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jul15

Se Sócrates ressuscitasse hoje, não demoraria para ele ser novamente condenado a beber veneno
Uma cena parecida com a dessa pintura muito provavelmente aconteceria no Brasil de 2015, só que com Sócrates e os discípulos vestidos com roupas de hoje

Uma cena parecida com a dessa pintura muito provavelmente aconteceria no Brasil de 2015, só que com Sócrates e os discípulos vestidos com roupas de hoje

Diz a História que Sócrates, considerado o pai da Filosofia Ocidental, foi condenado a “optar” entre abandonar Atenas ou beber uma taça do veneno cicuta, por “corromper a juventude ateniense” e afrontar a ordem ali vigente. Ele preferiu beber a cicuta, porque lhe seria muito humilhante renunciar a Atenas e a seu trabalho de instigar o pensamento dos atenienses com quem dialogava. Eis que, mais de 2.400 anos depois de sua morte, tenho vivido momentos que me fazem perceber que, se Sócrates fosse magicamente ressuscitado hoje com a mesma genialidade que tinha no final do século V antes da Era Cristã, ele seria novamente forçado a se envenenar.

Digo isso porque tenho percebido o quanto muita gente por aí, em se tratando de pessoas que defendem crenças reacionárias – desde conservadores de direita convictos até pessoas que se dizem de esquerda mas defendem a exploração e abate de animais não humanos –, tem horror a ser submetida à mesma estratégia de debate que Sócrates usava. Reagem com raiva e má vontade quando se deparam com quem usa o recurso de replicar respostas com novas perguntas na intenção de fazê-las pensar melhor do que acreditam e defendem.

Ao longo desses últimos anos, nas redes sociais e em algumas ocasiões presenciais, tive a oportunidade de interpelar “socraticamente” várias pessoas que defendiam crenças e ações opressoras, como o consumo de alimentos de origem animal, a redução da maioridade penal e a sujeição da população grega ao despotismo econômico do FMI e do Banco Central Europeu em detrimento da democracia que constitucionalmente rege o sistema político da Grécia.

Eu lhes dirigi perguntas que questionavam o que estavam argumentando. Com raiva reacionária – independente de se autodeclararem de direita, de esquerda (caso dos especistas) ou “nem um nem outro” –, muitos respondiam de forma agressiva. Mostravam ter certeza absoluta de suas posições e fechamento a pensar na possibilidade de suas crenças serem equivocadas, no sentido de não corresponder aos fatos e às estatísticas, e prejudiciais a outrem.

A cada resposta soberba e cheia de certeza que davam, eu replicava com mais uma pergunta. Respondiam a essa nova questão, e então eu sucedia com outro questionamento. Esperava eu – creio que ainda é cedo demais para concluir que tenha sido ingenuamente – que, no final das contas, percebessem como suas crenças se baseavam em pressupostos absurdos e falaciosos, que violavam a ética e no final das contas tornavam este mundo um lugar pior para seres humanos e não humanos viverem.

Mas ao invés de respostas como “Vou pensar melhor nisso e depois eu lhe respondo” ou “É mesmo, não tinha pensado nisso ainda”, recebi reações que me acusavam de “infantilidade” e “inconveniência”. Diziam que eu “não estava debatendo direito”, e que ficar respondendo a alguém que só faz dirigir novas perguntas à pessoa é “um saco”, “uma perda de tempo”.

Me perguntavam por que eu não debatia “de verdade” – ou seja, convencionalmente, respondendo certezas com outras certezas, opiniões com outras opiniões –, mesmo que isso dificilmente dê certo quando um dos lados ou ambos têm certeza demais sobre o que pensa(m). A isso, eu respondia que Sócrates atuava assim – não trazia opiniões próprias dele, já que a intenção do filósofo não era confrontar opinião X com opinião Y, mas sim induzir o interlocutor a repensar suas precipitadas certezas.

Outros fechavam o debate, meio que na minha cara, declarando que “é assim que pensam” e “não vão mudar”, descartando a possibilidade de responder a novas perguntas que lhes tentem pôr na berlinda as crenças e certezas. Em pelo menos um caso, a pessoa ameaçou apagar meus comentários caso eu continuasse “socratizando”.

No final das contas, os debates eram frustrantes. Não vi, até hoje, ninguém reconhecendo a necessidade de submeter suas opiniões – chamadas pela Filosofia Ocidental de doxa – a investigações que lhes tragam um conhecimento mais próximo do que viria a ser uma verdade devidamente fundamentada – conhecimento chamado no jargão filosófico de episteme. Pelo contrário, só tive como respostas ou debates encerrados pelo silêncio do outro, ou fechamentos súbitos baseados em bater no peito e dizer algo análogo a “Eu estou certo, não vou mudar meu pensamento e agora quero que você cale a boca”.

A saber: pelo menos os debates online não tinham agressividade de minha parte. Em um ou outro debate off-line eu percebia, depois, que estava fazendo perguntas nervosas e irritadiças. Raramente recebi acusações, do outro lado, de que eu estivesse sendo grosseiro, desrespeitoso ou arrogante. Pelo contrário, pareciam sentir falta de opiniões “duras” vindas de mim.

Quando olho para esse histórico de tentativas de diálogo, sou induzido a pensar que a educação brasileira, seja ela pública ou privada, está fracassando severamente em formar seres pensantes. Está parecendo que, mais de 2.400 anos depois do falecimento de Sócrates, persiste a mesmíssima resistência ao autoquestionamento e à busca de conhecimentos embasados. Isso a ponto em que, se alguém tentar agir parecido com Sócrates, será ridicularizado e hostilizado e receberá fechadas de porta na cara.

E não é “só” isso. Os sofistas modernos (reproduzindo-se aqui a mesma definição de sofista que Sócrates e Platão usavam) fazem a festa na mídia, nas escolas, nas igrejas e em outros lugares. Imprimem na mente de milhões de pessoas, como se talhassem escritos na pedra, crenças preconceituosas, opiniões baseadas em achismos ou mesmo em mentiras, argumentos e crenças propagados como se fossem verdades absolutas, “teorias” baseadas em falácias e puro senso comum…

E quem tenta refutar essas opiniões tem pouco espaço. Refiro-me aqui ao alcance limitado de audiência – considerando a improbabilidade de um blog de esquerda libertária vir a ter o mesmo número de leituras que a coluna de um opinador reacionário do site da Veja. E também à indisposição dos aderentes de opiniões reacionárias em se deixar ler ou ouvir o outro lado. Isso sem falar no fundamentalismo religioso, plantado em milhões de mentes submetidas a uma educação escolar medíocre, contra o qual tanto se fala em enfrentar e remediar – mal se sabe ainda por quais meios.

Essa endêmica indisposição e não condicionamento a se permitir o exercício da maiêutica – a arte de “parir” conhecimento a partir de dúvidas, reflexões e estudos decentemente embasados – evidencia que, se Sócrates tivesse seu corpo e mente reconstituídos e sua vida devolvida na sociedade em que vivemos – o Brasil do século 21 –, seria proibido por lei de fazer o que fazia na Atenas do século V A.E.C. E teria como pena para esse “crime” o ostracismo, com reclusão em área remota da Floresta Amazônica para não ter mais contato com outros seres humanos, ou a morte com mais um “drinque” de cicuta.

Penso assim que, se queremos ajudar a população brasileira em geral a se tornar consciente e politizada, ao invés de acriticamente submetida a opiniões manipuladoras, preconceituosas e falaciosas, precisaremos, a princípio, debater sobre como podemos iniciar esse processo educacional dentro e fora das escolas. Isso poderá incluir, entre outras questões, no caso de blogs, sites e páginas sociais, como escrevermos artigos muito cativantes, que saibam amolecer a resistência que muitos leitores esboçam quando se deparam com um texto que pensa bem diferente deles (obs.: isso é também uma autocrítica).

Creio que textos que tragam mais perguntas do que respostas podem ajudar. Poderão complementar os conteúdos que refutam crenças do senso comum e denunciam a desonestidade de quem forma resistentes opiniões preconceituosas. Da mesma maneira, estratégias que quebrem cadeados mentais por meio da comunicação não violenta poderão ser muito úteis.

Essas são algumas das possibilidades sobre as quais precisaremos conversar, caso queiramos tornar o mundo um lugar mais humano, igualitário e solidário. Por meio delas, poderemos honrar o legado de Sócrates, de modo que a sociedade veja nele um visionário amigo da felicidade dos seres da Natureza, e não um “chato” que “não sabe debater direito” e cuja segunda morte por cicuta seria desejada por muitos.

 

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15 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ronaldo B

julho 9 2015 Responder

Robson, falas muito sobre os reacionários, os partidos e sectaristas. Atualmente temos ferramentas que não existiam em outras épocas: a informática. Hoje já é possivel substituir o orgão legislativo pela opinião do cidadão on-line. Haverá um dia em que o cidadão não precisará de representantes.

    Robson Fernando de Souza

    julho 9 2015 Responder

    Olá, Ronaldo. Sobre essa possibilidade de substituição, temos tecnologia, mas falta, digamos, condições de a maioria exercer responsavelmente essa cidadania. Esse dia em que não precisaremos mais de representantes só virá, creio eu, quando os cidadãos tiverem condições intelectuais, maturidade política, pra serem os únicos exertores de poder sobre si mesmos (o povo empoderado governando a si mesmo).

      Ronaldo B

      julho 11 2015 Responder

      Para começar, que tal eliminar o grêmio e colocar um computador “honesto” no lugar dele? Todos nós adquirimos a boa cultura (só podemos ser a nós mesmos)!

Alex

julho 9 2015 Responder

Só porque uma ideia foi criada por Sócrates ela é boa? Isso não é apelo à autoridade?

Se todos estão se incomodando, o problema não pode ser com você?

Albert Einstein disse que “É insanidade fazer a mesma coisa de todos os dias e esperar resultados diferentes”. Se você percebeu que essa forma de debate não era frutífera, por que insistir nela?

Já tentou se colocar do outro lado, você quer debater e a outra pessoa fica só fazendo perguntas?

Acha que isso é agradável ou com o tempo se torna irritante?

Você está aberto a novas ideias, pode repensar suas certezas sobre veganismo e política?

Você considera que todos que não concordam/não querem debater com você são reacionários? Mesmo se a pessoa simplesmente não queira ficar respondendo muitas perguntas que acha sem sentido?

Existe verdade absoluta? Quem é o detentor delas?

Você é mais sábio que os outros porque sabe discutir de forma maiêutica?

    Robson Fernando de Souza

    julho 9 2015 Responder

    Por que você tenta pressupor ou estabelecer certezas com perguntas (e das mais retóricas)? Sócrates não fazia isso.

    E por que faz perguntas agressivas? (Não respondo comentários agressivos, incluindo perguntas, já que não há nelas qualquer perspectiva de um diálogo ou debate amigável)

      Alex

      julho 9 2015 Responder

      “Pelo menos os debates online não tinham agressividade de minha parte. “, não vi agressividade em minhas perguntas – apenas indagações, se para você foram agressivas, como pode ter certeza que os seus interlocutores também não se sentiram agredidos pelos seus questionamentos??

Alysson

julho 8 2015 Responder

Bem, penso que as limitações para o debate venham de vários fatores, como nossa cultura (maniqueísmo, vergonha de dizer “não sei”, ao mesmo tempo em que não há um mínimo constrangimento com a possibilidade de ser leviano, entrar num debate querendo vencê-lo ao invés de estar aberto ao aprendizado…). E nosso sistema de ensino não contribui para mudar tal situação e, quando algum professor o faz minimamente, ainda é acusado de “doutrinação marxista” (sic). Os grandes formadores de opinião então, são grande parte do problema. Bem, falta humildade, falta a consciência de que o primeiro passo para o aprendizado consiste em admitir a própria ignorância, e isso deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha. É preciso refletir e tentar compreender o ponto de vista alheio, mesmo que seja meio “intragável” (é o ponto onde a maioria para). É preciso cogitar a possibilidade de que aquele ponto de vista “intragável” pode estar certo. Pra mim, o grande problema nisso tudo é que nada disso é acidental, faz parte da estratégia de controle pela alienação, muito bem fundamentada.

Enfim, quero dizer que a um bom tempo me identifiquei com esse espaço, pois sempre busca ir além, através de muita autocrítica, pois temos a tendência de “aliviar” em relação àqueles com os quais temos mais afinidade, fazendo vista grossa em relação a alguns vacilos dos “nossos”, mantendo maior rigor para com os “outros”… o rigor deve ser o mesmo. Penso que nada deve escapar ao rigor do senso crítico (aí entra o problema das “verdades absolutas, inquestionáveis”).

Ah, e pra finalizar, não sou vegetariano ou vegano, mas nem por isso me ofendi com suas citações. Pelo que entendi, não é necessariamente uma crítica a quem come carne, mas sim a quem age com especismo, ou usa de argumentação desonesta pra defender tal consumo e tudo que está por traz dessa medonha cadeia produtiva. Explicando melhor, sempre fui sensível à causa dos animais, mas de forma fragmentada (por ignorância), assim, o ato de comer carne não me incomodava até então. Porém, me encontro num dilema atualmente, pois se identificar como cúmplice desse mercado incomoda muito. Pelo menos nunca fui um comedor de carne compulsivo (estou ciente de que isso não basta), pelo contrário, sempre questionei esse modismo, essa construção cultural onde carne é sinal de status e se encontra presente na maioria das refeições, de diferentes formas e consumida num excesso que chega a ser bizarro. Como até a pouco tempo atrás isso não me incomodava, mas agora já cogito uma mudança em meus hábitos alimentares, acho que já é um começo. Espero não ser taxado de hipócrita.

    Robson Fernando de Souza

    julho 8 2015 Responder

    Valeu pela ótima colocação, Alysson =)

    Sobre sua indagação em relação ao consumo de produtos animais (considerando que a violência da pecuária e da pesca vão bem além da carne), acho que vc vai gostar dessas postagens aqui, do Veganagente:
    http://veganagente.consciencia.blog.br/categorias/seja-veganx/

    Abs!

Barbara Duque

julho 8 2015 Responder

Muito coerente! Acaba de ganhar mais uma leitora

    Robson Fernando de Souza

    julho 8 2015 Responder

    hehe Brigadim, Barbara =) Seja muito bem vinda =D Abs!

Gustavo, anarquista bizarro

julho 7 2015 Responder

Será que você não tem uma postura intensamente parecida com a que você está criticando? Será que você não está tão fechado em suas opiniões que qualquer desvio mínimo da sua linha de pensamento você já desqualifica o interlocutor como antiético, reacionário ou falso esquerdista.

Sinceramente, de uns dois anos para cá eu me tornei extremamente cético a respeito da atuação do pessoal das faculdades de ciências humanas. E eu era um defensor ferrenho dos sociólogos, filósofos, historiadores e tal.

Robson, você, e leitores de seu blog, me chamaram de anarquista bizarro somente porque eu disse que aceitava uma discussão sobre redução da maioridade penal (coisa que eu sou altamente desfavorável, porém considero que haja argumentos válidos a favor).

    Robson Fernando de Souza

    julho 7 2015 Responder

    Gustavo, eu gostaria de saber em qual ocasião eu rotulei pessoas que vêm comentar em discordância como “antiéticas, reacionárias ou falsas esquerdistas”. E gostaria de saber também quando eu chamei vc de “anarquista bizarro”.

Licca Chan

julho 7 2015 Responder

“desde conservadores de direita convictos até pessoas que se dizem de esquerda mas defendem a exploração e abate de animais não humanos”

Desculpe se eu entendi mal, mas isso quer dizer que, para você, uma pessoa que come carne não pode se dizer de esquerda, é isso?

    Robson Fernando de Souza

    julho 7 2015 Responder

    O que eu falei foi que pessoas de esquerda que defendem o consumo de produtos animais (não se restringindo a “simplesmente” consumi-los) caem em contradição com os ideais da esquerda. Quando alguém cai em contradições, não quer dizer que ela “não é de esquerda” (ou que “não é de direita”, como no caso de vegans anti-humanistas que defendem direitos pros animais não humanos).

      Licca Chan

      julho 8 2015 Responder

      Interessante… não me lembro de Marx ter proibido o consumo de carne em qualquer um de seus livros…

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