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jul15

O problema da frase “Viva cada dia como se fosse o último”
Variante da frase motivacional "Viva cada dia como se fosse o último". Essa variante é falsamente atribuída a Gandhi ou James Dean, sendo sua verdadeira autoria desconhecida.

Variante da frase motivacional “Viva cada dia como se fosse o último”. Essa variante é falsamente atribuída a Gandhi ou James Dean, sendo sua verdadeira autoria desconhecida.

Ocasionalmente vemos estampada diante de nós a frase “Viva cada dia como se fosse o último” – e achamos o máximo, um ótimo conselho que todos deveriam seguir para serem felizes. Mas não percebemos que ela é permeada de problemas, entre eles questões ligadas ao modelo de civilização e economia no qual vivemos.

No mundo capitalista, ela é irrealizável para a grande maioria da população. É absurdo usá-la como conselho, por exemplo, para aquela trabalhadora cujo emprego é detestado por ela e toma-lhe dez horas por dia e seis dias por semana. O absurdo é ainda maior se ela usa suas horas “vagas” para exaustivas tarefas domésticas e é oprimida pelo marido machista.

Também é sem noção ditar a frase para aquele jovem pobre que estuda numa escola pública precária, está desempregado, tem currículo esnobado pelas empresas por motivos de que ele supeita como discriminação racial, frequentemente sofre abordagens abusivas da polícia e enfrenta desarmonia familiar em casa – tendo um pai alcoólatra agressor de sua esposa (mãe do rapaz).

Mesmo pessoas da classe média-alta podem estar privadas de viver cada dia como se fossem morrer amanhã. Um gerente de empresa grande submetido a uma rotina de 3 horas de trânsito por dia e 44 horas semanais de trabalho, e que vive preocupado com contas e dívidas e cuida de filhos pequenos em casa, não poderá realizar o que a tal frase diz, a não ser nas curtas três ou quatro semanas anuais de férias em anos sem crise econômica.

O capitalismo “mata na raiz” qualquer chance de pessoas como essas de viver “intensamente” seus dias com vidas prazerosas. Impõe a muita gente trabalhos de “gosto” amargo, limita-lhes severamente os lazeres, força-lhes vidas baseadas em “viver para trabalhar” ao invés de “trabalhar para viver bem”. Submete a sociedade a uma vida cujos objetivos gerais são ganhar dinheiro e manter as engrenagens do sistema rodando, e não viver uma vida que seja um fim em si mesmo.

Os limites da criticada frase, aliás, não estão “apenas” no capitalismo, mas também na saúde individual. Pessoas enfermas, incapacitadas temporária ou permanentemente de viver vidas normais e saudáveis, certamente irão se sentir muito mal ao ouvi-la ou lê-la. O “conselho” é para elas um acionador de trauma e sofrimento, não um encorajamento motivacional.

A frase pode ser estimulante para algumas (poucas) pessoas, mas para tantas outras é frustrante. Prova-nos que o capitalismo não se imbui de nenhuma preocupação ético-moral de prover aos seres humanos – mesmo de classes endinheiradas – vidas que valham a pena serem vividas. Pode ser traumática e até ofensiva para quem (sobre)vive em ambientes opressivos ou internado em hospitais.

Pensemos duas vezes, então, antes de usá-la como motivacional. Ou melhor, lutemos politicamente para que, de fato, no futuro, o máximo possível de seres humanos vivam com as plenas condições de viver cada um de seus dias deliciosamente e como se fosse o último.

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