04

set15

A tragédia humanitária dos refugiados é mais um indício da falência das ideologias sustentadoras da civilização moderna

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Pessoas do mundo inteiro se chocaram com a foto do bebê sírio, filho de refugiados, que havia sido encontrado morto numa praia da Turquia. A imagem é a enésima amostra, obtida em mais de 150 anos de imperialismo europeu e estadunidense, de que o modelo civilizacional centrado no capitalismo e na modernidade é um modelo falido de civilização, tanto quanto os impérios desmoronados do passado.

Falava-se muito, nos meios intelectuais do século 19 e do começo do 20, que a modernidade traria “progresso”, “redenção” e “libertação” para a humanidade, por meio da aplicação prática de ideologias e sistemas como o capitalismo, o industrialismo, o liberalismo, o positivismo, a globalização e as vertentes centralistas e autoritárias de socialismo. O século 20 provaria, das maneiras mais dolorosas possíveis, que essa esperança se tornaria um fracasso.

Duas guerras mundiais e incontáveis conflitos e massacres localizados, assim como a constante tensão da Guerra Fria, mostraram que a civilização moderna apregoada por essas ideologias não trouxe a redenção para ninguém. Nem universalizou direitos, nem trouxe para o mundo o império da liberdade e da dignidade humana.

Trouxe, ao invés, um bem-estar como privilégio uma pequena parcela da humanidade. Enquanto algumas centenas de milhões de seres humanos desfrutam de direitos que deveriam ser universais, vários bilhões permanecem castigados pela fome, pela exploração, pela miséria e pelos flagelos trazidos pelo uso coletivo e intensivo de armas. Isso sem falar que as ideologias mencionadas não combateram o machismo que afunda as mulheres, correspondentes a metade da população humana, numa situação de menos direitos – às vezes muito menos – e mais miséria do que os homens.

Vale dizer aqui que os próprios Estados dos quais se esperava a consagração democrática da dignidade humana têm sido cúmplices cruéis de tudo o que tem ocorrido de ruim em regiões como o Oriente Médio, a África Subsaariana, a América Latina e o Sul-Sudeste Asiático.

A indústria bélica, o narcotráfico, a mineração adepta de expedientes criminosos, a destruição ambiental, os latifúndios, a extração predatória de petróleo, a corrupção política e a ditatura em dezenas de países, exércitos paramilitares (muitos deles terroristas segundo os critérios dos próprios países “desenvolvidos”)… Tudo isso tem sido financiado pelos Estados do chamado “Norte desenvolvido” e alguns dos países emergentes – incluído o próprio Brasil, a saber, exportador e importador de armas.

E daí temos a infelicidade de nos cruzar com cenas como a do menininho sírio morto na praia. Essa imagem, por sua vez, é uma pequena amostra de toda a desgraça que tem acometido a população da Síria e de outros países do Oriente Médio. O Estado Islâmico, sendo o exemplo mais conhecido dentre essa situação de caos, teve e tem tido sua existência viabilizada, auxiliada, permitida e tolerada pelo mesmo “Norte desenvolvido”, enquanto tortura e assassina milhares de seres humanos e destrói patrimônios históricos da humanidade irreconstruíveis.

Esse quadro histórico de miséria humana faz o mundo refletir sobre o fracasso das ideologias de progresso e redenção oitocentistas, e perceber como aqueles que deveriam ter se esforçado pelo sucesso das mesmas são na verdade os maiores responsáveis por esse fiasco. Se isso não for questionado a tempo como deve ser, a tendência é que a situação continue péssima para bilhões de seres humanos, que nunca foram verdadeiramente beneficiados pelos defensores dessas ideologias.

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6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

haroldo

setembro 7 2015 Responder

Robson, eu ouvi falar de um professor que o Brasil tem capacidade de comportar 300milhões de habitantes, eu gostaria de saber baseado na sua opinião se isso é verdade

Tarantino

setembro 7 2015 Responder

Pois é…errar é humano, e colocar a culpa nos outros é mais humano ainda, não?

Maurício Carvalho

setembro 5 2015 Responder

Quanta bobagem! A ideologia do progresso é parte do humanismo secular iluminista e tem sido de longe a mais bem sucedida ideologia de todos os tempos, e continua hoje elevando o padrão de vida e diminuindo a violência e pobreza no mundo inteiro.

Nunca antes foi tão improvável um ser humano morrer por ato violento quanto hoje.

    Natalie

    setembro 5 2015 Responder

    O colega acima mora sozinho num foguete espacial, em órbita, la não haver mta violência mesmo

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