (ad hominem) – Desqualifica a pessoa dos que trazem argumentos opositores do punitivismo (crença de que a punição dura, e às vezes obviamente violenta, é a única ou melhor solução para o combate ao crime) como “defensores de bandidos”, na tentativa de torná-los incapazes de trazer contra-argumentos plausíveis e desqualificar esses contra-argumentos antes mesmo que sejam proferidos.

Falácia do espantalho 1 – Atribui aos opositores do punitivismo a falsa característica de “defensores de criminosos”.

Falácia do espantalho 2 – Argumenta falsamente que os mesmos isentam completamente os criminosos da responsabilidade individual pelos crimes que cometem.

Falácia do espantalho 3 – Argumenta também falsamente que o antipunitivistas alegam que “a pobreza” é “desculpa para o crime”, como se tachassem pessoas pobres como “criminosas em potencial”.

E se eles são as vítimas, quem seriam os algozes? Nós?

Eu não aceito essa culpa.

Equívoco, distorção de fato – Sheherazade confunde e distorce o argumento de que a sociedade como um todo é corresponsável pela alta da criminalidade. Para ela, o que está em jogo nesse argumento não seria, por exemplo, a reafirmação e perpetuação de valores violentos e discriminatórios e a promoção de discursos de ódio, mas sim uma suposta insinuação ou acusação direta de que os inocentes provocariam ou colaborariam diretamente com os crimes que eles próprios sofrem.

Falsa dicotomia – Crê erroneamente que a sociedade é dividida por uma dicotomia rígida, entre “vítimas” e “algozes”, entre pessoas incapazes de cometer qualquer crime e bandidos de alta periculosidade e irrecuperáveis.

A dona [nome omitido], mãe do primeiro suspeito, defende o filho bandido – ou melhor – infrator. Garante que nunca abandonou o marginal.

É de se perguntar: por onde esteve dona [nome omitido] quando o filho deixou a escola e passou a praticar assaltos armado com facas e tesouras?

Sera que a mãe não via as bicicletas de luxo, os cordões de ouro, e os celulares roubados pelo filho marginal? Por que acobertou o filho assaltante quando ele era foragido por não cumprir a medida imposta pela Justiça? Talvez pudesse ter evitado que ele cometesse um crime ainda mais grave, como o assassinato do doutor Jaime Gold…

Falácia da causa complexa – Sheherazade impõe uma responsabilização superestimada, quase total e absoluta, à mãe de um dos menores detidos por tê-lo “deixado” cometer crimes ou ter “proporcionado” ou “influenciado” a queda do adolescente no crime, ignorando por completo o contexto social, psicológico, cultural e econômico que influenciou nessa queda.

Mas, para dona [nome omitido], “o jovem de bolso vazio vai roubar e precisa de mesada para não ficar entretido”. Não, dona [nome omitido], não leve para a vala comum do mau caratismo os jovens pobres deste país. O crime é uma escolha, de ricos e pobres, não uma imposição.

Omissão de fonte – Não revela a fonte que comprovaria que a mãe do jovem delinquente teria declarado isso.

Distorção de fato – Remove a citação do contexto no qual essa (suposta) afirmação da mãe dele teria sido dada. A sonegação da fonte e do contexto da suposta declaração torna inviável para os ouvintes de Sheherazade confirmar a informação e tirar suas próprias conclusões sobre ela e sobre o contexto macrossocial do cometimento desse tipo de crime.

Falsa causa, generalização precipitada – Atribui ao cometimento de todo e qualquer crime uma origem baseada na pura escolha do indivíduo de cometê-lo.

Falsa dicotomia – Declara haver apenas duas teses concorrentes sobre o que leva pessoas a cometerem crimes: a deliberada e livre escolha ou a imposição externa. Ignora que há um debate multicentenário, senão milenar, no Direito sobre o que de fato leva muitos seres humanos a incidirem em crimes contra a vida de outros seres humanos.

* Nome da catadora omitido. Caso ela tome conhecimento de ter sido exposta publicamente dessa maneira por Sheherazade, pode recorrer a uma Defensoria Pública e eventualmente processá-la por possível difamação, caso a denúncia seja aceita.

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Conheça as falácias nessas páginas:

http://www.logicallyfallacious.com/index.php/logical-fallacies (em inglês)
https://ateus.net/artigos/ceticismo/guia-de-falacias-logicas-do-stephen/
http://livrepensamento.com/guia-de-falacias-logicas/
http://veganagente.consciencia.blog.br/guia-de-falacias-carnistas/ (lista de falácias antiveganas que pode servir de base para detectar falácias com outros temas)

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