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ago15

Por que o reerguimento da esquerda no Brasil depende de um rompimento definitivo com o PT
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Nem com os “coxinhas”, nem com os governistas. A esquerda brasileira só vai voltar a trilhar um caminho de desenvolvimento e ascensão depois que romper definitivamente com o PT

Creio que não é mais segredo para ninguém o cenário político brasileiro atual, neste ano de 2015. A direita está em franca ascensão e cada vez mais forte, enquanto a esquerda está “moribunda”, derrotada e caída no chão desde o último trimestre de 2014. Receio ter que opinar que esse estado de letargia na esquerda, pelo que parece, só vai acabar, e dar lugar a um renascimento de fênix, depois que houver um rompimento generalizado dos movimentos sociais com o PT.

 

O medo de puxarem um “#ForaDilma de esquerda”

Tem ficado bastante evidente que grande parte da esquerda tem medo de voltar às ruas e pedir com toda a sua firmeza a queda do governo de direita empreendido por Dilma Rousseff, seus ministros e a “base aliada”. Há no ar o temor de que exigir o fim do governo pró-neoliberal da presidenta dê ânimo aos propósitos considerados “golpistas” da direita que exige o impeachment ou a renúncia dela.

Assiste-se com uma impotente consternação uma dupla ofensiva de direita. Por um lado, os direitistas considerados “golpistas” exigem que Dilma seja “impichada” ou abdique da presidência da república, por motivos que vão desde a “institucionalização da corrupção pelo PT” até a surreal crença de que o partido encabeça hoje um “regime comunista”.

Pelo outro, Dilma e seus subordinados fazem uma política, até o momento infrutífera, de tentar apaziguar a direita empresarial e legislativa com políticas e acordos escusos. Vislumbra uma série de medidas antipopulares, pró-neoliberais, elitistas e revogadoras ou diminuidoras de direitos sociais e civis. Entre elas, estão o corte massivo de investimentos e mesmo de despesas básicas no ensino superior federal, o avanço no desmantelamento da legislação trabalhista e ambiental, a privatização gradual de bens públicos (rodovias, aeroportos, portos, poços de petróleo, ações de estatais etc.), cortes também em programas sociais, a obediência aos teocratas, a famigerada “Agenda Brasil” etc.

Diante disso, acredita-se que um “#ForaDilma de esquerda”, no atual contexto de oposição demasiadamente fraca à esquerda, dê forças para a direita assumida (PSDB, reacionários, teocratas evangélicos, parlamentares de extrema-direita, futuros novos partidos declaradamente de direita etc.) tomar o controle total do regime político brasileiro. Afinal, uma possível renúncia de Dilma satisfaria o maior dos desejos atuais dessa direita – a expulsão do PT do Poder Executivo federal.

Além disso, pensa-se que a saída forçada de Dilma não vá impulsionar uma desejada guinada à esquerda no governo, mas sim leve à poltrona presidencial alguém ainda mais preferido pela direita reacionária. Estão na “fila” o atual vice Michel Temer e, em caso de impedimento ou renúncia também dele, o famigerado Eduardo Cunha, segundo na linha de sucessão presidencial na atualidade. Isso sem falar do risco de haver novas eleições caso Dilma e Temer, por algum motivo, caiam antes do final de 2016.

Acredito que, nesse cenário ferozmente desfavorável à esquerda, há a preocupação de que um #ForaDilma vindo dos dois lados do espectro político crie uma situação de insegurança jurídica para quem for eleito nas próximas campanhas presidenciais. Ou seja, todo presidente de quem a direita não for com a cara estaria sujeito a ser “impichado” sem provas formais de envolvimento com crimes de responsabilidade. Abriria-se o precedente (jurisprudência) para acontecer aqui algo semelhante ao que houve com Manuel Zelaya em Honduras e Fernando Lugo no Paraguai – muito embora Dilma esteja longe de ser uma presidenta de esquerda e adversária dos interesses dos conservadores e capitalistas.

 

O medo que precisa ser superado para que a esquerda “renasça”

É de se perceber, porém, que a preocupação com essa suposta insegurança jurídica é seletiva. Na década de 90, quando era oposição de Fernando Henrique Cardoso, o PT não ligava para a hipótese de, se FHC renunciasse ou fosse “impichado” por não governar como a esquerda de então queria, haver uma jurisprudência para se acatar novos pedidos de impeachment politicamente motivados. O “Fora FHC” ressoava quase todos os dias naquele Brasil fustigado por crises econômicas internacionais e pela submissão ao FMI.

E uma outra questão que faz esse medo ser pouco fundamentado é que se tenta proteger um governo que já está agindo de forma escancaradamente direitista, contrária aos anseios dos movimentos sociais. Privatizador, repressor, revogador ou negador de direitos, contrário aos Direitos Humanos, agressor ambiental, conivente com casos de corrupção que envolvem petistas – em conjunto com gente de outros partidos. É muita ingenuidade acreditar que o segundo mandato de Dilma esteja sendo “menos ruim”, um “mal menor” ou “mais de esquerda” comparadamente com um hipotético governo de Aécio Neves, um segundo mandato de José Serra (caso tivesse ganho de Dilma em 2010 e reeleito em 2014) ou um imaginado comando de Michel Temer.

Em outras palavras, não faz sentido tentar proteger o mandato de Dilma se o medo é de o(s) sucessor(es) promover(em) uma política conservadora. Já estamos sob um governo conservador e privatista, que tende a não mudar caso ela deixe o Planalto e seu vice peemedebista assuma, ou mesmo se algum tucano se empossasse ilegalmente da presidência.

Além do mais, faz-se necessário perceber que a esquerda hoje não tem força política suficiente para lançar um candidato à presidência forte o bastante para ultrapassar Aécio, Geraldo Alckmin ou outro nome do PSDB ou do PMDB nas eleições de 2018. Menos ainda tem chance de oferecer um projeto de governo alternativo, mesmo a tal “saída pela esquerda” defendida pelo PSOL, neste ano de 2015.

A esquerda está fraturada em dissensões motivadas, entre outras questões, por diferenças ideológicas. Não se recuperou ainda dos três baques sofridos em 2014 – a repressão ao #NãoVaiTerCopa, a eleição do Poder Legislativo federal mais conservador em 50 anos e a traição cometida por Dilma ao seu programa de governo de segundo turno.

Ainda é pouco afeita às lutas intersecionais, que façam as diversas bandeiras progressistas serem defendidas em conjunto e harmonicamente, como uma unitária grande causa. E hoje quase não consegue sair das redes sociais, exceto quando aumentos de passagens de ônibus motivam efêmeros protestos locais. Esses fatores, associados ao medo do “golpe” reacionário, imobilizam a esquerda brasileira hoje.

Evidencia-se, quando pensamos nisso tudo, que um dos passos necessários para a esquerda do país iniciar seu renascimento é perder esse medo, romper com o PT e, em seguida, admitir que o governo já está nas mãos da direita, a qual merece nenhum apoio, mas sim enfrentamento.

A partir daí, precisará reconstruir-se, aproximar-se das classes populares e, por meio de ações locais, vislumbrar um ideal para todo o país. Dentre reconhecer seu atual estado de derrota e necessidade de reerguimento vislumbrando um projeto de país a longo prazo ou tentar se contentar com as migalhas vindas de um PT com T de traidor, deverá ser feita a escolha o quanto antes.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Yara

março 11 2016 Responder

A defesa que a esquerda de maneira geral faz a presidente e ao PT é vergonhosa. É como se agarrar a um cadáver. Isso faz com que a população rejeite todo e qualquer governo de esquerda no futuro. Defender um governo incompetente e um partido no qual integrantes estão no meio de escândalos de corrupção é o mesmo que dar tiro no próprio pé.

haroldo

agosto 24 2015 Responder

o PSOL deveria ser a terceira via do brasil

Tarantino

agosto 24 2015 Responder

Não entendi direito : você disse “governo de direita empreendido por Dilma”? Depois falou “direita reacionária “? Ora, o partido da situação é o PT, e o interessado em manter o status quo é o próprio, como pode então o outro partido ser o reacionário? Não vamos confundir reacionário com conservador, são duas coisas distintas.

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