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Por que os casos de militarização da gestão de escolas públicas são preocupantes para a democracia
Foto: Rede Globo, editada

Foto: Rede Globo, editada

No final de junho, O Globo fez uma reportagem sobre uma escola pública de Manaus que havia sido assumida pela Polícia Militar e implantado um regime mão-de-ferro de disciplina e ensino. Em 2014, tinha sido a vez de várias escolas também públicas de Goiás. A aprovação, dedicada por um número significativo de pessoas, a essa incipiente militarização do ensino público brasileiro nos aponta algo preocupante, em relação ao futuro da democracia e das liberdades individuais e coletivas no Brasil.

Nessas escolas, as crianças e os jovens não sabem mais o que é liberdade. São o tempo todo submetidas a um regime disciplinar praticamente totalitário, ao pior estilo “Vigiar e Punir” (o livro de Michel Foucault sobre espaços de dominação e “fabricação” de indivíduos por meio da disciplina). Não são ensinadas a dar valor aos seus direitos constitucionais e usufruir eticamente das liberdades às quais têm ou deveriam ter direito.

Aprendem, ao invés, que, para serem “bons” cidadãos, devem simplesmente obedecer a quem tem poder, mesmo que isso os tolha de suas individualidades. E são ensinadas a aplicar o mesmo regime de dominação rigorosa caso se tornem os futuros detentores de poder (político, militar, econômico, religioso etc.).

Muitas pessoas “aplaudem” as novas escolas militares. Justificam-se dizendo que antes esses locais eram entregues à criminalidade, neles não dava para se aprender nada e agora os estudantes estão aprendendo a “ter valores morais” e se dedicando “de verdade” aos estudos.

Essas opiniões refletem uma temerosa crença: a de que a democracia não estaria dando certo no Brasil, e que a solução para a “desordem” e a violência nas escolas e outras instituições seria colocar o poder, seja sobre escolas, seja sobre o próprio país, nas mãos de militares. E estes, segundo muitos acreditam, “saberiam” como colocar a sociedade “nos eixos”.

Isso nos traz a uma situação que inspira temor. Estamos percebendo que o Brasil não está conseguindo consolidar os valores democráticos de sua Constituição, nem mesmo o apego às liberdades individuais e coletivas, em sua cultura. Muita gente ainda crê que “vale a pena” trocar liberdades e direitos democráticos por um pouco de ordem e segurança.

Não é à toa que, além de vislumbrarmos esse tenebroso início de tendência de governos estaduais entregarem escolas públicas à administração militar, vemos pessoas que, nesses 30 anos de redemocratização, foram submetidas a pouco ou nenhum contato com os ideais da democracia e das liberdades civis.

Diante do atual quadro de governo federal enfraquecido e índices altos de violência urbana, esses indivíduos defendem a volta da ditadura militar, a mesma que torturou e matou um número ainda desconhecido de pessoas e eliminou direitos e liberdades por mais de vinte anos. Também é comum vê-las aplaudindo massacres cometidos pela PM nas periferias urbanas e opinando que a radicalização da violência policial seria uma “boa solução” para a criminalidade.

São pessoas que saíram do regime militar há três décadas, mas delas a ditadura nunca saiu.

O caso delas e das escolas militarizadas reflete que não houve, paralelamente à restauração das eleições e à Constituição Federal de 1988, a preocupação do poder público em ensinar a sociedade brasileira como um todo a ser ela mesma democrática. Os meios de influenciamento cultural-ideológico – imprensa, escolas, igrejas e publicidade estatal – não ajudaram a plantar a democracia e a valorização da liberdade nas mentes das pessoas.

É na própria matéria d’O Globo, aliás, que percebemos um dos porquês de estarmos correndo o risco de ver essa cultura do disciplinamento autoritário crescer no país. Percebamos que em momento nenhum ela ouve pedagogos, políticos e gestores escolares contrários à militarização do ensino e defensores da educação libertária e democrática, aquela pela qual Paulo Freire lutou ao longo de sua vida.

Nem fez uma outra reportagem que, sendo a contraparte da que falou da escola de Manaus, descrevesse uma ou mais experiências de escolas públicas onde a democracia no ensino e na gestão institucional e o apreço pela liberdade tenham-nas feito progredir em desempenho e ser bem-sucedidas na formação humanizada de crianças e adolescentes.

Em outras palavras, parte da mídia está dando ampla voz aos defensores do autoritarismo, e ajudando a abaixar ou emudecer o volume de quem defende o fortalecimento ou mesmo a preservação da democracia no país.

A militarização do ensino público, tendo recebido bastante aprovação nas comunidades vizinhas às escolas submetidas à PM, corre o risco de se propagar pelo país – com o apoio de uma imprensa disposta a divulgar as experiências “bem-sucedidas” de escolas desse tipo. E a mesma tendência de crescimento pode acontecer com o próprio culto ao autoritarismo militar como “salvador da nação”, caso não tomemos, como seres políticos usufruidores da democracia, alguma medida.

É extremamente necessário, nessa situação, discutirmos maneiras de como fazer uma oposição a essa perigosa tendência. E isso incluirá a reafirmação das demandas pela regulamentação e democratização da mídia – a qual abrirá espaço para a propagação da defesa da democracia e das liberdades por entre a sociedade. E poderá passar por intervenções em escolas públicas, que mostrem como o autoritarismo não é a única, tampouco a melhor, maneira de se educar e formar crianças e jovens e tirá-las do caminho da criminalidade.

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11 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Vinícius

maio 30 2016 Responder

Eu sempre aprendi a analisar fatos! em pesquisa feita pelo programa que queria denegrir a imagem de um dos colégios militares, 90% dos pais era à favor.
Eu sou a favor de uma escola que ensine disciplina. E que não ensine ditaduras como as ditaduras socialistas que mataram milhões no mundo todo. Como nazismo e comunismo. Esse é o real temor dos 10% que não querem que ensinem que no mercado de trabalho, na maioria, você terá uma roupa para usar, horário para chegar, não poderá trocar carícias com seu colega de trabalho durante o expediente (mesmo o seu cônjuge), seu chefe será seu superior, e que os que desempenham mais são os que são promovidos. Que drogas não prestam, e que o cidadão de bem cumpre as leis. Não agride colegas verbalmente tão pouco fisicamente. As notas destes alunos multiplicaram-se. O comportamento da comunidade mudou.

leonardo

abril 4 2016 Responder

Quando você souber comentar com respeito, volte aqui. Comentário grosseiro e desrespeitoso apagado. RFS

Felipe

agosto 10 2015 Responder

Pergunte a qualquer pai de baixa renda: você prefere ter seu filho em uma escola militar onde não há drogras e com ensino muito melhor, ou prefere ter seu filho em uma escola publica dominada pelo tráfico?

Qual escola você colocaria seu filho?

    Robson Fernando de Souza

    agosto 10 2015 Responder

    Minha resposta: não atendo a falácias de falsa dicotomia.

Lucas

agosto 4 2015 Responder

O ensino público já é prioritariamente ocupado pelos mais desfavorecidos socialmente. Defender a militarização é querer deixá-los cada vez mais às margens. Eles aprendem a obedecer quem pode mais, muito conveniente.

Tiago

julho 28 2015 Responder

Não há nada de errado em ensinar respeito e disciplina às crianças. Isto não interfere no desenvolvimento do pensamento crítico, como vocês parecem acreditar. A “autoridade” deve sempre estar aberta ao diálogo, porém têm o direito de exigir que as manifestações contrárias sejam apresentadas com civilidade.
Quanto a disciplina, não vejo entidade melhor do que o exército para ensiná-la. Aliás, se no futuro esses jovens resolverem se tornar revolucionários e “combater o sistema”, o “treino militar” que receberam os farão muito mais eficientes nesta tarefa do que se fossem hippies-paz-e-amor, ou achassem que escrevendo blogs, pixando muros, e protestando no facebook conseguiriam realmente mudar alguma coisa.

PS:
E você está caindo na falácia do espantalho quando afirma que a militarização das escolas estará usando “meios autoritários e violentos” para este objetivo.

    Robson Fernando de Souza

    julho 30 2015 Responder

    1. Ensinar respeito é uma coisa. Fazer isso por meios de coerção e controle pelo medo ao invés de educação ética é outra.
    2. Qual conceito de disciplina vc usa aqui? Em outras palavras, o que é disciplina pra vc?
    3. Pra um argumento ser bem-sucedidamente apontado como falácia do espantalho, é necessário dizer por que o argumento em questão é um espantalho. Portanto, gostaria de saber por que o meu argumento sobre a educação militarizada baseada em autoritarismo e violência (que não precisa ser física) é espantalho.

Samuel

julho 16 2015 Responder

Não é o militarismo escolar que se torna a solução, é a falência do ideal democrático que se escancara diante de nossos olhos. Sob quais condições sociais estão submetidos estes jovens para serem taxados como futuros apoiadores do militarismo? O que choca é a possibilidade de ascensão social de um pequeno contingente de crianças, oriundas de um Estado pobre, de famílias desagregadas, submetidas ao constante assédio ao tráfico e ao consumo de droga, estereotipadas por sua origem, cor e traços fisionômicos. O discurso que vemos é o discurso burguês, de quem entende o mundo a partir do tipo ideal e de sua educação de classe.
Estudar em um colégio militar não elimina outras dimensões da vida. Quantos médicos, advogados, dentistas, cientistas e professores foram provenientes de colégios militares e nem por isso são reacionários ao extremo? O que está em tela é a educação formal para dar possibilidade de escolha a estas crianças de decidir sobre o futuro acesso à educação de classe – o nível superior e seus desdobramentos. Talvez seja isso que incomode o discurso dos classistas que não percebe a falência dos valores na educação pública e matriculam seus filhos na educação privada, colorida e cheia de amor pra dar.
A farda não é o fim da história, mas o início da mudança de trajetória social determinada por fatores externos alheios a vontade dessas crianças, as quais já nascem com essa culpa e tendo que se virar para desdobrar um futuro melhor para si e para os seus afetos.
A carga social de desigualdade, concentração de renda e os valores da mídia de massa não se levam em conta? Falar em democracia a ser defendida em si mesma é negar as outras possibilidades de visão de mundo. A educação militar não nasceu naquela escola periférica em Manaus; os sistemas totais de ensino não se resumem a administração militar, vejam a educação cristã, onde tudo é pecado, ou as escolas ‘conteudistas’ que só visam marcar o ‘X’ da questão.
Se vivemos numa democracia, deixem que o povo decidam onde é melhor ‘educar suas crianças para não punir os seus cidadãos’. Posso garantir que a fila está dando volta no quarteirão da criticada escola ‘militarizada’ de Manaus.

    Robson Fernando de Souza

    julho 16 2015 Responder

    Olá, Samuel. Essa visão de que a democracia “fracassou” no Brasil – visão essa que dá margem à busca por “soluções” no autoritarismo – é problematizada no texto também. E se “a fila está dando volta no quarteirão da criticada escola ‘militarizada’ de Manaus”, isso é extremamente preocupante.

    Abs

Aham

julho 15 2015 Responder

Por que ensinar educação, respeito e disciplina é autoritarismo né?

    Robson Fernando de Souza

    julho 16 2015 Responder

    Ou seja, só existem meios autoritários e violentos de ensinar as três, é isso?

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