20

jul15

Capitalismo, egoísmo, natureza humana: o mito do ser humano “naturalmente” egoísta e capitalista

frase-tancredo-neves

por Rafael Azzi, extraído do Blog do Flavio Lyra (a fonte original do texto foi perdida), com pequenas correções

Há séculos, ideia de que ser humano é “em essência” egoísta-competitivo justifica relações capitalistas. Descobertas recentes estão derrubando tal crença.

O modelo capitalista de sociedade premia e estimula o comportamento individualista, utilitário e egoísta. Diversos pensadores, como o economista Alan Greespan, acreditam que tal comportamento apenas reflete a verdadeira essência da natureza humana e, portanto, não há muito a fazer a respeito. Entretanto, essa visão do ser humano foi moldada ao longo da história e, na verdade, os estudos de hoje discordam da noção de que somos essencialmente individualistas e agressivos.

Alguns filósofos, como Thomas Hobbes, John Locke e Adam Smith, contribuíram para a consolidação da ideia de que o ser humano é, por natureza, racional, autônomo, utilitário e voltado principalmente para a satisfação egoísta de seus próprios interesses. As principais instituições políticas e econômicas que hoje moldam a sociedade foram fundadas a partir desses preceitos sobre a natureza humana.

O modelo social adotado pelos princípios capitalistas põe em cena uma perspectiva de Estado-Nação que tem como objetivo estimular as forças do livre mercado e proteger a propriedade privada. O ser humano é então considerado um indivíduo autônomo e racional que, ao optar por viver em sociedade, acredita que esta é a melhor forma de proteger seus próprios interesses, evitando assim um estado de selvageria natural representado pela expressão hobbesiana “guerra de todos contra todos”.

Da mesma forma que os indivíduos proclamam sua autossuficiência, os Estados são vistos na política internacional como autônomos na busca do próprio interesse. Sob tal perspectiva, as nações encontram-se em eterna batalha em busca de poder e de bens materiais. A narrativa histórica é construída a partir de uma constante dicotomia estabelecida entre Estados e indivíduos isolados, público e privado, termos ocasionalmente unidos apenas por razões de utilidade ou de lucro.

O mito do ser humano que sobrevive como indivíduo é difundido na literatura universal em heróis como Robinson Crusoé: o homem que consegue, sozinho, através do uso da razão, utilizar a natureza a seu favor e sobrevive sem o auxílio de outras pessoas. Porém, o que não está dito é que Crusoé é um homem adulto, que cresceu em uma sociedade complexa, na qual dependia diretamente de outras pessoas. Além disso, ele apenas aprendeu os conhecimentos necessários para a sua sobrevivência na ilha deserta através do contato com experiências de outras pessoas e outras gerações.

Essa visão filosófica, que se transformou em política, foi naturalizada por um conjunto de teorias científicas. O darwinismo social é uma interpretação estreita da teoria de Darwin aplicada à sociedade humana. Tal teoria enfatiza a ideia de que a evolução se relaciona à competição e à sobrevivência do mais forte, pondo-a em prática na sociedade humana. Dessa forma, características como individualismo, agressividade e competição seriam os agentes naturais da evolução. Argumenta-se que a competição pela sobrevivência fundamenta a evolução humana, a fim de justificar a sociedade capitalista como o modelo natural a ser adotado.

Atualmente, tal noção é considerada bastante reducionista. Já se observou, por exemplo, que não apenas a competição mas também a cooperação entre os indivíduos são fatores de extrema importância na sobrevivência de espécies sociais. Recentes estudos de sociobiologia vêm comprovando a hipótese de que o ser humano é, na verdade, um dos animais mais sociais que existe. Não é difícil comprovar esse fato: vivemos em grupos cada vez maiores, em sociedades cada vez mais complexas com indivíduos interdependentes. Temos a necessidade constante de nos sentir conectados a outras pessoas e de pertencer a um grupo, em um sentimento que remonta às ideias ancestrais de coletividade e de comunidade.

Uma descoberta biológica recente vem corroborar essa ideia. Os neurônios-espelhos fazem parte de um importante sistema cerebral que atua diretamente em nossa conexão com outros indivíduos. Esse conjunto de neurônios é mobilizado quando vemos outra pessoa fazendo algo. Pesquisadores constataram que, quando uma pessoa observa outra realizando uma ação, no cérebro do observador são estimuladas as mesmas áreas que normalmente regem a ação observada. Portanto, ao que tudo indica, nossa percepção visual inicia uma espécie de simulação ou duplicação interna dos atos de outros.

Os neurônios-espelhos são a base do aprendizado e da aquisição da linguagem humana. Mais do que isso, eles tornam fluida a fronteira entre nós e os outros; são a origem da empatia, que é a capacidade de nos colocar no lugar de outra pessoa. Pode-se dizer que, ao observar alguém sorrindo, imediatamente nos sentimos impelidos a sorrir também. Quando percebemos alguém que está em uma situação que causa dor, a reação natural é partilhar o sentimento de dor alheia.

A capacidade empática e a necessidade de fazer parte de um grupo formam as bases, por assim dizer, das religiões organizadas e do sentimento de nacionalismo. O problema é que, ao mesmo tempo em que fomentam a empatia coletiva, estas instituições limitam o sentimento empático pelos indivíduos que não fazem parte do mesmo grupo. Assim, o indivíduo que faz parte de outra ordem — seja ela uma nação, uma religião, uma etnia ou uma classe social — é considerado diferente, distante e, eventualmente, intolerável. Tais rótulos limitam a capacidade empática e impedem de ver o outro como um semelhante na partilha de sentimentos, desejos e angústias intrínsecos à natureza humana.

Um exemplo de que a empatia é natural ao ser humano é a forma como ela ocorre de maneira livre e instintiva nas crianças. Quando uma criança observa outra pessoa em situação desfavorável, como a mendicância e a falta de moradia, a primeira reação é o questionamento. Invariavelmente, as respostas que fazem uso de rótulos auxiliam a explicar a situação: “é apenas um mendigo” ou “é só um menino de rua”. Com frases assim, está-se afirmando que o outro não é alguém como nós; trata-se apenas de alguém diferente, em uma realidade distante da nossa. Portanto, ao estimular constantemente o egoísmo e o interesse individualista, a sociedade baseada no modelo atual desestimula a capacidade empática existente em cada um.

Dessa forma, pode-se afirmar que o desafio do nosso tempo é desnaturalizar o egoísmo social que foi imposto e recuperar nossa empatia natural, não apenas em relação aos grupos de pertencimento, mas sobretudo ampliada em relação a toda nossa espécie.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Tarantino

agosto 11 2015 Responder

Tudo que prega a nivelação entre os seres humanos é anti natural. A verdadeira justiça consiste em tratar os desiguais desigualmente.

Fernando

julho 20 2015 Responder

Como se diz, às vezes é preciso recuar alguns passos para se apreciar uma obra de arte. Assim, detalhes que eram vistos excessivamente de perto eram melhor contemplados como parte de algo maior, e passam a fazer sentido, em vez de serem meras distorções.

Ludwig von Mises, o cara que praticamente refundou a ciência econômica, reconhecia-a como departamento de uma ciência maior (a praxeologia, ou a ciência da ação humana), departamento esse destinado a estudar os meios pelos quais a ação, guiada pelos princípios praxeológicos (verdadeiros a priori), poderia efetivamente ser levada a cabo, e também quais seriam os efeitos de determinadas ações. A economia se limita a dizer “se você fizer A, vai obter B”, sem fazer qualquer juízo de valor sobre se B é desejável ou não.

O axioma central da praxeologia é: o ser humano sempre age no sentido de sair de uma situação menos satisfatória para uma situação mais satisfatória. A definição do que é satisfatório ou não é dada pelo próprio indivíduo, que possui preferências. Tudo o mais decorre disso.

Um ato de caridade tem como efeito proporcionar um alívio a quem está na penúria, mas a motivação é sempre autocentrada – fazer caridade a quem precisa traz uma recompensadora sensação de dever cumprido. Por mais reconfortante que seja nos enxergarmos como “máquinas de fazer caridade”, isto é, pessoas que ajudam os outros sem esperar absolutamente nada em troca, na verdade fazemos o que fazemos apenas por termos motivações internas que nos impelem ao ato – e esperamos que este ato nos conduza a uma situação melhor do que a que estávamos. O bem de que o caridoso lançará mão vale menos para ele do que a sensação de dever cumprido que advirá do ato de se desfazer do tal bem. A caridade, expressão máxima da empatia, é, em última análise, fruto do individualismo. Pode-se inferir que a empatia também o é.

A vida em sociedade, organizada num mecanismo de divisão do trabalho no qual as pessoas podiam fazer aquilo em que eram melhores e usavam o produto de seu trabalho para transacionar com outras que eram mais hábeis na produção de outros bens e serviços (ou seja, o mercado), foi escolhida pelos nossos ancestrais como o meio mais conveniente para garantir a sobrevivência. A própria constituição da sociedade – e, por conseguinte, a potencialização da empatia – se deu por motivos egoístas – não há nada mais egoísta que querer sobreviver.

Por fim, é de uma falta de empatia tremenda falar em tom condenatório sobre as pessoas de hoje, como se a sociedade como um todo fosse culpada pela situação dos desfavorecidos, sem que se apresente qualquer prova disso. O conhecimento de economia, o conhecimento dos mecanismos de perpetuação da pobreza, impetrados pelo mesmo estado que se arvora de salvador dos pobres, é pra mim a mais duradoura caridade que se pode fazer com os mais necessitados. Discursos condenatórios, por sua vez, são bons pra gerar impacto e angariar cliques, mas não tem qualquer impacto efetivo na transformação cultural da sociedade.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo