27

jul15

O mito da “doutrinação marxista” baseada em Paulo Freire na educação

criar-possibilidades-paulo-freire

por Rodrigo Travitzki, extraído do site Rizomas, com algumas adaptações e correções

Uma das faixas na manifestação de domingo chamou a atenção de educadores pelo Brasil afora. Ela dizia “chega de doutrinação marxista: basta de Paulo Freire”. Não acredito que esta ideia represente a maioria dos que foram às ruas no dia 15, mas sua simples expressão pública já é suficiente para tentar por alguns “pingos nos is”.

De onde veio essa ideia da doutrinação marxista? Ao que parece, a ideia vem do Olavo de Carvalho, conhecido por suas posições de direita, normalmente vinculadas à “cultura letrada”. Diz um “discípulo” de Olavo:

como afirmou o padre Júlio Lancelloti, que oficiou a missa de corpo presente: ‘Paulo Freire nos ensinou que a educação é um ato político’. Poderíamos melhor dizer, que transformaram a educação em um ato político, em que ela é usada para doutrinar politicamente o aluno.” Educação X Marxismo, no site de Olavo de Carvalho [link modificado para o naofo.de]

Carvalho e seu seguidor defendem (ao menos nestes trechos, pois não conheço sua “obra”) que a escola deve servir para alfabetizar, não para conscientizar ou para politizar. Admito que há algo de importante aí, que é a defesa da escola como espaço para abertura a todas as ideias, onde a criança pode conhecer valores/ideias que porventura não tenha conhecido na sua familia, ou seja, um espaço de socialização lato sensu. Mas a defesa desse tipo de escola não se faz bradando aos quatro ventos que há uma doutrinação marxista com base em Paulo Freire. Muito pelo contrário, isso me parece mais uma forma de doutrinação de seus próprios pupilos do que uma busca pelo esclarecimento ou pela diversidade de ideias.

O que Olavo e “discípulos” esquecem de dizer é que a educação é e sempre foi um ato político. Não foram os “esquerdistas”, ou Paulo Freire, que inventaram isso. Ensinar é um ato político, a despeito de se ter ou não consciência disso. Não apenas os conteúdos que ensinamos, mas forma pela qual o fazemos.

Se ouvimos o aluno, mesmo quando ele discorda de nós, estamos ensinando a ele (concretamente e não apenas com palavras) um importante princípio da democracia. Por outro lado, quando reduzimos o tempo de debate dos alunos para poder ensinar mais “conteúdos objetivos” (que parece ser o que defende Olavo), também estamos agindo politicamente e ensinando um certo modo de viver e de enxergar a vida. Estamos dizendo, com nossas ações, que o debate público é uma tolice, perda de tempo, que o importante é se preparar para a dura vida que vem a seguir. Estudar, adquirir conhecimentos “de verdade” para poder competir no mercado de trabalho. Em poucas palavras, preocupe-se com você mesmo e esqueça os outros, a vida é dura e a coletividade é um entrave à liberdade individual.

Acho que as pessoas têm todo o direito de não gostar de Marx ou de Paulo Freire, e de fato há um forte vínculo entre os dois. Mas o legado de Paulo Freire vai muito além do marxismo. Aliás, Paulo Freire chegou em Marx quando buscava Cristo. Reduzi-lo a ideias comunistas ou doutrinantes é um delírio de quem vê inimigos vermelhos por toda parte. Paulo Freire é uma das grandes referências (se não a maior) da educação brasileira no exterior, não vamos jogá-lo fora junto com a água suja que porventura esteja transbordando de nossa banheira.

imagrs

1 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Lenna

agosto 6 2015 Responder

Realmente, não sabem do que falam! Tudo o que Paulo Freire desenvolveu nas suas obras é com base na crítica justamente `a doutrinação. Um dos principais pontos que ele toca é de que a educação tradicional leva as pessoas `a repetirem slogans e não serem os sujeitos da própria educação. E ele criticava a doutrinação vinda da direita e da esquerda também. Mas pensando bem eu entendo o medo deles. Eles não querem os alunos, principalmente os oprimidos, tendo consciência crítica da sua situação no mundo. Daria um pouquinho de trabalho pra manter-los aceitando todo o sofrimento.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo