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jul15

Como os meritocratas opositores de políticas afirmativas conseguem ser preconceituosos mesmo negando seus preconceitos

meritocracia

Obs.: Este artigo não discute os erros da meritocracia capitalista. Não defendo sociedades/economias baseadas no puro mérito individual, mas precisará ser em outra ocasião que essa abordagem seja feita.

Tem-se tornado costume dar de cara com liberal-conservadores defendendo que a sociedade brasileira, do jeito que está hoje – permeada por preconceitos, discriminações e desigualdades – declare-se uma meritocracia pura e rejeite as políticas afirmativas, como cotas, cursos voltados a determinadas minorias e outras formas de “discriminação positiva”. Essas pessoas não percebem que estão nada mais do que defendendo a glorificação da cultura do preconceito e da exclusão contra múltiplas categorias de pessoas. Estão, com isso, sendo, ao mesmo tempo, racistas, machistas, heterossexistas, transfóbicos, elitistas, capacitistas, xenófobas etc. ao contribuir com a perpetuação de um quadro opressor contra múltiplas categorias.

Defender que o Brasil vire uma meritocracia sem intervenção equitativa de políticas de mitigação de desigualdades é necessariamente defender que pessoas de uma ou mais minorias políticas continuem tendo chances reduzidas de ascensão socioeconômica e profissional. Entre elas, estão mulheres, pessoas negras, pessoas trans, pessoas não heterossexuais, pessoas de diversas minorias religiosas e irreligiosas, migrantes pobres, imigrantes de países “em desenvolvimento”, pessoas com deficiências, pessoas que não nasceram nas classes altas e médias, entre outras minorias políticas alvos históricos de discriminação.

Embandeirar esse tipo de meritocracia, na qual muitas pessoas “competem” em enorme desvantagem e outras já nascem quase que “prontas para subir na vida”, é advogar, intencionalmente ou não, que continuem prevalecendo os homens cisgêneros brancos heterossexuais cristãos sem deficiência que nasceram nas classes socioeconômicas mais favorecidas das cidades maiores do Sul-Sudeste (ou migraram de paises como EUA, Alemanha e Inglaterra com plenas condições e oportunidades de trabalhar em empregos de alta remuneração).

É “querer” que indivíduos com essas especificidades continuem sendo dominantes praticamente de nascença, detentores praticamente exclusivos de posições de poder, e todos os demais continuem esbarrando em obstáculos que eles não têm que enfrentar. E é concordar, tácita ou explicitamente, que, por exemplo, uma mulher negra travesti que morava num bairro pobre de Caruaru e migra para São Paulo tenha uma pequeníssima fração das condições e oportunidades de se tornar uma diretora de finanças de uma multinacional com as quais conta um homem cis branco paulistano que mora abastadamente nos Jardins (região “nobre” de São Paulo capital) desde quando nasceu.

Quando alguém defende que, mesmo no Brasil muito desigual e injusto de hoje, não deveria existir Bolsa Família, nem cotas raciais, femininas, para pessoas trans, para pessoas com deficiência etc., nem programas de capacitação exclusivos para quem pertence a determinada(s) minoria(s), está defendendo que a população politicamente minoritária continue à margem da economia e relegada ou ao desemprego, ao subemprego, ou a empregos muito subalternos.

Não compreende que não são todas as pessoas dessas categorias que têm ou encontram condições de driblar numerosos obstáculos apenas com as próprias forças. Ignoram, inclusive, que é uma pequena minoria que consegue isso, como nos casos isolados em que mulheres negras de origem muito pobre assumem a presidência ou diretoria executiva de grandes empresas. Desconhecem que mesmo essa minoria que consideram vitoriosa lidará com racismo, machismo, transfobia, elitismo, xenofobia etc. explícitos ou velados dentro da empresa e/ou vindos dos próprios clientes e isso quase certamente a impedirá de ir muito longe.

Há aqueles meritocratas que argumentam que “basta ter força de vontade, espírito empreendedor, obstinação, desejo de vencer etc. para subir na vida”, contando relatos individuais de si mesmos ou de terceiros pertencentes a categorias historicamente discriminadas que superaram as dificuldades e “venceram na vida”. Não sabem que estão incidindo em falácias diversas quando argumentam assim.

Cometem evidência-anedota (quando relatos individuais sem base científica tentam provar algo que só pode ser comprovado por estudos complexos), argumento desconexo/non sequitur (ao concluir, dos casos dos poucos que “subiram na vida”, que a maioria das pessoas alvos de discriminação têm as mesmas condições que esses poucos, dando uma conclusão que não condiz com a premissa), inversão do acidente (por transformar exceções em regras), falácia de omissão (por omitir fatores individuais e excepcionais que permitiram a essas pessoas superar preconceitos e outros obstáculos, fatores com os quais muitos outros indivíduos não puderam contar), falácia egocêntrica (ao argumentar que “se eu posso, é lógico que todo mundo também pode”), entre outras.

Por mais que neguem, os defensores da meritocracia capitalista opositores das políticas afirmativas voltadas a minorias estão conservando as desigualdades estruturais e resultantes de discriminação. E negam o racismo, o machismo, o heterossexismo, a transfobia, a xenofobia, o capacitismo etc. em sua profundidade e estruturalidade – assim protegendo-os da problematização e do combate e tornando-os livres para continuar existindo. Com isso, estão sendo, mesmo que por um caminho diferente dos convencionais discursos de ódio, incidindo nos mesmos preconceitos que estão tentando relativizar ou mesmo negar, já que na prática estão promovendo a supremacia de homens cis brancos heterossexuais endinheirados e nativos de grandes cidades sul-sudestinas.

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