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O reino das falácias de Rachel Sheherazade (Parte 9)

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Esta é a nona postagem, de dez, sobre o uso de falácias por Rachel Sheherazade em grande parte, senão em todos, de seus argumentos conservadores. São priorizados nesta série artigos que escancarem a posição ideológica conservadora de direita da comentarista.

Leia aqui todos os posts da série

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29. Assassinatos de policiais podem se tornar crimes hediondos – 12/06/2015

Seguindo a postura da Câmara dos Deputados, o Senado também aprovou a proposta que torna crime hediondo o assassinato e as lesões corporais praticadas contra policiais, que segue agora para a sanção presidencial.

O projeto, de autoria do deputado Leonardo Picciani, do PMDB/RJ, altera tanto o Código Penal quanto a Lei de Crimes Hediondos. Com a nova lei, a pena de reclusão em casos de homicídio simples, que varia de 6 a 20 anos de prisão, será agravada para o mínimo de 12 e o máximo de 30 anos de reclusão.

Além dos policiais civis, militares, rodoviários e federais, a proposta atinge também integrantes das Forças Armadas, da Força Nacional de Segurança, do sistema prisional e seus respectivos parentes até o terceiro grau.

A lei é uma reivindicação antiga dos agentes de segurança pública, que são vítimas constantes de extermínios e emboscadas.

(Trecho de descrição sem opinião implicitada, sem falácias)

A polícia brasileira é uma das que mais morrem no mundo. Só no ano passado, quase 500 agentes da lei foram assassinados. Em cinco anos, foram 1.770 homicídios, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública – isso sem contar com os casos que não foram notificados.

Falácia de omissão 1 – Sheherazade traz o fato arrancado do contexto, desconectado de suas causas – entre as quais estão (não sendo restritas a tais):
a) a doutrina militarista da Polícia Militar, que transforma a política de segurança pública numa literal guerra contra narcotraficantes e outras associações de crime organizado e trata os próprios policiais como soldados que vão para o “combate” para literalmente matar ou morrer – e os bandidos como inimigos a serem militarmente atacados e mortos, e não a serem rendidos, presos e encaminhados a um julgamento justo; e
b) a radicalização das políticas de combate ao crime pela força bruta nos últimos anos, paralelamente à carência de políticas sociais e educacionais sólidas e permanentes de prevenção à “formação” de novos criminosos.

Falácia de omissão 2 – Ela não categoriza os assassinatos de agentes da lei. Não especifica, por exemplo, quantos porcento dos mortos eram policiais militares e quantos eram de instituições não militares.

Mas, ao contrário da morte de traficantes e assassinos, o assassinato de policiais não costuma causar tanta comoção na mídia. É como se os agentes da lei fossem máquinas programadas pra morrer em combate.

Falácia de omissão – Mais uma vez ela omite por que isso acontece. Esconde de sua audiência fatores como:
a) a baixa popularidade e confiabilidade da PM em comunidades castigadas pela “guerra às drogas”, onde se tem medo tanto da polícia quanto dos bandidos civis;
b) os muito recorrentes casos de racismo, abordagens abusivas, forjas de provas falsas contra inocentes e matanças de jovens negros pobres indistintamente de inocência ou culpa;
c) as descobertas de corrupção de policiais e associação de soldados e oficiais com o crime (narcotráfico, milícias, máfias etc.) (exemplo);
d) a repercussão negativa das repressões a protestos em 2013 (protestos de junho) e 2014 (manifestações #NãoVaiTerCopa), das remoções forçadas promovidas em função da Copa de 2014 em várias cidades e das Olimpíadas de 2016 no Rio, da própria “guerra às drogas” sem fim, da cada vez mais conhecida tradição racista e ditatorial da polícia etc. na popularidade e confiabilidade da PM;
entre outros.

Ignora-se a dor das famílias de policiais, o luto de seus filhos, a perda irreparável de suas mães. É como se essas pessoas simplesmente não existissem, como se não tivessem o direito à indignação, aos direitos… humanos.

Falácia de omissão 1 – Sheherazade não considera que nem a própria instituição Polícia Militar tem dado verdadeiramente essa importância à dor das famílias de policiais mortos, ao boicotar discussões sobre a desmilitarização da polícia no Brasil;

Falácia de omissão 2 – Ela esconde também seu descaso perante as demandas dos movimentos de Direitos Humanos, quando os ofendidos não são policiais nem cidadãos civis de classe média ou alta com postura política identificável como de direita – em outras palavras, sua seletividade em escolher quando defender e quando esnobar os Direitos Humanos como bandeira social.

Mas os atentados contra a polícia, não se enganem, são atentados contra o país. Porque ela, a polícia, é a representação do Estado. Policiais são guardiões da ordem, da paz social. Eles são a segurança de nós, cidadãos. Mas, quando os policiais viram alvo do crime, isso significa que o cidadão já foi rendido e vencido pela violência.

Falácia de omissão – Omite que a Polícia Militar e outras instituições policiais brasileiras estão com essa credibilidade como “guardiões da paz social” em queda, tanto pelo fracasso de suas estratégias (?) de combate ao crime – em termos de vitimar inocentes e não conseguir coibir ações de criminosos civis nem casos de corrupção e má conduta entre policiais –, como pelo escancaramento, nos últimos anos, de seu caráter defensor do autoritarismo político e da repressão violenta a movimentos sociais.

A violência contra policiais é o atestado de falência do Estado, pois, se nem os homens da lei estão a salvo, que dizer de nós?

Falácia de omissão – Omite que as próprias polícias estão numa aparente situação de falência, pelas suas precariedades estruturais que não estão sendo tratadas pelo poder público, seu fracasso em garantir a segurança pública e sua tradição de desrespeito aos Direitos Humanos (de inocentes civis, de criminosos civis subjugados e dos próprios policiais) e às liberdades políticas das parcelas não direitistas da população.

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30. Debate sobre maioridade ocorre em meio a crime revoltante – 16/06/2015

Depois de um pedido de vista, amanhã, os deputados deverão votar o projeto da redução da maioridade penal.

A discussão acontece em meio a mais um crime injustificável que revoltou o país: o estupro coletivo de quatro meninas no Piauí, cometido por cinco homens: quatro adolescentes e um adulto.

As meninas foram rendidas, amarradas numa árvore, estupradas seguidamente por duas horas, espancadas, arremessadas de um precipício e, finalmente, apedrejadas pelos menores, todos com passagens pela Polícia. O passo a passo do crime foi revelado pelo menor [iniciais suprimidas] de forma assustadoramente fria, sem menor sinal de arrependimento.

Uma das vítimas, Danielly, de 16 anos, não resistiu. Outra garota está internada na UTI.

[Trecho de descrição sem opinião implicitada, sem falácias]

O assunto foi pauta da reportagem de capa da revista VEJA desta semana, que deixa uma questão aos leitores: “Eles estupraram, torturaram, desfiguraram e mataram. Vão ficar impunes?”

VEJA trouxe o tema da maioridade à tona de forma racional, sem ideologismos, partidarismos nem “coitadismos”. A matéria aponta a legislação menorista brasileira como a mais leniente, e revela que a maioria dos menores condenados por crimes violentos nem chega a cumprir o máximo de três anos de internação.

Falácia de omissão 1 – Sheherazade esconde que a Veja agiu ilegalmente julgando e condenando antecipadamente os quatro adolescentes “denunciados” em sua capa e sua reportagem, sem autorização do Poder Judiciário.

Falácia do espantalho reversa, distorção de fato, falácia de omissão 2 – Coloca a reportagem da Veja como se fosse “isenta” de viés ideológico e partidário, omitindo que a matéria tem, de fato, um viés ideológico conservador, sintonizado com o conservadorismo de direita de grande parte dos deputados e senadores opositores do segundo governo Dilma – em destaque os integrantes das bancadas da bala e do fundamentalismo evangélico.

Apelo à pedra (ad lapidem), apelo ao ridículo – Desqualifica, sem justificar, a posição dos defensores dos direitos dos menores “julgados” pela Veja como “coitadismo”, julgando-a absurda e ridícula sem mostrar por quê.

Os jornalistas Felipe Frazão, Kalleo Coura e Mariana Barros desmentem mitos persistentes em torno da maioridade penal, entre eles o de que os menores, no Brasil, seriam responsáveis por menos de um por cento dos crimes. Improvável. A matéria mostra que não há uma pesquisa que indique esse número, mas prova que, em Estados como o do Reino Unido, com criminalidade muito abaixo da nossa, adolescentes cometem 18% dos crimes.

Invenção de fato – Sheherazade e os jornalistas da Veja inventam que “não há” pesquisas verdadeiras atestando que apenas uma pequena minoria dos crimes mais chocantes é cometida no Brasil por menores de idade, e mostrando outros indícios de responsabilidade minoritária de adolescentes delinquentes na criminalidade no Brasil. Considera “inexistente” a constatação do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2014 de que, em 2012, de um total de 2.598.378 crimes registrados (excluindo posse e uso de narcóticos) no país, 21.744 – em torno de 0,84% daquele total – foram infrações cometidas por menores de 18 anos. Também trata como se não existisse a constatação, do mesmo Anuário, de que, em se tratando de crimes chocantes – roubos, tráfico de drogas, homicídios (dolosos + culposos de trânsito + outros culposos), latrocínios e estupros – 1.311.946 crimes foram cometidos, dos quais 17.051, aproximadamente 1,3% do total mencionado, foram de autoria de menores de idade.

Falácia de omissão, falsa analogia – A comentarista ignora a existência de diferenças culturais e socioeconômicas entre o Brasil e a Grã-Bretanha, as quais podem justificar por que há uma porcentagem maior de envolvimento de menores de idade com crimes violentos naquele país do que o reportado no Brasil.

Outra mentira desmentida pela reportagem é a de que a redução da maioridade não traz efeitos sobre a violência. VEJA demonstra que, no Japão, único país que reduziu a idade penal depois da Segunda Guerra, os assassinatos cometidos por menores caíram pela metade.

Falácia de correlação coincidente – Considera a redução da responsabilidade penal como a única ou principal medida que diminuiu os assassinatos cometidos por menores de idade no Japão, ignorando prováveis fatores culturais, educacionais e morais que também tenham influenciado essa queda.

Quanto ao caso dos estupradores do Piauí, VEJA lembra que, pela lei atual, eles não podem ser identificados. Passarão, quando muito, três anos internados e sairão com ficha limpa, como se nunca tivessem cometido crime algum. Bem lembrado. É bom que os brasileiros não esqueçam de como se posicionarão deputados e senadores: se contra ou a favor da impunidade.

Falácia de omissão – A Veja e Sheherazade ignoram a possibilidade de, por exemplo, um ou mais daqueles jovens serem considerados mentalmente incapazes, por distúrbios como a psicopatia, e serem mantidos permanentemente sob custódia do Estado, como aconteceu com Champinha, caso demonstrem que sua soltura depois do cumprimento da medida socioeducativa implicaria riscos elevados de reincidência em crimes graves.

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31. Brasil continua omisso em relação à Venezuela, mas senadores dizem: “abaixo a ditadura” – 18/06/2015

Depois de um silêncio constrangedor, finalmente a Venezuela autorizou um pouso da Força Aérea Brasileira. O voo levará uma comitiva de senadores em missão oficial para pedir a libertação de presos políticos e a realização de eleições no país vizinho, que se diz democrático, mas que na verdade persegue, prende e mata opositores, como a mais intolerante das ditaduras.

Omissão de fontes – Sheherazade descreve o governo venezuelano de Nicolás Maduro como ditatorial e perseguidor de oposicionistas sem trazer uma fonte não enviesada que comprove isso. O caso de países como a Venezuela inspira incerteza, uma vez que há fortes vieses político-ideológicos tanto entre os defensores incondicionais do chavismo quanto entre opositores radicais do mesmo, e por isso a maioria das fontes que defendem ou criticam o regime atual venezuelano não é confiável.

Apesar de estar na contramão da democracia, a Venezuela de Nicolás Maduro mantém relações pra lá de cordiais com o Brasil, desde os tempos do “El Comandante” Chávez, o populista que levou o país ao bolivarianismo.

O líder do Congresso, Diosdado Cabello, investigado por tráfico de drogas, foi recebido este mês no Brasil com tapete vermelho pelo companheiro Lula. Aliás, na Venezuela de Cabello e Maduro, o Parlamento é figura meramente figurativa, não passa de capacho do Executivo.

Falácia de omissão – Omite a informação de que Diosdado Cabello pretende processar por difamação e calúnia as empresas de comunicação que o acusaram de envolvimento com narcotráfico, e que as acusações contra ele têm um viés político.

Não há imprensa livre no país. Os veículos de comunicação independentes foram amordaçados, restando aos jornalistas ecoar o discurso oficial do presidente.

Falácia de omissão, omissão de fontes – Sheherazade não tem o mínimo cuidado em provar suas colocações. Não traz casos exemplares, que possam ser comprovados pelos seus ouvintes, sobre como o governo venezuelano estaria censurando veículos de comunicação opositores não envolvidos com tentativas de desestabilizar deslealmente e derrubar o governo de Maduro. Omite também em que consiste essa “mordaça” – se é uma legislação de regulamentação democrática da imprensa venezuelana (considerando que Sheherazade é contra a regulação da mídia brasileira) ou traz menções explícitas a medidas de censura política.

Cerca de 25 opositores do decadente chavismo, entre eles o prefeito Leopoldo López e Antonio Ledezma, estão presos. Segundo a organização de direitos humanos Human Rights Watch, as prisões arbitrárias são padrão da Venezuela.

Falácia de omissão 1 – Não informa quais teriam sido os motivos dessa prisão – que podem ou não ter sido arbitrárias, e ficamos sem saber isso –, nem menciona casos de prisões arbitrárias que seus ouvintes possam pesquisar sobre e julgar autonomamente.

Falácia de omissão 2, mais sutil – Ao fazer menção favorável ao respeito aos Direitos Humanos em se tratando de violações na Venezuela, ela maquia sua seletividade de escolher quais causas de DH valorizar e quais esnobar e ridicularizar. Ela demanda que a Venezuela respeite os DH dos opositores, mas, em se tratando de Brasil, ela ridiculariza a mesma causa, chamando os defensores dos DH de impropérios como “coitadistas” e “defensores de bandidos”.

O país que tem até uma milícia particular pra combater oponentes mereceu repúdio de líderes de nações democráticas no mundo inteiro, e já foi considerado pelos Estados Unidos como uma ameaça à segurança nacional.

Falácia de omissão 1 – Ela não especifica a quais “nações democráticas” se refere, nem se esses Estados estão envolvidos eles mesmos com violações de Direitos Humanos e liberdades políticas interna e externamente. Ao incidir nessa omissão, ela deixa sua audiência incapacitada de pensar se as acusações são justas e verídicas, ou se os DH estão sendo usados pelos governantes desses países como instrumento para a promoção de interesses políticos nada altruístas ou humanitários.

Falácia de omissão 2 – Ao mencionar que o governo dos EUA considera a Venezuela chavista uma “ameaça à segurança nacional”, ela omite que há interesses particulares nessa rotulagem, os quais podem implicar uma futura intervenção militar das forças armadas estadunidenses, tal como ocorreu em relação ao Iraque e pode vir a acontecer também com o Irã.

Mas, apesar das violações aos Direitos Humanos e de toda a comoção internacional, o governo brasileiro – que vergonha! – continua omisso, e quando se pronunciou, foi para criticar as sanções da América do Norte à Venezuela.

Generalização precipitada – Sheherazade torna majoritária no mundo a “comoção internacional” que, na verdade, pode ter sido demonstrada por um pequeno, embora geopoliticamente poderoso, número de países.

Falácia de omissão 1 – Ela novamente assume uma postura de defensora seletiva e interesseira dos Direitos Humanos, fazendo seu público de estúpido ao tentar fazê-lo esquecer que ela odeia os defensores dos Direitos Humanos de dentro do Brasil e costuma ridicularizá-los e esnobar a causa que defendem.

Equívoco – Chama os Estados Unidos de “América do Norte”, deixando a entender que Canadá e México, também localizados no subcontinente norte-americano, estariam fazendo coro aos EUA.

Falácia de omissão 2 – Não informa quais teriam sido as críticas do governo brasileiro à postura dos EUA – indevidamente referidos como “América do Norte” – em relação à Venezuela.

Já os senadores que desembarcam em Caracas, entre eles nenhum petista, farão o que a presidente da República não fez: cobrar a obediência do governo venezuelano às regras do Mercosul e, caso Maduro insista no caminho do autoritarismo, exigir a aplicação de sanções junto à OEA, a Organizações dos Estados Americanos.

Falácia de omissão – Omite que esses senadores, todos com histórico de defender posições de direita, vão lá não com fins altruístas, compassivos e libertadores, mas sim carregados de notáveis interesses político-ideológicos, em torno do intencionado fortalecimento da direita venezuelana.

Enquanto o governo brasileiro faz vista grossa, o povo e o parlamento brasileiros dizem, em alto e bom som: “Não somos cúmplices da tirania de Maduro! Abaixo a ditadura!”

Generalização precipitada – Trata uma posição político-ideológica relativa à Venezuela adotada por apenas uma parcela (de tamanho desconhecido) da população e do Poder Legislativo federal como uma posição “do povo” inteiro e de “todos” os deputados federais e senadores.

Falácia de omissão – Ela esconde que o brado de “Abaixo a ditadura” por parte de direitistas como ela é seletivo, serve apenas para países que não se submetem geopoliticamente aos EUA e à União Europeia, e é carregado de interesses político-ideológicos. Não abrange ditaduras óbvias e ainda mais violentas e censuradoras, como Arábia Saudita, China, Egito (submetido a uma ditadura militar depois da queda de Mohammed Mursi), Uganda, Omã e Mianmar.

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32. A comunicação não pode ser regulada pelo Estado – 23/06/2015

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar a imprensa, dessa vez durante um seminário do PT, em São Paulo. Lula diz, por exemplo, que a imprensa é “a oposição do Brasil”, e defender mais uma vez a regulação da mídia, que, segundo o petista, seria controlada apenas por nove famílias.

Falácia de omissão – Sheherazade exibe apenas uma pequenina parte do discurso de Lula a favor da regulamentação da imprensa. Sabendo do discurso de Lula só a partir da fala da comentarista, o ouvinte fica sem saber como e por que ele tem esse ponto de vista.

Lula não esconde mais de ninguém: pra ele, imprensa boa é imprensa calada, ou dominada nos moldes da Venezuela e de Cuba, onde os veículos de comunicação são controlados pelo Estado.

Falácia do espantalho, invenção de fato – Além de não ter especificado o que Lula falou além de chamar a imprensa de “oposição”, ela desenha um falso ponto de vista “monstruoso” e o atribui a Lula. Para ela, Lula não deseja a democratização dos meios de comunicação, nem a coibição de abusos – como difamações e calúnias cometidas por algum jornal ou site poderoso, ou a edição e manipulação não consentidas das falas de pessoas entrevistadas –, nem a proteção das pessoas acusadas por algum veículo de imprensa, mas sim simplesmente a censura política, a imposição do que elas “deveriam” ou “não deveriam” reportar. E ao não apresentar o discurso completo de Lula, deixa os ouvintes sem poder saber como são os detalhes da regulação midiática que Lula teoricamente defende.

Ditadores sempre tiveram problemas em aceitar o contraditório. Aversos a críticas, eles pregam que só pode haver uma voz, uma verdade: a oficial. E onde não há democracia, tudo que destoa do discurso do governo é tachado de reacionário, golpista, fascista… e, óbvio, precisa ser atacado, perseguido, amordaçado.

Falácia do espantalho, invenção de fato – Insiste, sem provar, que Lula defende “pensamento único” na mídia brasileira.

Distorção de fato – O repúdio, por parte de muitos simpatizantes dos governos petistas, a declarações reacionárias e dedicadas a desestabilizar o cenário político brasileiro é transformado em postura “ditatorial” e “intolerante”. Curiosamente decreta – como faria um ditador, só que, no caso dela, é uma proibição apenas imaginária e idealizada – a proibição de que posições radicais de direita sejam repudiadas por quem, além de não concordar com elas, as considera absurdas.

No Brasil de hoje, a censura não é oficial, a perseguição não é explícita, mas elas existem sim. Delas são vítimas os jornalistas independentes, que não recebem favores nem mesadas de partidos ou de governos, aqueles que não se prostituem, que não vendem sua consciência, sua caneta ou sua voz por preço ou por pressão.

Falácia do espantalho reversa, falácia de omissão 1 – Chama de “independentes” e dirige elogios duvidosos a jornalistas que, na verdade, têm laços, diretos ou indiretos, de aliança com o PSDB e outros partidos. Omite, por exemplo, que o governo de Geraldo Alckmin em São Paulo compra ou renova, frequentemente, assinaturas da revista Veja para as escolas públicas estaduais, e que O Estado de S. Paulo, outro jornal onde posições de direita são comuns, defendeu o governo do mesmo Alckmin contra os professores da mesma rede pública de ensino. Também omite a influência de bilionários de outros países na ascensão de figuras pretendentes a influentes na direita brasileira, como o caso da relação entre os irmãos Koch e entidades como o “Movimento Brasil Livre” e os “Estudantes Pela Liberdade”. E também omite o fato de que os formadores de opinião de direita em geral protegem e acobertam tucanos, ruralistas, militaristas, teocratas e outros políticos não petistas, evitando noticiar qualquer envolvimento desses indivíduos com corrupção.

Falácia de omissão 2 – Ela não especifica como estaria se dando essa “perseguição e censura implícitas” contra jornalistas e opinadores de direita no Brasil.

Apesar dos ataques verbais dos robôs programados pra difamar, dos blogs sujos e do fogo amigo das prostitutas da profissão, centenas de jornalistas continuam a fazer o que todo governo autoritário detesta: informar a verdade, doa a quem doer. É que a verdade tem sede de verbo, e o jornalismo tem sede da verdade.

Ataque pessoal (ad hominem) – Chama jornalistas simpatizantes do governo Dilma e do PT de “prostitutas”. Desrespeita também as próprias prostitutas, ao lhes atribuir desqualidades como a desonestidade e a “venda fácil” de sua postura moral.

Falsa dicotomia – Faz uma divisão forçada no jornalismo brasileiro: segundo ela, simpatizantes e defensores do PT falam apenas mentiras, e formadores de opinião de direita falam apenas “a verdade”.

Falácia de omissão – Omite, em seu discurso de dar à direita brasileira a posse arrogantemente exclusiva da “verdade”, que formadores de opinião liberal-conservadores frequentemente usam falácias, manipulações e omissões em seus discursos. Esta série de postagens O reino das falácias de Rachel Sheherazade atesta, através do exemplo da comentarista, como muitos formadores de opinião do conservadorismo brasileiro costumam usar argumentos falaciosos em seus discursos.

De jeito nenhum! A comunicação não pode ser regulada pelo Estado, pois a mídia independente é pressuposto de qualquer democracia.

Falácia do espantalho reversa 1, falácia de omissão 1 – Classifica a mídia mainstream brasileira como “independente”, escondendo seu caráter oligárquico – por ser posse de poucas famílias ricas e políticos localmente poderosos – e sua associação a lobbies políticos (nacionais e internacionais) empresariais, militaristas e latifundiários.

Falácia de omissão 2 – Omite que a mídia oligarquista brasileira tem sido um dos principais obstáculos no aprofundamento da democracia no Brasil, ao submeter grande parte da opinião pública brasileira a pontos de vista desfavoráveis à redistribuição do poder político-decisório às classes populares e médias e limitar o alcance das mídias que defendem pontos de vista de esquerda, emancipatórios e inclusivos.

Falácia de omissão 3 – Omite que diversos países comumente considerados “mais democráticos” do que o Brasil, incluindo Estados Unidos e Grã-Bretanha, já regulamentam seus meios de comunicação, conforme a BBC atesta nessa reportagem.

Lançado, defendido e requentado pelo PT de Lula, o controle da mídia deve ser sempre combatido. E não só pelos jornalistas não, mas por toda a sociedade.

Distorção de fato, falácia de omissão – Ela argumenta que é apenas “o PT de Lula”, e não todo um universo de movimentos sociais, livres pensadores e políticos de esquerda, quem defende a regulamentação da mídia no Brasil.

Falácia do espantalho – Trata a regulamentação da imprensa como uma forma de “controle” sobre o que ela deve ou não deve noticiar.

Num país livre, quem define o que é bom ou mau na comunicação não é o governo, é a audiência. Se o jornal não tem credibilidade, basta não ler. Se a emissora não agrada, troca-se a estação. Se o canal não convence, o telespectador pode zapear. O único controle que a democracia admite é o controle remoto.

Falácia do espantalho, distorção de fato – Distorce o propósito da regulamentação da mídia, desenhando-a como um instrumento que definiria “o que é bom ou mau na comunicação”.

Falácia de omissão 1 – Omite o fato de que grande parte da audiência de rádio, TV, jornais impressos e noticiários online no Brasil não foi ensinada, ao longo de sua vida, a ser cética, a discernir racional e autonomamente entre notícias reais e honestas e notícias falsas ou manipuladas, entre programas éticos e programas abusivos, nem a encarar a publicidade com mais racionalidade do que paixões. Um exemplo disso é a recorrência de boatos na internet, os quais algumas vezes têm consequências trágicas.

Falácia de omissão 2 – Ignora que há outras formas razoáveis de controle dos meios de comunicação admitidas pela democracia, como a BBC mostrou nessa matéria.

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Conheça as falácias nessas páginas:

http://www.logicallyfallacious.com/index.php/logical-fallacies (em inglês)
https://ateus.net/artigos/ceticismo/guia-de-falacias-logicas-do-stephen/
http://livrepensamento.com/guia-de-falacias-logicas/
http://veganagente.consciencia.blog.br/guia-de-falacias-carnistas/ (lista de falácias antiveganas que pode servir de base para detectar falácias com outros temas)

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8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Mario Souza

junho 29 2015 Responder

Mais um artigozinho escrito do conforto de uma cadeira em frente ao computador. Esses especialistas de plantão dos problemas da segurança publica, que discorrem sobre falácias mil, que não participam “in loco” do trabalho penoso e perigoso da polícia no dia a dia…Existem policiais tendenciosos, jornalistas/comentaristas tendenciosos tendenciosos e até blogueiros tendenciosos…

    Robson Fernando de Souza

    junho 29 2015 Responder

    Então, ao invés de vir criticar com falácia de desqualificação pessoal (ad hominem), por que não faz melhor do que eu e escreve um artigo usando o seu conhecimento em segurança pública?

      Ricardo Ibn

      junho 30 2015 Responder

      Opa!

      No argumento do comentarista aí em cima não há ad hominem. Ele afirmou que você não está qualificado para opinar porque não participa do trabalho da policia (não conhece o outro lado). Um argumento que se pode concordar ou não concordar. Mas não é falacioso.

      É como dizer que uma pessoa não está qualificada para criticar a obra de Machado de Assis lendo apenas as resenhas dos livros, e não eles completos. Não é falacioso. É um argumento razoável.

      Tanto que você poderia contra-argumentar que Rachel também não conhece o outro lado, e por isso, superestima a policia. E daí poderia surgir uma boa discussão saudável.

      Alargar a aplicação de falácias do modo como fazes nesse espaço não é bom, pois nos deixa com receio de discordar de algum ponto das suas opiniões sob pena de ser enquadrado em alguma falácia.

      Sem falar que quando você, o dono desse espaço online, dá o veredicto “Falácia!”, a discussão acaba aí.

      Vai com calma man! ;)

        Robson Fernando de Souza

        junho 30 2015 Responder

        Se não é falácia, então por que ele criticou a minha pessoa, como suposto “desconhecedor” do trabalho da PM e digitador de textos “no conforto da cadeira”, ao invés de criticar as respostas dadas ao discurso de Sheherazade?

          Ricardo Ibn

          junho 30 2015

          Você está confundindo um argumento correto com argumento válido.

          Imagine que você lê um texto onde o autor fala sobre o comportamento dos macacos em bando. E você sabe que o autor, embora adulto, só tem o primário. Mas ficou muito tempo observando os macacos na floresta.

          Você contesta o texto com o seguinte argumento.

          Premissa maior: Para escrever sobre o comportamento dos macacos é necessário observa-los “in loco”

          Premissa menor: Fulano só tem a 4ª série

          Conclusão: Fulano não está qualificado para escrever sobre o comportamento dos macacos.

          Esse argumento é uma falácia ad hominem. Não por causa do ataque pessoal em si mesmo. É falácia porque AS PREMISSAS NÃO BATEM COM A CONCLUSÃO. E só por isso.

          Agora imagine que escritor do texto sobre macacos tenha curso superior, mas nunca viu um macaco “in loco”.

          Você contesta o texto com o seguinte argumento.

          Premissa maior: Para escrever sobre o comportamento dos macacos é necessário observa-los “in loco”

          Premissa menor: Fulano nunca observou macacos “in loco”, só em frente ao computador, no conforto da cadeira

          Conclusão: Fulano não está qualificado para escrever sobre o comportamento dos macacos.

          Nesse caso, não há falácia. É um ataque pessoal válido. AS PREMISSAS BATEM COM A CONCLUSÃO. E só por isso.

          Ser válido, não significa que está correto. Nesse caso cabe ao autor do texto derrubar a premissa maior para se defender. Afinal de contas, a premissa não é um axioma certo?

          No caso do comentarista, ficou assim

          Premissa maior: Para comentar sobre segurança pública, é preciso conhecer o trabalho da policia na prática.

          Premissa menor: Robson não conhece o trabalhado da policia na prática

          Conclusão: Robson não tem condições de comentar sobre segurança pública.

          O ataque pessoal é válido (foi o que eu disse no primeiro comentário). Mas não significa que está correto.

          Cabe a você derrubar uma das premissas.

          Robson Fernando de Souza

          julho 2 2015

          E ele sabe se eu não tenho o mínimo de embasamento pra falar do descrédito que a polícia tem sofrido e dos abusos que ela tem cometido? Só de deduzir que eu sou um “ativista de computador” ele estaria certo em crer que, necessariamente por isso, não tenho conhecimento teórico dos problemas da PM?

          Ricardo Ibn

          julho 2 2015

          Bingo!

          É justamente aí que eu queria chegar…

          Vamos colocar sua resposta em segunda pessoa:

          “E você sabe se eu não tenho o mínimo de embasamento pra falar do descrédito que a polícia tem sofrido e dos abusos que ela tem cometido? Só de deduzir que eu sou um “ativista de computador” você estaria certo em crer que, necessariamente por isso, não tenho conhecimento teórico dos problemas da PM?”

          Ficou muito, mas muito, mas muito melhor que essa:

          “Então, ao invés de vir criticar com falácia de desqualificação pessoal (ad hominem), por que não faz melhor do que eu e escreve um artigo usando o seu conhecimento em segurança pública?”

          Percebeu?

          Com essa resposta nova, você expõe a incoerência no comentário do amigo aí de cima e ainda pede para ele provar o que afirmou (O ônus da prova cabe a quem faz a afirmação). Faz as pessoas que estão lendo raciocinarem. E NÃO O ACUSOU DE COMETER FALÁCIA, quebrando o que ele disse (“discorrem sobre falácias mil”).

          Respostas do tipo: “Ad hominem! Faz melhor que eu então!” deixam de fazer a pessoa investir na própria consciência e refletir no que escreveu. Tornam a discussão rala.

          Um abraço!

          Robson Fernando de Souza

          julho 2 2015

          Ok, obrigado pela colocação. Abs

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