17

jun15

O reino das falácias de Rachel Sheherazade (Parte 8)

sheherazade-reino-das-falacias

Esta é a oitava postagem, de dez, sobre o uso de falácias por Rachel Sheherazade em grande parte, senão em todos, de seus argumentos conservadores. São priorizados nesta série artigos que escancarem a posição ideológica conservadora de direita da comentarista.

Leia aqui todos os posts da série

**

25. Quem é quem? – 02/06/2015

O presidente da Câmara Eduardo Cunha mostrou que não tem medo de polêmicas. Depois de votar temas tabu como o fim da reeleição e a legalização do financiamento privado de campanhas políticas, Cunha anunciou em sua conta no twitter: até o fim de junho, colocará em votação a tão esperada redução da maioridade penal.

Defensores da proposta querem que o Brasil se alinhe a países desenvolvidos como os Estados Unidos, o Canadá, a Dinamarca e outras 50 nações que já adotaram a redução da maioridade penal, uma evolução do Direito penal, que deve acompanhar a realidade de seu tempo.

Distorção de fato – A maioria desses países não adotaram a redução da maioridade penal propriamente dita, mas sim a responsabilização penal, que o Brasil também adota para delinquentes com idade mínima de 12 anos. Responsabilização penal, que prevê medidas socioeducativas e encara a internação como uma das medidas possíveis, não é o mesmo que maioridade penal, que delimita a idade em que o indivíduo será preso e penalizado como adulto.

Para fortalecer sua posição, Eduardo Cunha vai sugerir um referendo para ouvir a população sobre o tema. Em pesquisas realizadas em 2013 e 2014, o povo já falou e revelou: quer a redução da maioridade. Mais de 90% são favoráveis à proposta, no entanto a redução idade penal contraria os interesses do PT e similares, como o PSOL e PcdoB. Talvez isso explique porque a matéria, apesar de ser do interesse máximo do povo brasileiro, ainda não foi colocada em votação.

Omissão de fontes, apelo à autoridade anônima – Sheherazade não revela quais foram essas pesquisas, nem quais institutos as fizeram.

Generalização precipitada – Transforma um percentual não unânime da população em 100%. Mesmo que houvesse 99,9% da população a favor da redução da maioridade penal, o 0,01% contrário impede de se dizer com razão que “o povo”, como um todo, como uma massa unânime, quer essa redução.

Os governos petistas sempre militaram contra. E têm usado todo seu lobby e sua influência política para engavetar as propostas.

Possível invenção de fato – Sem entrar em detalhes que possibilitem a pesquisa sobre o assunto, Sheherazade acusa os governos Lula e Dilma de terem usado “lobby e influência política” para impedir votações de projetos de lei que reduzissem a maioridade penal.

Equívoco – Induz à confusão e ao erro quando fala que “os governos petistas sempre militaram contra” a redução da maioridade penal. Não especifica quais partes dos “governos petistas” assim teriam atuado – os presidentes Lula e Dilma? A Secretaria Especial de Direitos Humanos? A base aliada petista no Poder Legislativo? Em outras palavras, a expressão “governos petistas” pode ter múltiplos sentidos, e Sheherazade se aproveita disso para induzir sua audiência a um pensamento equivocado sobre a verdadeira responsabilidade dos governos Lula e Dilma na não votação desse tipo de projeto de lei.

Com o Legislativo mais independente, nas mãos de Eduardo Cunha, agora é o melhor momento para apreciar o fim da inimputabilidade dos adolescentes criminosos.

Equívoco – Traz um conceito confuso de “Legislativo independente”. Poderia significar tanto “independente da posição do Poder Executivo”, como também “independente de lobbies dotados de fortes interesses privados”.

Distorção de fato, falácia de omissão – Deixa a entender, aos menos entendedores, que o Poder Legislativo federal está independente no sentido de não estar atrelado a interesses particulares, ignorando que os interesses privados de latifundiários, grandes empresários, militares, pastores pentecostais teocratas e outros setores antipopulares estão fortes como há muito tempo não se via.

A briga não será fácil. O PT já mobilizou os ex ministros dos Direitos Humanos dos governos para jogar contra a redução da maioridade.

Falácia de omissão – Sheherazade não nos diz como os ex-ministros da Secretaria Especial de Direitos Humanos irão atuar, se na formação de opiniões, se por meio de articulações e negociações no Congresso, ou se por outro meio.

É de se perguntar porque os ditos defensores dos direitos humanos se opõem à maioria da população e defendem o direito de bandidos ficarem impunes? Humanos somos nós que nos portamos como tal. Quem nos defenderá?

Apelo à multidão – Coloca “a maioria da população” como certa apenas por ser “a maioria”, colocando o número de (supostos) apoiadores da redução da maioridade penal como melhor legitimador de uma opinião do que os argumentos que a embasem.

Falácia do espantalho – Atribui aos defensores dos Direitos Humanos uma falsa defesa “do direito de bandidos ficarem impunes”, quando o que eles defendem, na verdade, é uma reformulação das políticas sociais e de segurança, de modo que haja mais prevenção e estratégia e menos punitivismo no tratamento da criminalidade.

Então, é bom que se mostre quem é quem. Quem é contra a redução da maioridade apóia a impunidade. Quem é a favor dos criminosos está contra as vítimas. Quem militas pelo maus, penaliza os bons. Quem poupa o lobo, sacrifica as ovelhas.

Falsa dicotomia 1 – Divide a população em duas partes mutuamente excludentes – pessoas “a favor da redução da maioridade penal e contra a impunidade” e pessoas “contra a redução da maioridade penal e a favor da impunidade”. Descarta a existência de terceiras opiniões entre a população, como ser contra a redução e a favor de políticas de segurança que sejam focadas mais na prevenção do crime e na eficiência em prender criminosos do que no aumento da dureza da punição a autores de crimes já cometidos.

Falsa dicotomia 2 – Divide a população em pessoas “a favor dos criminosos e contra as vítimas” e “contra os criminosos e a favor das vítimas”, ignorando maliciosamente que há pessoas que defendem as vítimas mas não concordam com o foco punitivista e não preventivo das políticas de segurança.

Falácia do espantalho – Atribui aos opositores da redução da maioridade penal a falsa característica de “defensores de bandidos”.

Falsa dicotomia 3 – Divide a sociedade entre “maus” e “bons”, ignorando que, por exemplo, muitos “maus” são na verdade pessoas inocentes presas por crimes que não cometeram e muitos “bons” incidem cotidianamente em crimes como discurso de ódio, corrupção (ao furar a fila ou subornar guardas de trânsito), apologia ao crime, difamação, lesão corporal e injúria. Além disso, ignora completamente o contexto psicossocial no qual muitos “bons” viram “maus” e muitos “maus” recuperam-se e tornam-se “bons”.

**

26. O combustível da violência – 02/06/2015

Em seu último artigo publicado na revista Veja, o jornalista José Roberto Guzzo descreveu o que vem a ser “a lenda da inocência dos criminosos”.

Trata-se da fábula social segundo a qual um criminoso não é um criminoso, a não ser que possua nível social e renda superiores.

“Se o autor (do crime)”, escreve Guzzo, “nasceu do lado errado da vida, cresceu dentro da miséria e não conheceu os suportes básicos de uma família regular, de uma escola capaz de tirá-lo da ignorância e do convívio com gente de bem (…) não é justo responsabilizá-lo”.

Em outras palavras bandido pobre não é bandido, é vítima da sociedade. Se a culpa é da sociedade, somos todos culpados pela violência. E o jornalista adverte: “nada como culpas coletivas para que não haja culpa alguma, para que todos ganhem o direito de se declarar em paz perante a própria consciência.

Falácia do espantalho 1 – Guzzo e Sheherazade atribuem aos opositores a falsa argumentação de considerar “inocentes” criminosos que nasceram e cresceram numa condição de miséria.

Falácia do espantalho 2 – Imputam aos opositores uma falsa opinião segundo a qual os criminosos endinheirados (ex.: jovens de classe média que assassinam mendigos, filhos de pais ricos que estupram colegas de universidade etc.) seriam acusados e responsabilizados sem que houvesse uma contextualização psicológica, social e cultural para o desenvolvimento de sua conduta criminosa.

Distorção de fato – Transformam maliciosamente a contextualização (micro e macro) social, cultural e psicológica dos crimes cometidos por pessoas de vida miserável numa falsa inocentação concedida a elas.

Segundo José Roberto Guzzo, a moda do momento é escandalizar-se com a proposta da redução da maioridade penal.

A crítica do colunista aos críticos da PEC é certeira.

“Alega-se que o número de menores que praticam crimes é muito pequena e que a mudança não iria resolver o problema da criminalidade. Quem está dizendo o contrário? O objetivo da medida é punir os delitos que hoje ficam legalmente sem punição. Nada mais. Também é verdade que os crimes não vão desaparecer com nenhum tipo de lei, e nem por isso se elimina o Código Penal”.

Falácia do espantalho, distorção de fato – Alegam falsamente que o sistema penal atual livra adolescentes delinquentes de toda e qualquer punição, distorcendo o fato de que eles são sim punidos, embora de maneira diferente dos criminosos adultos – com medidas socioeducativas, das quais a internação é o último caso, aplicado quando o crime é mais grave ou o menor é reincidente.

Brilhante Guzzo. Assim como não se pode atribuir a violência aos pobres, não é justo isentar criminosos de culpa por sua origem humilde.

A violência não nasce necessariamente da pobreza, como reza o imaginário social de esquerda. Ela é condição inerente ao ser humano: de abastados a desvalidos. Mas, a violência se retroalimenta do descaso do Estado, da inoperância da Polícia, da tolerância da Justiça. Impunidade. Esse é o combustível da violência.

Falácia do espantalho, distorção de fato – Sheherazade e Guzzo atribuem aos opositores o falso argumento de que violência e pobreza nutririam entre si uma relação de causa e efeito, distorcendo completamente o que as teorias sociais argumentam sobre o que há por trás da correlação entre falta de perspectivas de vida para alguns criminosos e o cometimento de crimes contra a vida e a propriedade.

Definição muito restrita – Dá à violência urbana (e rural) uma série restrita de causas para a violência, ignorando a contextualização moral-cultural, social, psicológica e econômica para o cometimento de muitos crimes.

Omissão de fontes – Sheherazade traz uma opinião de senso comum, baseada em achismo, sem especificar se sua crença tem fontes especializadas (revistas de criminologia, pareceres jurídicos, artigos sociológicos publicados em periódicos acadêmicos bem reputados etc.). Não assume que é uma mera opinião pessoal, mas sim traz o argumento como uma verdade expressa a ser aceita sem porquês.

**

27. A missão do Estado não é defender bandidos – 11/06/2015

Será votado hoje, em comissão especial da Câmara, o projeto de Lei que reduz de 16 para 18 anos a maioridade penal no Brasil.

A proposta se alinha ao pensamento de mais de 90 por cento dos brasileiros. Essa parcela quase absoluta da sociedade quer e apóia a punição de adolescentes de acordo com o Código Penal.

Apelo à multidão – Declara uma opinião como “certa” e “válida” apenas por ser compartilhada por uma suposta maioria da população.

Omissão de fontes – Declara um dado estatístico (“mais de 90% dos brasileiros” apoiando a redução da maioridade penal) sem informar a fonte do mesmo.

É uma tendência mundial. Mais de 50 nações evoluídas já adotaram a maioridade aos 16 e em alguns casos até mais cedo para garantir a punibilidade de jovens criminosos que não só pensam, mas também agem como gente grande.

Apelo à autoridade – Tenta legitimar a redução da maioridade penal por ter sido supostamente adotada por nações “evoluídas”. Deixa a entender que a lei penal de países “menos evoluídos” seria menos válida do que a dos “mais evoluídos”.

Apelo aos números (variante do apelo à multidão), falácia geográfica (argumenta que um costume ou uma lei é “certo” e “aceitável” apenas por ser adotado por uma quantidade numerosa de países) – Coloca como “válida” e “aceitável” a redução da maioridade penal em função do número de países que supostamente a adotou, esnobando a importância dos argumentos racionais.

Equívoco – Confunde maioridade penal com idade mínima de responsabilização criminal, ambas diferentes. A idade mínima de responsabilização criminal é aquela a partir da qual adolescentes ou crianças estão sujeitos a medidas socioeducativas como forma de punir seus delitos e (tentar) reformá-las de modo que não reincidam mais. A internação em regime fechado é uma das medidas possíveis, reservada a delitos mais graves e/ou reincidentes.

Os argumentos dos que repudiam a redução da maioridade penal estão cada vez mais frágeis, pois se sustentam em coitadismos, demagogia e mentiras.

Falácia do espantalho, distorção de fato – Distorce maliciosamente a natureza dos argumentos contrários à redução da maioridade penal, tachando-os de desonestos e apelativos à emoção, sem dizer por que “todos” os argumentos contrários à medida seriam assim.

Falácia de omissão – Omite que há um forte embasamento teórico (estatísticas, teorias sociológicas e jurídicas, estudos criminológicos, casos estrangeiros fracassados de redução etc.) para a defesa da permanência da maioridade penal nos 18 anos.

Ataque pessoal (ad hominem) – Chama os opositores da redução da maioridade penal de “coitadistas”, “demagogos” e “mentirosos”, investindo no ataque à pessoa dos argumentadores ao invés do foco no argumento discordado.

Alegava-se, por exemplo, que menos de um por cento dos homicídios seria de autoria de menores. Mentira. O mito foi derrubado pelo jornalista de Veja, Leandro Narloch, que revelou: a suposta pesquisa da Unicef que serviu de base para jornalistas, políticos e ONGS, prosélitos da impunidade, nunca existiu. Era uma citação falsa, com números encomendados.

Omissão de fontes 1 – Sheherazade não informa a fonte da suposta refutação dada por Leandro Narloch. Ficamos sem saber se ele argumentou isso na revista Veja impressa, em coluna ou notícia no site dessa revista, em um blog pessoal, em sua página ou perfil pessoal no Facebook, nos comentários de alguma notícia, em alguma rádio (como a Jovem Pan onde Sheherazade trabalha) etc.

Omissão de fontes 2 – Ela não informa que “suposta pesquisa da Unicef” era essa, nem onde ela havia sido publicada.

Inversão do acidente – Usa um fato excepcional (a suposta pesquisa supostamente refutada por Narloch) como atestador de uma falsa regra geral (a de que todos os dados mostrados por opositores da redução da maioridade penal seriam falsos ou no mínimo duvidosos).

Falácia do espantalho – Tacha opositores da redução da maioridade penal como “prosélitos da impunidade”, como se defender a manutenção da maioridade penal nos 18 anos implicasse defende que menores delinquentes não fossem punidos de nenhuma maneira.

Falsa dicotomia – Forja um falso dilema no qual só seria possível optar entre a redução da maioridade penal e o estabelecimento oficial da não punição (incluindo, percebe-se, a extinção de medidas socioeducativas) a menores delinquentes.

De toda forma, pouco importa o total de menores homicidas. A redução da maioridade não é uma questão de proporcionalidade.

Punir menores de acordo o Código Penal, proporcionalmente à gravidade de seus crimes é uma questão essencialmente de Justiça, de combate à impunidade, de resposta às vítimas, de proteção à sociedade.

Falsa dicotomia – Sheherazade repete o falso dilema no qual só seria possível optar entre punição adulta a adolescentes e a impunidade total a crimes cometidos por eles. Ignora que também é questão “de Justiça, de combate à impunidade, de resposta às vítimas, de proteção à sociedade” defender políticas sociais e mudanças moral-culturais que previnam a ocorrência de crimes cometidos por menores e maiores de idade.

Os críticos da redução da maioridade também defendem que cadeia não é um lugar apropriado para jovens infratores, pois lá os adolescentes entrariam em contato com criminosos mais experientes e mais violentos. Mas, é fora das prisões, no gozo de sua liberdade, antes mesmo de qualquer punição, ou prisão que maiores e menores se encontram e decidem se mancomunar.

Falsa dicotomia – Ignora a possibilidade de se prevenir o contato dos jovens com a criminalidade, com políticas diversas que foquem o social, o cultural, o psicológico, o âmbito do lazer, a geração de bons empregos etc. Trata a questão com a já mencionada dicotomia “prender adolescentes em cadeias de adultos ou abrir as portas à impunidade”.

Argumento desconexo (non sequitur) – Traz a premissa de que “adolescentes também podem se juntar a criminosos quando em liberdade”, seguida da conclusão, que não bate com a premissa, de que “não é válido argumentar que os adolescentes entrarão em contato com criminosos veteranos na cadeia adulta”.

Obs.: O argumento de Sheherazade deixa a entender, do jeito que foi exposto, que haveria casos nos quais seria “razoável” prender adolescentes antes mesmo que viessem a cometer delitos. Além disso, é visível que ela não consegue refutar o argumento dado.

Dizem, ainda, os defensores de bandidos que não há espaço nas cadeias para novos bandidos. Então, o que seria mais prudente? Abrir novas vagas no sistema carcerário ou deixar os bandidos livres?

A falta de presídios não é desculpa para apoiar a impunidade.

Falsa dicotomia – Coloca como únicas “soluções” possíveis para a superlotação das cadeias “abrir novas vagas (…) ou deixar os bandidos livres”, ignorando por completo a opção de fazer com que não haja razões para prender adolescentes.

Outro argumento falho é de que o sistema carcerário não ressocializa o preso. Mas, o sistema jamais poderá recuperar um criminoso se ele não quiser. A ressocialização, assim como o crime, é uma questão de escolha, não de imposição. Ao preso cabe aceitá-la ou não. Se regenerar ou continuar na vida bandida. É questão de escolha.

Omissão de fontes – Presume que uma porcentagem significativa de detentos simplesmente “não quer” se ressocializar, sem apresentar nenhuma estatística que ateste quantos porcento de presidiários no Brasil rejeitam a regeneração unicamente por vontade própria.

Falácia de omissão – Sheherazade ignora completamente que fatores de vivência dentro da cadeia fazem muitos detentos rejeitarem a ressocialização, como, por exemplo, as más condições de acolhimento dos presos, a falência do sistema penitenciário brasileiro como recuperador de criminosos, a socialização com membros do crime organizado dentro dos presídios, a ausência de trabalho psicológico que trate os ódios e rancores na mentalidade de presidiários etc.

Aliás, a ressocialização não é o único objetivo da pena. Pena também é castigo. Existe para punir o criminoso por infringir as leis, e para manter a sociedade a salvo dos seus ímpetos violentos pelo maior tempo possível.

Falácia de omissão – Sheherazade ignora – e se nega sutilmente a debater – o objetivo da punição penal, mantendo um ponto de vista raso sobre a questão, a qual tem incitado um debate multicentenário sobre a importância da punição no âmbito do Direito.

A missão maior do Estado não é proteger bandidos, mas resguardar o conjunto da sociedade, que não pode pagar pelas escolhas erradas e conscientes de quem preferiu o caminho mais fácil.

Falácia do espantalho – Deixa a entender que os opositores da redução da maioridade penal e do punitivismo defenderiam que o Estado tenha a “proteção de bandidos” como “missão maior”.

Falácia de omissão 1 – Esquece que o tratamento de criminosos condenados nas prisões tem uma função relevante para a proteção da sociedade.

Falácia de omissão 2 – Argumenta que o crime é fruto de puro livre arbítrio, de “preferir” cometer crimes, ignorando todo o contexto individual e social que leva criminosos a alegadamente “optar” pelo crime.

**

28. Aprendizes de déspotas – 11/06/2015

O Parlamento, como se diz, é a casa do povo, não a “casa da mãe Joana”. Mas, foi isso o que se tornou a Câmara dos Deputados ontem.

Insuflados por políticos de esquerda contrários à redução da maioridade penal, manifestantes da UNE e da UBES conseguiram transformar o que deveria ser um debate político democrático num lamentável espetáculo de baderna.

Falácia de omissão 1, falácia do espantalho – Sheherazade esconde que houve participação de manifestantes que não se incluem nessas entidades estudantis. Deixa a entender que eram apenas “manifestantes da UNE e UBES insuflados por políticos de esquerda”.

Falácia de omissão 2, distorção de fato – Ignora que o debate sobre a redução da maioridade penal não está sendo respeitado pelo Congresso Nacional. Não tem havido uma igual abordagem aos dois pontos de vista nas discussões entre os deputados.

Falácia de omissão 3 – Ignora também que tem havido um fechamento do Congresso às manifestações populares, com direito a reuniões de portas fechadas e acionamento da polícia para reprimir cidadãos manifestantes que não estão sendo suas vozes ouvidas pelos deputados e senadores.

Os meninos mimados, aprendizes de déspotas, julgaram que derrubariam o projeto da redução da maioridade penal no grito. Dedos em riste, punhos cerrados, e nervos à flor da pele, os estudantes gritavam: – Não vai votar! Não vai votar!

É típico dos tiranos censurar o contraditório, repudiar o voto, calar o parlamento.

Ataque pessoal (ad hominem), falácia do espantalho – Sheherazade ataca com ofensas os manifestantes e deixa a entender que eles queriam “derrubar o projeto (…) no grito”, ao invés de manifestar descontentamento sobre o quanto as vozes de parte da população estão sendo silenciadas pela maioria dos deputados e senadores no Congresso de hoje.

A deputada Maria do Rosário, conhecida pela defesa ferrenha de criminosos e estupradores, como o menor Champinha, aproveitou a desordem para disparar sua metralhadora de ódio contra o presidente da casa, Eduardo Cunha, que colocou em votação o projeto da redução.

Falácia do espantalho, invenção de fato – Imputa a Maria do Rosário falsas características repudiadas, como ser “defensora” de “criminosos e estupradores”.

Falácia de omissão – Não revela o que Rosário falou em sua crítica a Eduardo Cunha.

Dona Maria, quem diria, a defensora do regime comunista de Fidel Castro, ironicamente acusou Eduardo Cunha de pequeno ditador.

Desqualificação pessoal (ad hominem), apelo à hipocrisia (tu quoque) – Considera Maria do Rosário “incapacitada” de atuar politicamente e argumentar por ser “defensora do regime comunista (sic) de Fidel Castro”, como se isso tornasse inválidos todos os argumentos dela em defesa dos Direitos Humanos.

Vejamos:

Um ditador recebe votos para representar os eleitores?

Falsa dicotomia – Divide os políticos em duas únicas e rígidas categorias: ditadores que assumiram o poder com golpe e democratas convictos eleitos com votos. Ignora que, por exemplo, Hitler assumiu o poder na Alemanha em 1933 por ter sido eleito.

Um ditador obedece regimentos e normas?

Falácia de omissão – Omite que Cunha atropelou o regimento ao forçar uma segunda votação do financiamento empresarial de campanhas eleitorais.

Um ditador coloca leis em votação?

Equívoco – Confunde a audiência com uma definição obscura de “ditador”. Fala como se um legislador autoritário só pudesse ser considerado “ditador” se tivesse assumido o poder com um golpe de Estado, ignorando que parlamentares tiranos podem, por exemplo, promover formas ilícitas de articulação para votar projetos de lei que favoreçam interesses privados.

Um ditador se opõe à vontade da maioria da população?

Apelo à multidão – Torna “a vontade da maioria da população” indiscutivelmente “certa” apenas por ser defendida por uma suposta maioria populacional, ignorando a necessidade de ouvir e avaliar os argumentos racionais em defesa dessa vontade.

Falácia de omissão – Ignora que um ditador pode, em determinados contextos socioculturais, impor leis de perseguição a minorias e restrições de direitos por conta de vontades antidemocráticas da maioria da população.

Não. Eduardo Cunha não se encaixa no perfil de déspota que a dona Maria tenta lhe impor. Não enquanto representar seus eleitores. Não enquanto agir de acordo com as regras do parlamento.

Equívoco, definição muito restrita – Repete a confusão de conceito ao falar de “déspota”, como se “déspota” significasse apenas quem ascendeu ao poder por golpe de Estado.

Quem demonstrou intolerância e desrespeito às leis, ao parlamento, e à democracia foram os idiotas úteis da plateia e os deputados da esquerda raivosa que protagonizaram ou insuflaram a baderna de ontem, que acabou impedindo a votação.

Falácia de omissão – Não informa quais leis teriam sido violadas pelos manifestantes, tampouco se elas são inconstitucionais ou não.

Ataque pessoal (ad hominem) – Num linguajar agressivo, ataca a pessoa dos manifestantes e dos deputados que os apoiaram, tentando lhes invalidar o ponto de vista por via do ataque pessoal ao invés da refutação argumentativa.

Quem não gosta da ordem, quem repudia o voto, quem não respeita o Congresso, não está preparado para a democracia. Que procure, então, uma tirania para chamar de sua, e imponha sua vontade pela força ou pelo grito.

Falácia do espantalho, distorção de fato, falsa dicotomia – Deixa a entender que quem se opõe à maneira como projetos de lei controversos estão sendo conduzidos pelo Congresso age com protestos porque ”não gosta da ordem, repudia o voto e não respeita o Congresso”, e não por desagrado à maneira autoritária como essas leis têm sido abordadas e votadas.

Gostem ou não, neste país as questões se decidem no voto, o voto da maioria, não pela imposição de uma meia dúzia de esquerdistas extremos.

Equívoco – Confunde seus ouvintes com uma definição distorcida de “democracia”, como se ela significasse “ditadura da maioria” e desprezo total às opiniões das minorias.

O Brasil ainda não é uma Cuba ou uma Venezuela, e no que depender do povo e do parlamento brasileiros nunca será.

Falácia do espantalho, falsa dicotomia – Aborda a insatisfação dos manifestantes como se fossem “contra a democracia”, como se houvesse apenas duas opções de regime político – a democracia brasileira atual e a “ditadura socialista”.

**

Conheça as falácias nessas páginas:

http://www.logicallyfallacious.com/index.php/logical-fallacies (em inglês)
https://ateus.net/artigos/ceticismo/guia-de-falacias-logicas-do-stephen/
http://livrepensamento.com/guia-de-falacias-logicas/
http://veganagente.consciencia.blog.br/guia-de-falacias-carnistas/ (lista de falácias antiveganas que pode servir de base para detectar falácias com outros temas)

imagrs

Seja a primeira pessoa a comentar

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo