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Não é que os fundamentalistas sejam contra uma “ideologia de gênero”. O que eles querem é impor a ideologia deles sobre gênero e sexualidade
A verdadeira ideologia de gênero é aquela que evangélicos fundamentalistas tentam impor à sociedade

A verdadeira ideologia de gênero é aquela que evangélicos fundamentalistas tentam impor à sociedade, incluindo a privação de direitos a famílias não “tradicionais”

Aviso de conteúdo: lista crenças machistas, heterossexistas e cissexistas/transfóbicas

Têm-se multiplicado pelo Brasil, nessas últimas semanas, as discussões nas câmaras municipais e assembleias legislativas sobre os planos de educação de municípios e estados. Nesses debates, grupos evangélicos fundamentalistas têm ido protestar contra o que chamam de “imposição” de uma “ideologia de gênero” no ensino. Eles evidenciam, mesmo nessas manifestações, que não estão defendendo uma educação “sem ideologia”, mas sim querendo impor a ideologia deles relativa à construção (e imposição) dos gêneros e à sexualidade dos estudantes do ensino básico.

O que eles chamam pejorativamente de “ideologia de gênero” são duas propostas progressistas, que se complementam, para a educação. Uma é fazer valer nas escolas públicas regras que visem o combate ao machismo e misoginia, ao heterossexismo (homofobia, lesbofobia, bifobia e outras intolerâncias contra pessoas não heterossexuais) e à transfobia e cissexismo.

A outra é inserir, nas aulas que abordem os Direitos Humanos, discussões sobre como os gêneros feminino e masculino são construções sociais e são tradicionalmente tecidas por uma cultura que valoriza o que é considerado “masculino” e marginaliza o que é tomado por “feminino”, ao invés de um atributo individual de origem biológica ou divina. Nessa segunda proposta, também está incluído discutir em sala de aula – e fora dela – o preconceito e discriminação contra pessoas não héteros e pessoas trans.

Em outras palavras, não é “impor uma ideologia”, mas sim fazer os alunos pensarem por conta própria. É fazê-las refletir sobre as tradições ocidentais relativas ao gênero, à identidade individual de gênero e à orientação sexual – tal como se reflete, por exemplo, sobre os valores morais do capitalismo – e não dizerem “amém” a quem tenta impor que só “deveriam” existir homens e mulheres cisgêneros e heterossexuais. É serem educadas para o respeito incondicional às diferenças e para o repúdio às diversas formas de intolerância.

A real “ideologia de gênero” – na qual a “ideologia” pode ser conceituada tanto como conjunto de ideias e crenças quanto como uma consciência deturpada, imposta pelos detentores de poder, da realidade – está, pelo contrário, no que os pentecostais conservadores querem impor. Eles é que têm todo um plano de conformar – inclusive violentamente, se considerarem “necessário” – toda a diversidade de (identidades de) gêneros e orientações sexo-afetivas existentes em rígidos e limitados confinamentos.

Há toda uma ideologia conservadora e ditatorial sobre o que querem impor como conceitos de gênero e orientação sexual. Entre as crenças que essa ideologia pretende impor como “verdades”, estão que:

– Só existem dois gêneros: masculino e feminino;

– O gênero – ou “melhor”, o sexo – é imposto por Deus, por meio de características biológicas (como anatomia e produção de hormônios), a cada ser humano. Homens nascem obrigatoriamente com pênis, testículos e produzirão muita testosterona. Já as mulheres nascem, também mandatoriamente, com vagina, ovários e útero, e são destinadas a produzir muito estrogênio e progesterona;

– Pessoas que nascem com órgãos anatômicos “masculinos” e “femininos” ao mesmo tempo e/ou possuem limitação na produção dos hormônios “sexuais” são “aberrações antinaturais”;

– Os meninos devem ser sempre homens, e as meninas devem ser sempre mulheres. Tentativas de pessoas com pênis de “escolherem” se declarar mulheres ou não binárias, e de pessoas com vagina de “optarem” por se declarar homens ou indivíduos não binários, deverão ser punidas com violência, exclusão social e moral, privação total de direitos e, em alguns casos, morte violenta;

– Há toda uma série de comportamentos e tratos de personalidade que meninos deverão adotar como seres masculinos e meninas deverão assimilar como seres femininos. Por exemplo, azul é cor “de menino” e rosa é “de menina”; meninos devem brincar com bonecos de super-heróis e carrinhos e praticar esportes “viris”, enquanto meninas deverão brincar de boneca e casinha e praticar esportes “femininos”; os homens deverão optar por profissões “masculinas”, como engenheiros, futebolistas, lutadores de MMA ou intelectuais, e as mulheres deverão aceitar trabalhos “femininos”, como empregadas domésticas, professoras do Ensino Fundamental, enfermeiras ou assistentes sociais;

– Os homens devem ser fortes, assertivos e agressivos, enquanto as mulheres devem ser submissas, dóceis e incondicionalmente gentis;

– Só existe um único modelo válido de família: homem (marido), mulher (esposa) e filhos. Quaisquer outras combinações de pessoas (dois homens com filhos, duas mulheres com filhos, casais não monogâmicos, mães solteiras com filhos etc.) não são famílias válidas e, portanto, deverão ser privadas de todo e qualquer direito de que famílias “verdadeiras” desfrutem;

– O homem é quem manda na casa, tendo autoridade sobre sua esposa e seus filhos. A esposa deverá obedecê-lo, sob pena de castigos físicos e/ou agressões verbais;

– Essas características e comportamentos são naturais, ditados por Deus, e não devem ser questionados em nenhuma hipótese, sob pena de repressão violenta;

– Quaisquer tentativas de homens de questionar ou transgredir a “masculinidade”, e de mulheres de fazer o mesmo com a “feminilidade”, serão punidas com violência, já que é “absurdo” homens se comportarem “como mulheres” e mulheres terem personalidades “típicas de homens”. O castigo violento deverá ser repetido até o indivíduo desistir de transgredir as características obrigatórias a seu “sexo” e passar a se conformar em obedecer às características “naturais” de seu gênero;

– Homens deverão se relacionar sexualmente apenas com mulheres, e vice-versa. A única relação afetiva “tolerável” entre pessoas do mesmo “sexo” é a amizade;

– A relação sexual tem como objetivo único e estrito a reprodução;

– Apenas a heterossexualidade é algo natural e aceitável. A homossexualidade – chamada por essa ideologia de “homossexualismo” ou “pederastia” – é ou uma escolha/opção deliberada, ou um fruto de traumas decorrentes de abuso sexual;

– Não existem as “opções” bissexual, assexual, pansexual etc. Apenas heterossexualidade, a orientação sexual “correta” e “homossexualismo”, a “opção” “errada”;

– O “homossexualismo” é proibido pelas leis de Deus, já que, entre outros motivos, não permite ao casal reproduzir-se e é considerado “objetivamente” uma “abominação”;

– Quem “escolher” ser homossexual deverá ser punido por meios como violência física, discriminação, estigmatização, exclusão social, perda de direitos e, nos casos mais “escandalosos” e “imorais”, morte violenta;

– A legalização e aceitação moral do “homossexualismo” levará a “consequências nefastas”, como a autoconversão deliberada em massa de heterossexuais em homossexuais, a diminuição drástica do número de famílias, uma queda vertiginosa no nascimento de novos seres humanos e, por tabela, a decadência populacional da humanidade rumo à sua extinção.

Tendo em vista que o conservadorismo pentecostal fundamentalista é munido de todo esse sistema ideológico de crenças, não nos deixemos enganar por quem diz ser “contra a ‘imposição’ da ‘ideologia de gênero’ nas escolas”. Porque eles não querem uma educação “neutra” e “sem ideologia”, mas sim uma escola que funcione como extensão da igreja, um centro de doutrinação moral-religiosa cristã, conservadora e tradicionalista, onde os professores complementem o papel dos sacerdotes.

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21 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Newton

setembro 27 2015 Responder

Creio que será mais fácil para aqueles que, por exemplo, se sintam como “uma mulher aprisionada em um corpo masculino”, basta agora se declarar mulher, não serão mais necessárias as dolorosas e complexas cirurgias de mudança de sexo. Laerte que o diga…

    Robson Fernando de Souza

    setembro 27 2015 Responder

    Palavra de quem faz generalização precipitada sobre como cada pessoa trans, como indivíduo, se sente em relação a seu corpo e ainda por cima crê que toda mulher trans se diz “mulher aprisionada em corpo masculino”. Acho (ou melhor, tenho total certeza) de que alguém aqui está precisando de mais vivência com pessoas trans (desde que evite soltar pérolas transfóbicas).

      Newton

      setembro 28 2015 Responder

      Robson, refiro-me àqueles que dizem que se, por exemplo, um homem se sentir mulher, basta declarar que assim é, e ninguém pode contestar. Parece incrível, mas existem pessoas assim.
      Não, não convivo frequentemente com pessoas trans, e nem adiantaria, pois cada ser humano é único e exclusivo, d quem conhece alguns não conhece outros. O ser humano é insondável.

Barbara Duque

julho 9 2015 Responder

Ah sim! Tenho o Problema de Genero dela aqui mas a versao português nao eh clara (menos clara q o normal da Butler rsrs). Mas tenho outro livro aqui da teoria queer q parece ser mais claro. Este post me fez lembrar q tenho ele mas ainda nem li! Vou tomar vergonha e ler Hahahaha
Valeu! Bjao.. :*

Ronaldo

julho 9 2015 Responder

Mais importante do que o sexo é estar acima dele. A virtude está em aprender a superar a dor, o sofrimento e o prazer. Isto se aprende e nunca é imposto a alguem. Ter autocotrole é preciso para que não pratiquemos o mal e superemos o nosso lado animal.

    Robson Fernando de Souza

    julho 9 2015 Responder

    Ronaldo, o “sexo” em questão nos outros comentários é sobre a acreditada “distinção genital”, o “sexo biológico” baseado em genitais, hormônios e anatomia reprodutiva.

      Ronaldo

      julho 9 2015 Responder

      Ok, Robson. Esta de mudar de sexo não é coisa simples e corriqueira. Isto normalmente é uma farça: DNA; esteril. Aceito a união de pessoas de mesmo sexo para criar crianças adotadas, não para praticar sexo anômalo (coisa similar ao uso de drogas). Estão valorizando aparências e um músculo. Tenho certeza que podemos ficar sem masturbar ou praticar sexo. Serei forte fisicamente e mentalmente.

        Robson Fernando de Souza

        julho 9 2015 Responder

        O que seria “sexo anômalo” pra você?

          Ronaldo

          julho 11 2015

          Já respondi a essa pergunta. Não me leve a mau.

          Robson Fernando de Souza

          julho 12 2015

          Deixo de sobreaviso: comentários heterossexistas (homofóbicos, lesbofóbicos, bifóbicos etc.) e transfóbicos não são permitidos por aqui.

Lucas

julho 6 2015 Responder

“O que caracteriza um individuo do sexo masculino é a presença do cromossomo Y no 23º par de cromossomos. Se não existe Y, automaticamente é mulher. É simples”

Eu sei disso, Ricardo. Só que o comentário do amigo deu a entender que para ser homem ou mulher tem que ser ou XX ou XY, ou seja, a definição dele foi muito restrita. Só chamei a atenção dele nesse ponto.

“Ora, é claro que continua sendo um homem. Até por quê, ser homem ou mulher NÃO É DEFINIDO PELOS ÓRGÃOS GENITAIS. São os alossomos que definem o sexo do indivíduo.”

Com certeza! Mas o que os preconceituosos fazem é reduzir às pessoas apenas a um pênis ou uma vagina para defini-los, ataquei esse reducionismo e você apenas me complementou. Biologia é uma coisa, biologismo é outra completamente diferente. O ser humano é muito complexo!

    Ricardo Ibn

    julho 8 2015 Responder

    Ops! Perdão! Falha Nostra!!

Lucas

julho 5 2015 Responder

Gênero – refere-se à identidade adotada por uma pessoa de acordo com seus genitais, psicologia ou seu papel na sociedade. Para a maioria das pessoas, homem ou mulher. Ainda que gênero seja usado como sinônimo de sexo, nas ciências sociais e na psicologia refere-se às diferenças sociais, conhecidas nas ciências biológicas como papel de gênero. Historicamente, o feminismo posicionou os papéis de gênero como construídos socialmente, independente de qualquer base biológica. Pessoas cuja identidade de gênero difere do gênero designado de acordo com os genitais são normalmente identificadas como transgêneras.

Sexo – categorias que se referem a grupos complementares que podem combinar o respectivo material genético – normalmente o DNA – através da conjugação.

“Segundo a biologia, o ser vivo que possui o cromossomo XX e produz uma pequena quantidade de gametas imóveis (ex: óvulos) é do gênero feminino, e o ser vivo que possui o cromossomo XY e produz uma grande quantidade de gametas móveis (ex: espermatozoides) é do gênero masculino. ”

Beleza. Porém pessoas que possuem Síndrome de Turner, Trissomia dos Autossomas 21, 18 e 13, Trissomia dos Cromossomos Sexuais, Tetrassomia, Pentassomia, etc são o quê? Monstros? Se um homem é apenas homem por ter um pênis e um par de testículos, caso ele tenha que amputá-los devido a um acidente ou uma doença, no que ele se tornará? Um extraterrestre?

    Robson Fernando de Souza

    julho 6 2015 Responder

    Ótimo comentário, Lucas, valeu =)

    Ricardo Ibn

    julho 6 2015 Responder

    Lucas… Bom dia!!

    Desculpe… mas fora as definições de gênero e sexo, não entendi o seu comentário…

    O que caracteriza um individuo do sexo masculino é a presença do cromossomo Y no 23º par de cromossomos. Se não existe Y, automaticamente é mulher. É simples

    Ou seja…

    Síndrome de Turner: Cromossomo X solitário. É mulher

    Trissomia do X: (XXX). É mulher

    Síndrome de Klinefelter (XYY). É homem

    XYY: É homem

    XXXX: É mulher

    XXYY: É homem

    XXXXX: É mulher

    XXXXY: É homem

    Viu… não são monstros… são seres humanos com anomalias nos cromossomos sexuais… Mas ainda são seres humanos… e com sexo definido. Não existe um terceiro sexo.

    Não entendi porque você relacionou as Trissomias 21, 18 e 13 com a questão. Essas síndromes não afetam a sexualidade. Afinal, como você mesmo escreveu, elas atingem os autossomos, que são justamente os cromossomos não-sexuais.

    “Se um homem é apenas homem por ter um pênis e um par de testículos, caso ele tenha que amputá-los devido a um acidente ou uma doença, no que ele se tornará? Um extraterrestre?”

    Ora, é claro que continua sendo um homem. Até por quê, ser homem ou mulher NÃO É DEFINIDO PELOS ÓRGÃOS GENITAIS. São os alossomos que definem o sexo do individuo.

    Se um individuo for XX e nascer com um pênis, a pergunta correta a ser feita é:

    “Por que esta MENINA nasceu com um pênis?”

    Valeu pela atenção!

Licca Chan

julho 5 2015 Responder

Dizer que “só existe gênero masculino e feminino” não é uma “crença”, é um fato biológico. Segundo a biologia, o ser vivo que possui o cromossomo XX e produz uma pequena quantidade de gametas imóveis (ex: óvulos) é do gênero feminino, e o ser vivo que possui o cromossomo XY e produz uma grande quantidade de gametas móveis (ex: espermatozoides) é do gênero masculino.

O problema é que a Esquerda teima em dizer, por exemplo, que gênero é “construção social”, e não um fenômeno biológico. Muito daquilo que o pessoal das “ciências humanas” afirma ser “socialmente construído”, “historicamente construído” ou “culturalmente construído” é na verdade fruto de pura evolução biológica, perfeitamente compreensível no contexto da seleção natural.

    Robson Fernando de Souza

    julho 5 2015 Responder

    O que é gênero pra você?

    Barbara Duque

    julho 8 2015 Responder

    Acho q a Licca confundiu gênero com sexo (oq é comum).

    Resumindo: gênero seria a definiçao dada pela construção sociocultural do individuo. Sexo: definiçao biologica do individuo.

    Exemplo: um individuo pode ter nascido com o sexo masculino (ter pênis) mas ter optado em ter o gênero feminino (de acordo com oq a sociedade define como feminino..ex: usar saia, ter seios etc).
    São duas condiçoes distintas e que portanto nao faz sentido serem impostas e consideradas como uma só condiçao que definirá o individuo somente como homem ou mulher de acordo com seu genital congênito.

      Robson Fernando de Souza

      julho 8 2015 Responder

      Olá, Barbara. Esse conceito de “sexo biológico e genital” tb é problematizado nas teorias de gênero que abarcam pessoas transgêneras. Abs

        Barbara Duque

        julho 8 2015 Responder

        Ah é? Nao sabia. Pelo menos dentro da maioria dos estudos feministas (oq eu estudo mais) ainda é usada essa definiçao. No meio LGBT ja nao sei tao a fundo as teorias. Poderia explicar melhor entao…se for extenso pode ate fazer um post sobre o assunto heim? Seria bom pra esclarecer :)
        Bjao

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