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“Abaixo a doutrinação comunista nas escolas!”, dizem aqueles que nunca receberam uma educação não doutrinária na vida
Uma das pérolas de direita feitas por alguém que não acredita em educação não doutrinária

Uma das pérolas de direita feitas por alguém que não acredita em educação não doutrinária

Editado em 28/09/15 às 14h40

Tem sido bastante comum reacionários dizerem ser contra a “doutrinação marxista/comunista nas escolas”, como se estivesse havendo uma lavagem cerebral ideológica em massa nas escolas públicas brasileiras com a “injeção” de crenças marxistas na mente de crianças e adolescentes. O curioso é que essa acusação de “doutrinação de esquerda” vem de pessoas que nunca conheceram, ao longo de sua vida, métodos educacionais, sejam escolares ou extraescolares, que não fossem doutrinários.

Não é difícil deduzir que muitas pessoas reacionárias nunca tiveram contato com métodos educacionais que fomentassem, no âmbito das ciências humanas e sociais, o pensamento autônomo e o questionamento daquilo que os detentores de poder vivem dizendo à população. Afinal, foram submetidas a doutrinadores durante toda a vida.

Quando pequenos, eram doutrinados pela família conservadora e pelos sacerdotes idem do templo correspondente à sua denominação religiosa. “Aprenderam” no ambiente doméstico e religioso valores preconceituosos, discriminatórios, excludentes e violentos, por exemplo, sobre gênero e sexualidade.

E é pouco provável que pessoas ideologicamente socializadas no conservadorismo tenham estudado em escolas reconhecidas pela adesão a métodos muito heterodoxos de ensino de disciplinas de humanidades (como História, Geografia Humana, Sociologia e Filosofia). É prudente palpitar que elas estudaram ou em escolas tradicionalistas – como escolas declaradamente católicas ou protestantes –, ou em instituições de ensino militares, ou em colégios “modernos” que têm entre seus valores morais institucionais a meritocracia e a submissão acrítica ao mercado capitalista.

Além disso, a mídia, por meio da televisão, dos jornais, das revistas e da própria internet, influenciou-os a manter suas crenças conservadoras ao longo dos anos. E diante do tímido avanço da inclusão social e dos movimentos sociais na década de 2000, muitas dessas pessoas encontraram a reconfirmação dessas crenças – ou, mais além, a conversão do conservadorismo em reacionarismo – em sites, blogs, páginas sociais e canais de vídeo de direita ou extrema-direita como o vlog de Olavo de Carvalho e as páginas facebookianas de “revolta contra o PT”.

Nesse histórico, foram acostumadas a dividir as ideias e crenças existentes entre aquelas para aplaudir e apoiar incondicionalmente e aquelas para odiar e rejeitar irracionalmente. Raramente, ou nunca, tiveram a oportunidade de refletir sobre as crenças políticas que sua socialização lhes impusera. Afinal, não tiveram a oportunidade de aprender a usar a razão, o senso crítico e o ceticismo em temas sociopolíticos e históricos quando estiveram na escola.

Com isso, não é de surpreender que, quando se deparam com projetos pedagógicos que pretendem implantar métodos heterodoxos de ensino de ciências humanas e mesmo de outras disciplinas, como o meio-centenário método Paulo Freire de alfabetização de adultos, consideram-nos uma “doutrinação ruim”, diferente da “doutrinação boa” à qual foram submetidos por toda a vida.

Afinal, não conhecem nenhuma educação, seja ela escolar ou extraescolar, que seja baseada no fomento do livre pensamento, da busca autônoma de conhecimento, do questionamento daquilo que foi historicamente imposto como dogma, tradição e/ou “verdade absoluta”.

Para essas pessoas, só existe doutrinação. E, tal como foram “ensinadas” na igreja, o mundo se divide entre o bem e o mal, e portanto, por tabela, a educação doutrinária também pode ser dividida entre doutrinação “benigna” e doutrinação “maligna”, sem a possibilidade de existir educação e socialização não doutrinária.

Daí ocorre de tantas pessoas acreditarem que um ensino que estimule o pensamento livre e autônomo, a sede de conhecimento e o questionamento do mundo seja uma forma “negativa” de “doutrinação”, uma vez que são muito maiores as chances de um estudante contemplado por essa pedagogia questionar e duvidar daquilo que aprendeu no lar pela família, na catequese religiosa e na imprensa e aderir à esquerda política. E também é relevante relembrar que é comum, entre reacionários, a crença de que só existe esquerda socialista/comunista ditatorial.

Com essa percepção da educação que reacionários receberam ao longo da vida, questionemos-lhes. Perguntemos-lhes, quando vierem com menções depreciativas à “doutrinação comunista do MEC”, se eles ao menos acreditam que existem pedagogias não doutrinárias, e se leram em fontes confiáveis em que consiste(m) essa(s) pedagogia(s) que eles acreditam que é(são) “marxista(s)”. Afinal, eles podem não saber que existe vida fora da socialização doutrinada, e além disso defendem não que seja abolida toda e qualquer forma de ensino dogmático e autoritário nas escolas, mas sim que a suposta “doutrinação de esquerda” seja substituída pela tradicional doutrinação conservadora, religiosa e nacionalista.

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9 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Lucas

outubro 16 2015 Responder

Uma visão totalmente distorcida do mundo, o autor desse blog vive em outra dimensão.

Mauricio Avila

outubro 9 2015 Responder

Muito bom o artigo. Vejo muito os termos Gramscismo e Marxismo Cultural associados com esse suposto endoutrinamento. A abordagem é muito similar entre os conservadores norte-americanos e é usado com ferramenta política republicana na maior parte, ainda que a noção de uma constante ameaça comunista tenha sempre sido utilizada com sucesso por ambos os partidos. Interessante notar como certas noções adotadas no Brasil tem o mesmo formato norte-americano, ainda que as peculiaridades socioculturais destes países sejam diferentes em muitos aspectos. Muito bom o teu blog Robson!

    Everton Lourenço

    outubro 23 2015 Responder

    Mauricio, acredito que isso aconteça por influência direta dos lunáticos repúblicanos/tea party sobre os conservadores brasileiros. Minha primeira hipótese seria se tratar de algo relacionado com o famoso complexo-de-vira-latas tão comum no nosso país, mas acho que nesse caso tem mais a ver com o destaque que o Olavo de Carvalho possui entre os conservadores brasileiros. Me parece que ele faz essa ponte, trazendo para o público conservador brasileiro essas noções tresloucadas dos ultraconservadores anti-racionais e anti-científicos estadunidenses.

Everton Lourenço

setembro 28 2015 Responder

Robson, parabéns pelo texto, muito claro e didático. Acredito que precisa só de uma correçãozinha:

“Afinal, não conhecem nenhuma educação, seja ela escolar ou extraescolar, que não seja baseada no fomento do livre pensamento, da busca autônoma de conhecimento, do questionamento daquilo que foi historicamente imposto como dogma, tradição e/ou “verdade absoluta”

imagino que vc queria dizer “[…] que seja baseada no fomento do livre pensamento […]”

    Robson Fernando de Souza

    setembro 28 2015 Responder

    Valeu, Everton, pela apreciação e pela correção =) O texto já foi corrigido. Abs!

Fernando

setembro 28 2015 Responder

“Não é difícil deduzir que muitas pessoas reacionárias nunca tiveram contato com métodos educacionais que fomentassem, no âmbito das ciências humanas e sociais, o pensamento autônomo e o questionamento daquilo que os detentores de poder vivem dizendo à população. Afinal, foram submetidas a doutrinadores durante toda a vida.”

Se trocar reacionárias por esquerdistas a frase cabe direitinho. De ambos os lados eu sempre ouço apelos chorosos de “o estado tem que fazer isso”, “o estado tem que reprimir aquilo”. Aliás, ouço muito mais esse tipo de coisa do lado canhoto da força.

Ou vai saber né, talvez os detentores de poder odeiem a possibilidade de amealhar mais poder, e por isso tenham dado total espaço a essa “educação libertadora” de viés estatista nas federais.

Newton

setembro 27 2015 Responder

Creio que a função da escola não seja doutrinar. Mas já que supostamente doutrinam, me pergunto, citando um trecho de seu artigo:

“Não é difícil deduzir que muitas pessoas reacionárias nunca tiveram contato com métodos educacionais que fomentassem, no âmbito das ciências humanas e sociais, o pensamento autônomo e o questionamento daquilo que os detentores de poder vivem dizendo à população. Afinal, foram submetidas a doutrinadores durante toda a vida.”

Usando-se esta lógica, então seria correto que nas escolas se aplicassem doutrinações direitistas, já que no momento atual, os detentores do poder são da esquerda?

Grato

    Robson Fernando de Souza

    setembro 27 2015 Responder

    “já que no momento atual, os detentores do poder são da esquerda?”

    Ou seja,
    – o PT que privatiza, corta gastos sociais, tem ministros neoliberais e ruralistas, se alia com bancadas reacionárias, cede ministérios ao PMDB;
    – o PMDB, partido que governa “de facto” o Brasil e tem Eduardo Cunha como um de seus representantes mais poderosos no momento
    – o capital financeiro, que tem mandado e desmandado no que o governo Dilma “deve” fazer em se tratando de política econômica
    – os grandes empresários, latifundiários e teocratas, que também têm controlado bem-sucedidamente o que o mesmo governo “deve” fazer
    são todos de esquerda.

    Parabéns pela genial conclusão. -sqn

      Newton

      setembro 28 2015 Responder

      Exato, a realidade não encontra eco na lógica…

      PT, partido que se diz de esquerda ideologicamente, mas na prática segue o mandamento “faça o que digo, mas não faça o que faço”

      Demais partidos que se dizem de direita, mas não agem de nenhuma maneira ideologicamente definida.

      Por isso, doutrinações, seja lá de que lado sejam, nunca são bem vindas. A escola deve se preocupar em promover a cultura e o pensamento crítico. E isso, vai contra os interesses de qualquer partido.

      Quanto à Dilma…ela é uma piada, vendeu a alma a Deus e ao Diabo e não entregou a nenhum deles.

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