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Você tem certeza de que defende o fim da corrupção no Brasil?
Seu desejo pelo fim da corrupção no Brasil é abrangente e imparcial? Ou é apenas uma fachada para tentar justificar a remoção forçada do PT do poder em Brasília?

Seu desejo pelo fim da corrupção no Brasil é abrangente e imparcial? Ou é apenas uma fachada para tentar justificar a remoção forçada do PT do poder em Brasília?

Editado em 03/08/15 às 22h33

É corriqueiro hoje vermos pessoas, ou percebermos nós mesmos, argumentando que o Brasil – com destaque para o Congresso e o governo federal – está “afundado na corrupção” e que o povo precisa voltar às ruas o quanto antes para exigir moralidade na política. Mas é de se perguntar: será que todas as pessoas que dizem isso realmente querem o fim da corrupção no Brasil?

Vale fazermos a nós mesmos perguntas sobre se o que realmente queremos é a abolição das tradições de corrupção política e ética ou, simplesmente, que Dilma e o PT abandonem o Palácio do Planalto ou sejam expulsos de lá. Daí, eu venho convidar você a perguntar a si mesma(o):

– Eu mesma(o) aplico no meu dia-a-dia meu ideal de “Brasil sem corrupção” me recusando a praticar pequenos atos de corrupção, como, por exemplo (não limitados a esses casos):
a) estacionar o carro em fila dupla, em locais com placa de “proibido estacionar” ou em vagas de pessoas com necessidades especiais (idosos, gestantes e pessoas com deficiência) – mesmo eu não sendo uma pessoa idosa, gestante ou com deficiência?
b) subornar o guarda de trânsito ou policial rodoviário para evitar pagar multa?
c) furar filas quando não há uma necessidade realmente emergencial e excepcional?
d) jogar lixo no chão, em galerias de água pluvial, na via do trem ou metrô, no canal, no rio ou em outros lugares inapropriados, quando poderia, ao invés, guardar o lixo na bolsa ou num saco para descartá-lo quando encontrasse uma lixeira ou chegasse em casa?
e) comprar celulares e/ou outros objetos em locais onde há fortes indícios de que estejam sendo comercializados produtos roubados?
f) comprar uma roupa exageradamente barata mesmo sabendo que o preço excessivamente baixo evidencia que ela foi fabricada com trabalho escravo?
g) receber troco a mais em algumas compras e não devolver o dinheiro extra acidentalmente entregue?
h) furtar rolos papel higiênico, torneiras, canos, pilhas de papel-toalha e outros objetos do sanitário daquele prédio (shopping, repartição pública, universidade etc.), acreditando que “a instituição aqui é rica e vai repor já-já o que eu estou levando”?
i) encomendar e usar carteiras de estudante, motorista etc. falsificadas?
j) andar com o carro ou moto na faixa exclusiva de ônibus nos horários em que apenas ônibus e táxis podem circular ali?
k) dar carteiradas (proferir perguntas como “Você sabe com quem está falando?” e/ou tirar proveito de ter um emprego ou cargo de alto prestígio para tentar me colocar acima da lei ou das regras locais)?
l) tomar e usar o cartão de débito ou crédito ou o dinheiro de outra pessoa, mesmo muito próxima de mim (namorado[a], cônjuge, mãe, pai, irmã[o], parente etc.), sem o consentimento dela e sem propósitos emergenciais?
m) recusar-me, silenciosa ou declaradamente, a entregar o assento do ônibus ou trem a uma pessoa mais necessitada (idoso[a], pessoa com deficiência, gestante etc., considerando que eu não me incluo nessas categorias)?

– Eu repreendo ou convido à reflexão alguém que me confessou, sem remorso na consciência, ter praticado uma ou mais dessas pequenas corrupções?

– Minhas críticas à corrupção transcendem o PT, dirigindo se também a políticos de outros partidos (PMDB, PSDB, PPS, PP, DEM, PR, PSC, PSD, PSB, Solidariedade, PROS, PTB etc.) e a pessoas “de poder” que não têm mandato político (juízes, latifundiários, empresários, militares, pastores etc.)?

– Minha indignação contra a corrupção transcende o “Fora PT” e o “Fora Dilma”? Pode se converter em “Fora PSDB/PMDB/ PSB/governador não petista/ruralistas/teocratas/etc.” quando for necessário?

– Se fosse denunciado pela mídia, com o mesmo vigor com o qual se denuncia os escândalos que envolvem pessoas do PT, um escândalo de corrupção envolvendo, por exemplo, partidos de oposição ao PT, grandes conglomerados de comunicação (TV, internet, rádio, jornal impresso etc.) e/ou bancos privados, eu exigiria investigação com afinco e punição aos responsáveis com o mesmo vigor que dedico contra os corruptos do PT, sem esperar que alguém me incitasse a isso?

– Eu acho errado pessoas que se dizem “contra a corrupção” tentarem minimizar casos de corrupção ou gestão incompetente protagonizados por partidos de oposição ao PT? Acho errado quando, por exemplo, um “cidadão de bem revoltado” tenta relativizar e deixar de lado a lentidão da expansão do Metrô de São Paulo apontando que “o PT também é incompetente”?

– Eu defendo mudanças estruturais na ordem política brasileira em prol do combate à corrupção, ao invés de defender medidas paliativas, duvidosas ou antidemocráticas como “impeachment para Dilma”, “tirar o PT do poder” ou “intervenção militar”?

– Eu também estou de olho nos possíveis casos de corrupção no meu estado ou meu município/cidade, mesmo que o prefeito ou o governador não seja do PT?

– Quando uma obra pública ou privada que promete “trazer progresso/desenvolvimento” é denunciada como carregada de ilegalidades (como no caso do Projeto “Novo Recife”, em Recife), eu me posiciono contra essa obra? Ou então, pelo menos, exijo que ela seja ajustada à legalidade?

– Repudio crimes cometidos pela polícia – como abuso de autoridade, racismo, tortura, homicídio qualificado, corrupção ativa ou passiva, constrangimento ilegal, falsidade ideológica etc. – ao invés de comemorá-los, relativizá-los ou ignorá-los em nome da repressão contra “os vagabundos”?

Se você respondeu “não” em uma ou mais perguntas, podemos concluir que, ao contrário do que seu discurso diz, você não deseja com sinceridade e consciência o fim da corrupção. O que você quer é apenas o cumprimento do desejo que a direita (mídia, militantes liberal-conservadores, políticos da oposição de direita a Dilma Rousseff, pastores e padres conservadores etc.) quer que você tenha: tirar o PT do poder. E esse desejo usa a corrupção não como bandeira legítima, mas sim como fachada para interesses políticos nada éticos – alguns desses interesses, é possível dizer, também corruptos.

Fica, então, o convite para você refletir sobre a profundidade da corrupção como costume político e também sociocultural no Brasil. E também para pensar sobre como a direita está, por vários meios, tentando convencer você de crenças totalmente equívocas sobre como enfrentar e abolir a corrupção dentro e fora dos prédios legislativos, judiciários e governamentais no país.

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8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

nathalie

agosto 22 2015 Responder

O tarantino eh o típico cidadão d bem revoltado, [Trecho de ataque pessoal e acusação difamatória apagado. Nenhum comentador, seja ele de esquerda ou de direita, deve ser ofendido nos comentários deste blog. RFS]

Tarantino

agosto 8 2015 Responder

Acreditem ou não, ajo corretamente não só nos quesitos citados pelo autor, mas em muito outros. Isso é natural de minha pessoa e são valores aprendidos com meus pais, e que passo para meus filhos.

Quanto ao PT, já está mais do que provado que aquele pessoal é corrupto e sem vergonha “como nunca houve na história destepaíz”. Outros partidos não ficam atrás, mas acontece que quem está no poder é o PT. Outro fosse, para mim seria a mesma coisa.

fernando farias

agosto 6 2015 Responder

As duas coisas. Ser contra o PT é ser contra a corrupção. São sinônimos. Criminosos devem ir para cadeia.

    Robson Fernando de Souza

    agosto 6 2015 Responder

    Ser contra o PT ao mesmo tempo em que negligencia a corrupção cometida por pessoas de outros partidos e por empresários, latifundiários, militares, juízes etc. é “ser contra a corrupção” também?

Zilma

agosto 5 2015 Responder

Eu penso assim, realmente sou contra a corrupção desde a sua raiz, faço a minha parte. Não estaciono em lugares proibidos, guardo meu lixo para ser depositado na lixeira, não furo fila, não suborno guarda, assumo as minhas responsabilidades não importa o quanto ela vai me custar. Mas se todos estão fazendo? Eu também posso, posso mas não quero, não faço. Não vejo a corrupção vinculada a um partido ou pessoa, vejo a corrupção em sua generalização em todos aqueles que a praticam, não importa o grau da corrupção. Se todos fizessem a sua parte, com toda certeza, teríamos um Brasil melhor, bem melhor.

Fred

agosto 4 2015 Responder

Bastante clichê o seu texto, mas verdadeiro. Boa parte das pessoas que conheço se utilizam de uma ou mais artimanhas listadas por você, mas eu, acredite ou não, não me enquadrei em nenhum item dessa lista mas tenho uma ressalva: se eu estiver precisando de uma roupa e encontrar em uma loja de shopping (não num camelódromo onde pode ser falsificada ou roubada) o que preciso por um preço extremamente barato, eu compro sim! Como não comprar se a vida não é mole pra nenhum trabalhador no Brasil? Esse item foi exagerado, até porque eu estaria comprando legitimamente e pagando meus impostos. Mas se eu souber que existe trabalho escravo por trás, é diferente, mas nem sempre tudo que é barato tem trabalho escravo por trás. Pra punição a esse tipo de crime, conto com o ministério do trabalho, ministério público, polícia, sociedade, etc.

Dimas

agosto 4 2015 Responder

Todos nós somos um pouco corruptos, a partir do momento que infringimos alguma lei ou tentamos levar vantagem sobre nosso semelhante, como quando atendemos o celular enquanto dirigimos ou tentamos furar uma fila.
No entanto, ao compararmos estas pequenas falhas que podemos ser tentados a cometer, com os casos de corrupção gigantescos que temos assistido em nosso país, fica evidente que o impacto causado por estas medidas é infinitamente superior. Se formos analisar as quantias bilionárias desviadas e o que poderiam ter produzido de bom para os cidadãos, caso tivessem sido utilizadas para sua finalidade legítimas, sem dúvida temos que ficar indignados. Mas, como afirma o texto inicial, não podemos ser ingênuos a ponto de pensar que somente os petistas são corruptos. Exemplo disto tivemos ontem, quando Paulo Maluf foi condenado a devolver 80 milhões à prefeitura de São Paulo, por desvios realizados durante seu mandato com prefeito daquela cidade.
Qual a solução para isto: educação! Mas não somente uma educação que objetive os alunos a obterem informações para passar no vestibular, mas uma educação voltada para a formação de cidadãos construtores de uma sociedade mais ética, justa e fraterna. E além da educação, a exigência do cumprimento das leis e punição severa para quem não as observar, seja ele pobre, rico, branco ou negro.

Rodolfo

agosto 4 2015 Responder

É difícil tecer um comentário para texto tão bem escrito e com tanta lucidez, no qual o autor reuniu as famigeradas discussões acerca da corrupção na política somadas às velhas contradições de nossa sociedade. Creio que a maioria (quem sabe eu mesmo) se enquadre nessa patologia psicológica, uma vez que frequentemente estamos à mercê de algum grupo e/ou pessoa mais “poderosa” que nós, a qual decide os rumos de nossas vidas, ainda que indiretamente, mesmo que não percebamos. Pode ser bobagem o que direi mas enxergo na classe média – com a licença do uso de uma generalização necessária, uma vez que implica mais a (falta de) ideologia de um grupo que aspira o camarote social que necessariamente um grupo com mesmo poder aquisitivo, apenas a frustração de realmente ver ao lado de si os “imundos” dos quais não querem ser pares, ou se foram não desejam sê-lo novamente, somada à questão de preferir ter grandes quantias roubadas diuturnamente pelo banqueiro, homem branco, de bem, cristão, hétero, pagador de impostos, a ser assaltada por um jovem negro que leve o celular, ou mesmo ao “político petralha” que está “afundando o país”. O que me leva a acreditar nisso é o fato do assunto pagamento de imposto, por exemplo. Muitos se incomodam muito mais em pagar imposto de renda e saber que muitos outros não pagam, devido à baixa renda, que saber que pagam uma alíquota muitas das vezes maior que o cara rico, muita das vezes seu próprio patrão. Mas encaramos aquele discurso camuflado: “ele é bonito, branco, tem estilo, fala bonito, não concorda com nada disso que está aí no governo, no funk ostentação, na ditadura gayzysta, portanto é homem de bem”.

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