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Seguir grupos e páginas de “revolta contra os corruPTos”: atitude politizada ou submissão ideológica?
Imagem extraída de página de direita que faz o perfil "revoltado contra os corruPTos"

Imagem extraída de página de direita que faz o perfil “revoltado contra os corruPTos”

Tem sido comum notarmos muitas pessoas, incluindo parentes e amigos nossos, passando a seguir numerosas páginas e grupos de direita que ostentam o suposto objetivo de “combater a corrupção”. E se dizem “politizadas e engajadas”, por lhes reproduzir o discurso antipetista, antiesquerda e de linguagem agressiva carregada de ódio. Mas será que o compartilhamento de conteúdo “revoltado” contra “comunistas” e “corruPTos” e a adesão a protestos #ForaDilma são mesmo manifestações de politização, no sentido de consciência política crítica perante o estado de coisas?

Essas páginas e grupos se dizem “anticorrupção”, às vezes “caça-corruptos”. Mas percebamos a postura delas perante gente de outros partidos denunciada por corrupção e outras diversas iniquidades, como legislação em causa própria e apologia ao crime via discursos de ódio. O que elas fazem nesses casos em que políticos de partidos como PMDB, PSDB, PSB, PSC, PTB, DEM, PP, PSD, PR etc. são acusados de abuso do poder político, ou empresários e latifundiários aliados dessas siglas são apontados como sonegadores de impostos, empregadores de trabalho escravo e/ou cometedores de outros crimes?

A resposta é: silêncio. Omissão. Protegem os acusados.

Não vemos essas páginas e grupos, tampouco os formadores de opinião de direita que atuam na grande mídia, reforçando, por exemplo, as denúncias contra tucanos no “Trensalão” do estado de São Paulo. Nem exigindo justiça e cobrando punição no caso dos sonegadores de impostos flagrados na Operação Zelotes. Nem incitando a indignação perante as tentativas legislativas de liberar algumas formas de exploração de mão-de-obra hoje considerada escrava.

Em alguns casos, promovem até mesmo defesa explícita do indivíduo abusivo e ataque aos denunciantes. Foi o caso dos “Revoltados Online”, que acusaram de “comunistas” os professores paranaenses cruelmente atacados pela PM do governador tucano Beto Richa e usaram uma imagem de uma insurreição social na Turquia para caluniar os docentes violentados acusando-os de agredir policiais.

Há ocasiões também em que o próprio abuso é defendido. Como exemplo, temos o discurso de Rachel Sheherazade (texto 19) defendendo o “sacrifício” dos direitos trabalhistas ao apoiar a expansão da terceirização às atividades-fim das empresas. Em sua fala, ela não só se declarou favorável, como também omitiu aspectos negativos cruciais e até centrais da medida, que vai prejudicar os trabalhadores e beneficiar apenas empresários que desprezam a dignidade de seus empregados.

Em suma, se o político acusado é do PT, lhe atiram o máximo possível de balas e bombas, e completam condenando, sem o devido julgamento prévio, o partido como um todo. Mas se é de outras agremiações, ou um não político detentor de outra forma de poder, protegem-no, seja com um cúmplice silêncio, ou com defesa declarada do violador e/ou da própria violação.

Com isso, os corruptos não petistas ficam simplesmente livres para fazer a festa com o dinheiro público e abusar de seu poder. Os empresários sem ética continuam sonegando impostos e superexplorando trabalhadores sem serem incomodados. Latifundiários, com ou sem mandato político, são deixados livres para grilar terras, varrer o que resta de ecossistemas no meio rural brasileiro, aliciar e escravizar peões e mandar matar quem se opõe a seus desmandos.

Tudo graças ao silêncio de quem diz “combater a corrupção” e “lutar por ordem e progresso”, mas está se cumpliciando com a mais gritante impunidade e a mais desesperançosa falta de justiça.

Enquanto isso, os seguidores dessas páginas e grupos são induzidos a crer que, ao repetir acriticamente o discurso anticorrupcionista seletivo, estão sendo “conscientes” e “lutando por um Brasil melhor”. Acreditam piamente que são conscientes, sem perceber que estão sendo mantidos na ignorância sobre a real extensão e as raízes da iniquidade política no país, desestimulados de pensar com a própria cabeça e buscar conhecimento e induzidos ao silêncio perante a maioria dos maus poderosos.

Nessa hora, nos perguntamos: uma pessoa que absorve, sem senso crítico, as densas críticas desses grupos contra PT e membros, mas não estranha a ausência de denúncias contra conservadores não petistas e empresários poderosos, ou não se importa com essa omissão, pode ser considerada politizada e engajada na cidadania? Sim ou não?

Alguém que crê, sem questionar, que basta um único partido ser clandestinizado e seus membros cassados ou violentamente perseguidos para o Brasil “mudar” e se tornar “livre” e “moralizado”, sem que nada seja feito com milhares de outros maus políticos e senhores de empresas e/ou terras, tem realmente consciência e sensibilidade perante o que acontece de antiético e injusto no país e no mundo onde vive, ou não?

Quando percebemos isso, encontramos nós mesmos a oportunidade de agirmos verdadeiramente contra a corrupção e a injustiça. Essa ação é basicamente – ou começa por – denunciar como esses militantes arrebanhadores de direita são parte do problema, e não da solução. E, na medida do possível, tentarmos conscientizar aquelas pessoas que nos são mais queridas e têm mente minimamente aberta sobre quais são as intenções ocultas de quem estão seguindo.

Não precisa que se tornem de esquerda, pelo menos a curto prazo. Basta que percebam que os incitadores da “revolta contra os corruPTos” não estão interessados no fim da corrupção e do desmando, mas sim apenas em manipular as pessoas para que apoiem a ascensão da direita assumida – e corrupta – ao poder, e/ou favoreçam interesses políticos – e lucrativos, às vezes – mais particulares dos “revoltosos”.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Junior

dezembro 14 2015 Responder

Se não tem o que falar fora desrespeito e palavrões, então não venha comentar. Comentário desrespeitoso e ofensivo apagado. RFS

Ricardo

dezembro 14 2015 Responder

Parabéns pelo ótimo texto. Acho que a maioria que foi em protestos como o de domingo, nem sequer têm noção do motivo pelo qual estão lutando e em que isso pode beneficiar ou prejudicar o país. Quer dizer, a resposta deles é “Vamos tirar o PT do poder, acabar com a corrupção”. Como se a corrupção tivesse nascido com o PT. Sem contar os sorrisos, as selfies e o carnaval todo que essa turma tá fazendo. Isso está bem longe de ser indignação. Essa página da nossa história, com certeza, será lembrada pelas futuras gerações como uma das mais vergonhosas. Sou muito mais os caras pintadas e a galera que lutou contra a ditadura.

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 15 2015 Responder

    Obrigado, Ricardo. Abs!

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