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set15

“Decidam e façam a História por nós, estamos implorando”: quando a esquerda consegue ser menos cidadã que a direita
Nem 16 nem 20 de agosto. A esquerda não governista, porém, não conseguiu fazer um terceiro dia de protestos.

Nem 16 nem 20 de agosto. A esquerda não governista, porém, não conseguiu fazer um terceiro dia de protestos.

Editado em 18/09/15 às 16:01, com adição, ao título, do aspecto suplicante da “pressão” que a esquerda atual tenta exercer nos detentores de poder político.

Desde a confirmação do estelionato eleitoral cometido por Dilma Rousseff, em novembro de 2014, a maior parte da esquerda brasileira (não inclui governistas pró-Dilma/pró-PT) tem permanecido num estado de letargia. Parou de ir às ruas, exceto em poucas e localizadas ocasiões, e tem se restringido a participar de palestras e bufar de raiva nas redes sociais a cada manobra do deputado Eduardo Cunha e a cada concessão dada à direita pelo governo Dilma. Chegamos ao inacreditável ponto da História do Brasil no qual a esquerda está conseguindo ser menos cidadã, em termos de luta política, do que a direita.

A saber, quando falo de cidadania neste artigo, me refiro a ela como o usufruto de direitos e liberdades civis e políticas e cumprimento dos deveres justos por parte dos cidadãos. E dentre esses direitos, liberdades e deveres, destaco aqui a participação política democrática, por meios que transcendem o mero ato de ir a uma urna em dia de eleições e votar em candidatos – como a elaboração e assinatura em massa de abaixo-assinados, o exercício de pressão sobre os políticos representantes e as manifestações de rua, entre outros métodos.

No panorama político deste ano de 2015, a direita conservadora tem conseguido não só o apoio de parte da população para votar propostas como a redução da maioridade penal e a constitucionalização do financiamento empresarial de campanhas eleitorais. Também tem colocado sete dígitos de manifestantes nas ruas de muitas cidades brasileiras para pedir pelo impeachment ou pela renúncia de Dilma. A população de direita tem efervescido no usufruto de sua cidadania, no que concerne a aproveitar seus direitos políticos e influenciar soberanamente as decisões no país. Isso sem falar nos esforços de criar e fundar partidos de direita, como o Novo e o Partido Militar Brasileiro.

Do outro lado, a esquerda tem padecido com constantes brigas internas, algumas delas bastante fratricidas. Sua atuação política tem se restringido a manifestações de indignação no Facebook, Twitter, WhatsApp e outras redes sociais, artigos de opinião em blogs (apontamentos de dedos para o Consciencia.blog.br são esperados por mim por eu ter dito isso) e páginas sociais, bufas de raiva em massa a cada passo de avanço do conservadorismo no Congresso e no governo federal, demonstrações de muito medo diante da possibilidade da presidenta ter seu mandato cassado… e bem poucos protestos nas ruas.

Ao contrário do que as correntes mais libertárias da esquerda defendem, o que se tem visto é que a maioria das pessoas de esquerda têm-se alienado da prerrogativa de fazer elas mesmas a História fluir e dado o poder de ditá-la aos detentores de poder político – os representantes dos três poderes. Essa atitude eu considerei, num artigo sobre a antipolitização promovida pelo reacionarismo no Brasil, uma característica dos autodeclarados conservadores. Mas a esquerda, em sua presente impotência, tem feito isso de maneira muito mais notável do que a própria direita rotulada de “coxinha”.

Isso não deixou, vale ressaltar, de ser algo comum na direita brasileira. Centenas de milhares de direitistas têm saído às ruas, convocados ou não por líderes e pretendentes a líderes, mas não para fazerem eles mesmos diretamente a roda da História do Brasil girar – leia-se colocar nas mãos do povo o poder de decidir os rumos da política, aprofundando a democracia vigente no país. E sim para exigir que os poderes Legislativo e Judiciário – e, no caso dos mais fascistas, as Forças Armadas – mexam a roda em seu nome e expulsem Dilma e o PT do poder.

Porém, a esquerda, historicamente adepta do “façamos nós mesmos a História acontecer”, decaiu a ponto de estar numa situação de exercício da cidadania política ainda pior do que a direita. Enquanto a direita exige com vigor que o Congresso e o Judiciário “mudem” a política (mesmo que por meios paliativos e recheados de interesses privados), a esquerda tem implorado, pedido “por favor, eu lhes suplico!”, para que os mesmos poderes Legislativo e Judiciário decidam a favor de Dilma e do que ainda resta de esquerda no país.

Isso pôde ser visto no caso das votações da redução da maioridade penal e do financiamento empresarial de campanhas eleitorais na Câmara Federal. As pessoas da esquerda não conseguiram exigir vigorosamente que ambas fossem rejeitadas. O que conseguiam fazer é pedir, com medo e vergonha, que o Congresso, mesmo dominado e hegemonizado pelo conservadorismo, considerasse-lhes os pedidos suplicantes e votasse majoritariamente contra esses retrocessos.

O que, obviamente, não deu certo. A primeira votação de cada questão derrotaria as propostas, mas Eduardo Cunha faria manobras juridicamente controversas e conseguiria reverter o placar, fazendo com que a Câmara aprovasse ambas as propostas. A princípio, nas ilusórias vitórias iniciais, a esquerda comemorou radiantemente – e precipitadamente, é muito necessário ressaltar. Mas as viradas impostas por Cunha frustraram-na e fizeram muita gente nas redes sociais bufar de raiva e de ódio contra o presidente da Câmara – mas não conseguir transformar essa indignação em energia cidadã.

Tem-se observado a falta de vigor nas demandas da esquerda para que os retrocessos defendidos pelos deputados e senadores conservadores sejam rejeitados em plenário ou nas comissões que analisam os projetos de lei e de emenda constitucional. A pressão sociopolítica dá lugar às temerosas súplicas.

A direita, por outro lado, tem conseguido manter Dilma fortemente acuada, dar prosseguimento à “campanha” de derrubada do mandato dela, botar milhares de pessoas nas ruas, obter vitórias importantes no Congresso e forçar o governo petista a continuar governando de maneira neoliberal, conservadora e antipopular. É inegável, e óbvio até, que a direita hoje tem muito mais poder e energia cidadã – mesmo sendo em parte contra aquilo que constitui a cidadania no Brasil contemporâneo – do que a paralisada, amedrontada e internamente atormentada esquerda.

O placar político hoje está, assim, fortemente favorável à direita. E a esquerda, se continuar do jeito que hoje está, não vai mais conseguir virar o jogo. Levando isso em consideração, teorizo que as chances de uma virada de esquerda só começarão a renascer quando se declarar o rompimento total com o PT e muitas das divergências internas forem resolvidas ou deixadas de lado em nome das bandeiras maiores.

E ela só voltará a realmente ter força quando parar de implorar para que os três poderes girem a roda da História em nome dos progressistas, retornar à clássica postura de mostrar força nas ruas e converter os pedidos trêmulos em vozeirões poderosos e exigentes. Ou então, idealisticamente falando, tomar a roda dos atuais detentores de poder e transferi-la para a soberania popular.

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2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Nathalie

setembro 19 2015 Responder

os ideais de esquerda são distorcidos em todos os lugares, a começar pelas escolas, q ensinam q o capitalismo é sinonimo de liberdade. as pessoas são criadas para temerem a esquerda, como se ela fosse lhes furtar a dita liberdade, o q é agravado com as inserções da mídia televisiva. são divulgados supostos casos d corrupção, incluindo ladainha da petrobrás, todos os dias, sem mostrar o q empresas estão roubando na amazonia, por exemplo. a esquerda sofre ataques constantes de todo lado, o q, no meu ponto d ver, está aniquilando as forças dos seus movimentos.

Bruno

setembro 18 2015 Responder

É isso aí, uma direita brasileira que pode ter tudo, menos ética, hoje, é mais cidadã do que a esquerda brasileira simplesmente porque esta última não está agindo muito bem nos últimos meses.

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