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jul15

As falácias da oposição às cotas raciais

cotassim

Editado com pequena correção em 01/08/15 às 13h55

Obs.: Este artigo não tenta falar em nome da população negra. Dedica-se a desconstruir as crenças de um conservador, que acredito que se identifique como branco, sobre cotas raciais. Peço que me avisem caso eu esteja, como branco, exercendo um papel maior do que o devido no apoio às lutas da população negra.

Foi publicado por um colaborador no blog Acerto de Contas, no último dia 15, um texto que, segundo o título prometia, parecia que tentaria refutar o artigo de Djamila Ribeiro publicado pelo site da Carta Capital – segundo o qual, por sua vez, ser contra cotas raciais implica necessariamente aceitar e favorecer a perpetuação do racismo no Brasil e, portanto, ser racista. Mas o que foi visto não foi uma refutação a essa tese, mas sim uma opinião contrária às cotas e uma reação agressiva à esquerda que repudia as tentativas de invisibilização, mascaração ou relativização do quadro histórico e sociológico do racismo no Brasil. Opinião essa que, pelo que vi, é recheada de falácias argumentativas.

O texto dele começa já declarando ódio ao de Djamila. Diz que o artigo dela é “criminoso”, “não vale a pena ser lido” e “é de uma estupidez hedionda do início ao fim”. Esse início cheio de raiva afugenta o leitorado que concordou com o texto dela – e que poderia estar buscando um contraponto – e, de antemão, interdita o debate que poderia vir a se formar – tanto sobre as cotas como sobre a acusação de racismo dirigida a opositores dessa política afirmativa. E seleciona quem vai ler e não vai – chamando os conservadores mais fanáticos e repelindo quem viria a discordar do que ele argumenta.

Sobre “não valer a pena” ler a colocação dela, eu argumento que, pelo contrário, convém lê-lo, até para que os conservadores tentem se defender da acusação de racismo e refutá-la. Por experiência própria, penso que tem vezes que mesmo os artigos e discursos mais reacionários “precisam” ser lidos por algumas pessoas de esquerda, de modo a perceber-se como a direita radical brasileira age verbalmente para arrebanhar seus “fãs” e pensar-se como “desarmar” esses formadores de opinião.

A seguir, o texto afirma:

“Utiliza-se como argumento para solucionar o problema da desigualdade racial… o próprio problema da desigualdade racial. Diz-se que negros sofreram com a escravidão e sofrem com o racismo e a solução, claro, são cotas raciais. Por quê a solução são cotas raciais? Porque negros sofrem racismo e sofreram com a escravidão. É um círculo vicioso.”

Percebemos aqui três falácias. Primeiro, a de equívoco – distorcer uma palavra ou expressão de modo a fazê-la ter, naquela ocasião específica, outro significado que ela teria em outros contextos que não aquele. Confunde a “discriminação positiva” promovida pelas políticas afirmativas – tratada desde Aristóteles pela máxima “Tratar igualmente os iguais, e desigualmente os desiguais na medida de sua desigualdade” – com a desigualdade racial propriamente dita, aquela baseada no racismo e nas raízes escravistas da história brasileira.

Argumenta, pelo que entendi, que beneficiar negros (e indígenas, por tabela) com cotas raciais “escanteando” brancos seria “promover desigualdade racial”. Demonstra o desconhecimento do autor sobre as políticas de “discriminação positiva”, as quais visam compensar a desigualdade histórica de oportunidades que privilegia brancos e prejudica negras e negros e, assim, contribuir para a gradual neutralização da discriminação negativa, a discriminação propriamente dita.

Segundo, a falácia do espantalho – atribuir ao opositor um ponto de vista distorcido, com falsas características criticáveis que o tornam mais fácil de ser rechaçado. O espantalho em questão está em induzir à crença de que o movimento negro defende as cotas raciais como “solução” para as desigualdades raciais. Ignora que a cota não é vista como solução definitiva, mas sim como uma medida que faz parte de um todo, algo a integrar uma série de políticas públicas – e privadas – estruturais de combate ao racismo imbuído na sociedade e cultura brasileira.

Terceiro, a distorção de fatos, mista com espantalho. Afirma: “Diz-se que negros sofreram com a escravidão e sofrem com o racismo e a solução, claro, são cotas raciais”. Distorce o papel da escravidão na história do racismo no Brasil e deixa a entender que as cotas são pensadas como tentativa de combate retroativo ao escravismo colonial e imperial, quando na verdade elas vêm costurar uma compensação para a herança deste.

Essa herança é o racismo institucional – de Estado, empresarial, cultural etc. – que foi herdado dos costumes daquela época e até hoje priva a população negra de ter as mesmas oportunidades que os brancos. O autor simplifica de forma grosseira a questão da herança escravista distorcendo o argumento dos defensores das cotas raciais, ao especular espantalhosamente que “diz-se que negros sofreram com a escravidão (…) e a solução, claro, são cotas raciais”.

A seguir, usa termos de ataque pessoal, chamando de “idiota” quem vê na rejeição por brancos à existência das cotas raciais uma negação do racismo (isto é, da magnitude do racismo) e do combate ao mesmo e bradando que “Um sujeito que não concorde que há racismo no Brasil ou que não ache a escravidão uma ignomínia é um débil mental ou um fascista, ou ambos”. Além de baixar o nível do debate, ignora que a negação do racismo não é simplesmente um problema de mau caráter individual.

Desconhece que há toda uma cultura de muitos brancos negarem a gravidade do racismo brasileiro – o que inclusive inspirou um ou mais livros de “figurões” do conservadorismo brasileiro tentando negar que o Brasil trata mal seus habitantes negros e indígenas – e tentarem promover essa negação insinuando ou argumentando que brancos “sofrem igual aos negros” e “também existe racismo contra brancos”.

A seguir, o autor declara:

“Cotas raciais não são maneiras de reparação história porque, basicamente, o tormento da escravidão é irreparável. Como se há de compensar o sofrimento do chicote, do estupro, dos grilhões e do assassínio? Não há como. A não ser, talvez, chicotear, agrilhoar, estuprar e matar os “brancos”, que outrora eram os algozes dos negros.

Essa solução é absurda.

Primeiro porque não é possível querer reparar institucionalmente a violência brutal com outra violência brutal.

Segundo, e mais importante, porque os “brancos” de hoje não tem absolutamente nada a ver com a escravidão de mais de 125 anos atrás.

Justiça faz-se reparando perdas pessoais e punindo indivíduos. Não se faz justiça punindo e reparando grupos. Ainda mais grupos históricos afastados por mais de século.”

O trecho começa com mais uma falácia do espantalho, repetindo que o propósito das cotas raciais seria retroativo, como se para desfazer o sofrimento dos escravizados do passado, e não para contribuir com a reparação das heranças presentes daquela cultura do passado cujas leis autorizavam a escravização de seres humanos não brancos.

Segue dizendo que “os ‘brancos’ (sic nas aspas) de hoje não têm absolutamente nada a ver com a escravidão de mais de 125 anos atrás”. Ignora que a população branca herdou a maioria dos privilégios raciais daquela época, como serem favoritados na ascensão social capitalista, terem muito mais acesso – via condições socioeconômicas familiares e oportunidades empregatícias – a profissões de poder, prestígio e remuneração elevados e não serem tratados como cidadãos de segunda classe.

Também invisibiliza o fato de que as mesmas crenças do racismo “científico” e eugênico do século 19 e do início do 20 ainda hoje impulsionam brancos carentes de educação histórica de qualidade a acreditarem, por exemplo, que imigrantes haitianos e senegaleses e brasileiros negros moradores de favelas seriam “menos capazes” de trabalhos intelectuais, “menos esforçados”, “mais indolentes” e “mais inclinados para o crime” do que brancos paulistanos ou portoalegrenses de ascendência germânica e imigrantes brancos da França e dos Estados Unidos.

E distorce o sentido da palavra “justiça”. Confunde a justiça equitativa – aquela derivada de teóricos como o liberal John Rawls – com a justiça enquanto punição aos “donos” de escravizados e aos seus feitores pelas violências cometidas contra os cativos do passado, ou aos racistas mais violentos do Brasil contemporâneo.

O artigo segue repetindo o espantalho de que cotas e outras medidas afirmativas seriam vistas como “a grande solução” ao invés do início de uma política estrutural de longo prazo de combate às desigualdades raciais. Cita depreciativamente um projeto de lei que estipula cotas para pacientes negros em hospitais particulares, esquecendo que a assistência à saúde no Brasil também é crivada de desigualdades raciais, como este artigo exemplifica. E afirma, com o auxílio de citações de autores de direita:

“Além disso, cotas raciais não são uma maneira justa de combater desigualdade racial. As desigualdades de grupos identitários entre as diversas áreas da vida humana não são sempre causadas por discriminação preconceituosa.

Leandro Narloch demonstra que a população carcerária, em qualquer país, é distribuída numa proporção de aproximadamente nove homens para uma mulher. Não imagino que alguém proponha mais encarceramento feminino.

Ben Shapiro fala do domínio dos negros na NBA. Não se imagina uma proposta que proponha a proporcionalidade entre negros e brancos entre os astros mais bem pagos do basquete mundial.

João Pereira Coutinho fala da grande proporção de judeus nas grandes universidades americanas. Devemos propor cotas negativas aos descendentes das doze tribos?

Claro que não.

Todas essas distorções de representação passam por uma série de fatores que não derivam fundamental e majoritariamente de preconceito.”

Promove, nesse trecho, falácias de falsa analogia e argumento desconexo (non sequitur, trazendo uma conclusão que não condiz com as premissas), ao comparar as desigualdades sociais históricas entre negros e brancos no Brasil com questões de outros países.

Menciona a proporção da população carcerária masculina e feminina “em qualquer país”, ignorando que todas as culturas modernas-contemporâneas do planeta são machistas e impõem aos homens valores de “virilidade” como a “resolução” de problemas por meio da violência, o apego quase compulsivo à posse de bens materiais, a imposição de relacionamentos de posse e controle a suas companheiras e o exercício violento do poder “pátrio” na família. Nessa mesma parte, promove uma inválida comparação entre cotas (benéficas) para mulheres, por exemplo, na representação política com a reserva de cotas (maléficas) para mulheres presidiárias no sistema carcerário nacional.

Ao citar Ben Shapiro e os basquetistas negros estadunidenses, esquece que existe um histórico de pessoas negras encontrarem no esporte ou na música a chance de autoafirmação e ascensão social num contexto de discriminação em outros ramos profissionais. Além disso, ignora que, no ambiente de ensino e socialização, muitos são induzidos a crer desde cedo que seriam “incapazes” de assumir trabalhos de esforço mais mental (professores universitários, engenheiros, empresários, políticos etc.) e que pessoas negras “em geral” seriam melhores em esforços físicos e entretenimento do que nos empregos mais intelectualizados – estes tradicionalmente “reservados” aos brancos.

Já a citação de Coutinho sobre universitários judeus estadunidenses também falha em ser uma analogia plausível, já que trata de minorias políticas diferentes em países idem. Isso além de não observar o contexto que supostamente beneficia os judeus nas universidades dos EUA: não pergunta, por exemplo, em quais cursos e universidades eles estudam, qual a porcentagem de judeus e judias nesses locais, se há uma tradição cultural estadunidense de “designar” judeus a determinadas profissões etc.

Todas essas três analogias são inválidas. E não explicam, por exemplo, as desigualdades raciais entre negros e brancos nas cadeias brasileiras, nas profissões no Brasil – com negros majoritariamente em empregos subalternos ou subempregos, tendo muitos, assim como os dos EUA, que buscar a redenção social na música ou no esporte – e nas universidades brasileiras.

Adiante, argumenta:

“Desigualdades entre identidades devem ser combatidas quando a culpa da desigualdade for a segregação. E não é possível que vejamos uma relação direta e fundamental entre a falta de representação de negros e brancos nas universidades, como um fruto do racismo.

A desigualdade de negros e brancos nas universidades (sobretudo as públicas) é fruto da desigualdade social no país.

Como os ricos são majoritariamente brancos, os sujeitos que têm mais capacidade de cruzar o nefasto X da educação brasileira (onde os alunos partem da escola privada para a universidade pública e vice-versa) e ingressar numa universidade pública, serão ricos e, portanto, a universidade será majoritariamente branca.

Não perceber que o problema é social e não racial vai nos levar a uma situação evidentemente idiota. Um país que não sabe a diferença entre o sintoma de uma problema e o problema em si, como um médico que se dispõe a tratar catapora, maquiando o doente e não combatendo o vírus.

Nos sabemos que se combatendo, com qualquer meio, a desigualdade no nível de ensino entre os pobres e ricos já se ia mitigar o abismo entre brancos e negros.”

É necessário responder que:

1. A segregação racial – e também de gênero, étnica, religiosa etc. – não precisa ser óbvia e imposta por normas expressas. Ela pode vir de forma relativamente sutil, de modo que, como o próprio artigo do colaborador nos permite concluir, desigualdades raciais pareçam exclusivamente de classe, dependentes apenas da origem social dos discriminados e dos privilegiados. Não é preciso haver regras expressas de segregação para que, por exemplo, menos de 3% dos formandos em Medicina no Brasil sejam negros.

A estrutura sociocultural já promove essa segregação sem precisar de normas legais discriminatórias. E conta com a “vantagem” de esse apartheid furtivo parecer algo de cunho apenas classista e, assim, ser mais difícil de ser combatido;

2. Há mais brancos do que negros em se tratando de oportunidades universitárias porque a estrutura socioeconômica e cultural brasileira impôs, de geração a geração, que pessoas negras fossem menos assistidas pelo Estado e pelo Mercado do que os brancos. Nesse contexto, a maioria da população negra foi relegada a escolas públicas precarizadas e empregos de baixa remuneração. Isso sem falar da tortura psicológica imposta a crianças e adolescentes negros por bullying racista dentro e fora das escolas, o que faz muitos deles crerem ser “incapazes” de subir na vida.

Por outro lado, como já ressaltei e agora trago mais detalhes, pessoas brancas herdam muitos dos privilégios dos quais os seus antepassados eurodescendentes da época da escravatura gozavam:

– Não são submetidos a bullying racista nem inferiorizados por discursos de ódio;
– Não são preteridos por causa da cor da pele em seleções de emprego;
– São maioria na mídia e na publicidade, seja como publicitários ou como garotos-propaganda;
– Não têm suas aparições em novelas ligadas majoritariamente a papéis subalternos (escravizados do Brasil pré-republicano, empregadas domésticas, donas-de-casa pobres, balconistas etc.) ou criminosos (narcotraficantes, assaltantes, sequestradores etc.);
– São maioria esmagadora nas câmaras parlamentares municipais, estaduais e federais e nos mandatos executivos;
– Suas características estéticas (olhos claros, cabelos lisos loiros ou ruivos, narizes afilados, a própria pele etc.) são exaltadas e superiorizadas como “a beleza”, enquanto as das pessoas negras são tratadas como “feias”, inferiorizadas e ridicularizadas;
– Não são tão considerados “bandidos em potencial” quanto os jovens negros;
– São tratados (os homens brancos) como os seres humanos “padrão” pelo mundo intelectual desde pelo menos o Iluminismo;
– Têm muito mais chances de nascer nas classes da média para cima e receber abastadas heranças do que negros;
– Não são tão ensinados à servidão e à baixa auto-estima social e vocacional quanto pessoas negras etc.

É no mínimo ingênuo acreditar que nada disso influi direta ou indiretamente para que haja muito menos negros do que brancos nas universidades e que a desigualdade racial nessas instituições tenha origem exclusivamente nos contrastes de classes sociais;

3. O autor não se pergunta por que “os ricos são majoritariamente brancos”;

4. Ao dizer que “Não perceber que o problema é social e não racial vai nos levar a uma situação evidentemente idiota”, promove aquilo que Djamila tanto repudia: a negação do racismo estrutural e cultural no Brasil, além de atacar desnecessariamente seus opositores ideológicos;

5. Ele afirma que “um país que não sabe a diferença entre o sintoma de uma problema e o problema em si, como um médico que se dispõe a tratar catapora, maquiando o doente e não combatendo o vírus”, mas incide exatamente nisso. Faz justamente aquilo que critica ao maquiar uma conjuntura histórica de discriminação racial com a roupagem de sintoma da desigualdade puramente de classes sociais e rejeitar o combate estrutural ao “vírus” do racismo institucional e cultural brasileiro.

O trecho seguinte diz que “[…] combatendo, com qualquer meio, a desigualdade no nível de ensino entre os pobres e ricos já se ia mitigar o abismo entre brancos e negros”. O autor ignora que brancos pobres são protegidos, por seus privilégios raciais, de diversas adversidades sofridas por pessoas negras da mesma classe, como a preterição em seleções de empregos – algo que a Lei 7.716/1989, que visa combater o racismo, ainda não conseguiu abolir por conta própria -, a omissão da História Africana e Afrodescendente no ensino, os vieses racistas contidos em diversos livros didáticos, a intolerância contra religiões de matriz africana, estigmatizações racistas baseadas em aparência, o racismo acobertado em escolas de classes média a alta (contra as poucas crianças e adolescentes negras[os] que conseguem ingressar lá), o despreparo de muitos psicólogos de lidar com pessoas vítimas de humilhações racistas, entre outras.

Diz adiante:

“Cotas raciais não são uma maneira de combater o racismo.

Simplesmente porque é impossível explicar a um favelado branco porque o seu vizinho negro tem um incentivo estatal e ele não. E porque também é impossível explicar a um branco de classe-média porque o vizinho dele, um negro de classe-média tem incentivos estatais e ele não.”

Além de reiterar o desconhecimento dos privilégios (alguns exemplos mencionados acima) que brancos pobres têm em comparação com negros do mesmo estrato social, esquece que o governo federal estabeleceu cotas não só raciais, como também sociais. Brancos pobres já são beneficiados por essas cotas sociais, para que não fiquem em desvantagem em comparação com brancos de classe média e brancos ricos.

A seguir, argumenta, novamente usando desnecessários adjetivos agressivos:

“Como é impossível explicar isso racionalmente porque, afinal de contas, leitoras magnéticas diferenciam negro e branco apenas nos cartões de gabarito, a esquerda tem que apelar pra esse expediente nefasto.

Um malabarismo de “apples and oranges”, que não tem sentido nenhum e que, por isso mesmo, parte para a criminalização da opinião alheia, deixando todos os opositores numa sinuca de bico, onde discordar da esquerda, faz deles “racistas”, como bem explicou (sic) Djamilla Ribeiro.”

Catalogar as pessoas como negras e brancas,  com direito a carimbo oficial, não mitiga o racismo. Apenas o estimula. Qualquer imbecil sabe disso. Djamilla sabe disso.”

Ele primeiro compara todo o racismo estrutural brasileiro a leitoras magnéticas, novamente ignorando, negando e suavizando o problema da discriminação racial no país. Chama a defesa das cotas de “malabarismo de apples and oranges” e a acusa de “não ter sentido nenhum”, demonstrando que pouco ou nada estudou sobre a história e a sociologia da discriminação racial no Brasil.

A seguir, acusa que Djamila e outros defensores das cotas raciais estão partindo para a “criminalização da opinião alheia”. Mostra que não percebe as consequências sociais dos esforços de muitas pessoas brancas de tentar fazer o racismo no Brasil parecer muito menor do que já é – e até simétrico.

E diz que “catalogar as pessoas como negras e brancas” “estimula” o racismo, emplacando uma falácia de alegação de certeza ao arrogar que “todo imbecil (sic) sabe disso” e assim ofender quem discorda dele. Atesta ignorância sobre a questão da identidade racial, tanto aquela que é assumida pela população negra, por meio do Orgulho Negro e da valorização de suas raízes africanas, como a que é imposta por racistas, pelas piores maneiras, a pessoas pardas que se acreditavam brancas mas cuja identidade não as protegeu do preconceito racial.

Prossegue dizendo que as cotas raciais “vão falhar”, tentando justificar sua colocação reincidindo na falácia do espantalho de imputar aos defensores das mesmas a crença de que ela é “a grande solução definitiva” e irá “acabar com o racismo”. E acusa desonestamente, numa grosseira falácia de bulverismo, os integrantes do movimento negro – ou parte deles – de buscar “aumentar o racismo” para obterem “mais poder e dinheiro”, sem provar isso e atestando seu ódio à luta política contra o racismo – visivelmente por ser uma luta de esquerda, enquanto ele se posiciona como conservador de direita.

No final das contas, o colaborador falha completamente em tentar justificar seu ponto de vista de que opositores das cotas raciais não estão, por meio dessa opinião, reproduzindo racismo. Pelo contrário, acaba demonstrando que as premissas das quais essas pessoas partem contribuem decisivamente para a manutenção de privilégios brancos, a desvalorização da luta negra contra o racismo estrutural e cultural, a negação dos sofrimentos da população negra, a não conscientização e não empoderamento da mesma, o não fortalecimento das políticas públicas de equidade racial e combate ao racismo, entre outros obstáculos que fazem do Brasil um dos países que, por diversas maneiras, mais maltratam – e matam – a população negra no mundo.

Além disso, não propõe nenhuma alternativa para as cotas raciais, fora a tática pseudoigualitária de “melhorar a educação” sem combater os problemas que atingem especificamente estudantes negros. Nem sugere nenhuma medida de enfrentamento dos poucos casos de racismo que ele reconhece como tal, fora punições individuais que não eliminam as raízes culturais que fazem brotar novos racistas no país. Seu foco maior é declarar ódio à esquerda, é responder com agressividade, demonstrando ter-se sentido ofendido, à acusação de Djamila de que opositores das cotas raciais são racistas, mesmo sem refutá-la.

Seria muito bom para a sociedade como um todo se os opositores das cotas raciais se preocupassem em (ao menos tentar) propor soluções alternativas que fossem eventualmente mais eficazes em diminuir as desigualdades raciais – ao invés de escondê-las. Mas infelizmente não é isso que estamos vendo. O que se vê do lado conservador – e eu gostaria de tomar conhecimento de exceções – é mais do mesmo, o tradicional ódio reacionário contra pessoas de esquerda dotadas de posições enérgicas que causam incômodo a quem defende o status quo.

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tiago

novembro 23 2016 Responder

Tarantino…
regalias? ou vc comentou sem ler o texto ou não entendeu o texto, amigo.
o ‘mérito’ é ter dinheiro. uns 180 mil, mais ou menos, pra comprar o gabarito do enem.
a casa grande surta quando a senzala aprende a ler.

Bárbara de Almeida

novembro 21 2016 Responder

Mais uma vez, excelente texto, Robson. Não entendo de onde você tira tanta força para ler essas “pérolas” reacionárias e ainda refutá-las. Te admiro muito, viu? Parabéns pelo trabalho realizado!

    Robson Fernando de Souza

    novembro 22 2016 Responder

    hehehehe Gratidão, Barbarinha! ^^ =D

Edirley Nascimento

novembro 20 2015 Responder

O Tarantino fez um comentário com o mesmo tom do texto refutado neste. Achei este detalhe interessante.

Tarantino

agosto 11 2015 Responder

Creio que seriam mais justas as cotas sociais…afinal, existem negros “ricos” e brancos “pobres”. O único critério para conseguir-se uma vaga nas universidades seria o desempenho nos exames. Por outro lado, sabemos ser o ensino público deficiente, e os negros não são os únicos a sofrerem com isso.

Quanto à questão da dívida histórica, gostaria de encontrar alguém ainda vivo de quem poderia ser cobrada alguma espécie de dívida.

As cotas são sustentadas por pessoas que não fazem parte daquele grupo que usufrui de tal regalia. Verdade inquestionável. Acha justo? Tais usufruidores acessam a universidade com notas menores do que aqueles que não pertencem ao seu grupo. Então, o mérito vai pro ralo.
O problema aqui neste país é o desnível social. A miséria, a falta de chances não são “privilégios” de determinada classe de pessoas.

Mas tudo isso dá muito trabalho ao governo. É mais fácil achar um bode expiatório.

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