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Falácia egocêntrica: reconhecê-la pode melhorar sua forma de lidar com as pessoas e o mundo

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Aviso de conteúdo traumático: há menções a bullying, relacionamentos terminados e preconceito sofrido por minorias políticas, como o racismo e a acusação de “vitimismo”.

Apesar de não constar, até o momento, em listas acadêmicas de falácias, a falácia que este texto descreve é extremamente comum. Trata-se da falácia egocêntrica, uma maneira errônea de o indivíduo perceber o mundo usando a si mesmo como uma lente, sem perceber que essa lente é distorcida e descamba em tendenciosidade, para enxergar a humanidade.

Ela consiste numa linha de raciocínio cuja premissa é: “Eu tenho a característica X” e a conclusão é: “Portanto, todo ser humano ou a maioria dos seres humanos possui a característica X, ou é impensável como alguém pode não a possuir”. É usar a si mesmo como se fosse o modelo padrão de ser humano, a referência central de indivíduo humano na qual todos os demais seres humanos se baseiam ou deveriam se basear para existir, pensar e agir. Isso acontece mesmo quando a maioria das pessoas é muito diferente, em determinadas características, da pessoa que utiliza a falácia egocêntrica.

Como exemplos dessa falácia, tem-se argumentos como esses:

– “Como é que esses jovens sofrem tanto emocionalmente com bullying? Eu sofri bullying na infância mas mesmo assim não carrego traumas da época.”

– “Eu morava na favela e estudava com livros encontrados no lixo, daí, com muito esforço, me tornei professora universitária de alta titulação. Isso significa que, por mais que a pessoa viva na miséria, basta ela querer para conseguir realizar seus sonhos.”

– “Não sei como a maioria dos negros se queixam tanto do racismo que sofrem. Eu (branco) já fui chamado de ‘palmito’ e ‘leite azedo’ por colegas negros, mas nunca sofri com isso.”

– “Não entendo como as minorias políticas são tão vitimistas. Eu (homem branco heterossexual cisgênero) também tive muitos sofrimentos e algumas privações ao longo da minha vida, mas nem por isso me faço de vítima diante das injustiças da sociedade.”

– “Eu aprendi a gostar de ler sozinho graças à minha escola, que exigia a leitura de livros de prosa brasileira sob pena de nota zero em Literatura. Portanto, a obrigatoriedade que a escola institui para os alunos é uma maneira excelente de fazê-los aprender a ter gosto pela leitura.”

– “Eu nunca chorei por causa de términos de relacionamentos, por isso eu acho que pessoas que sofrem por causa de namoros fracassados são emocionalmente fracas.”

– “Sou muito feliz e abençoado sendo evangélico. Portanto, eu acho que todos os seres humanos deveriam ser evangelizados e convertidos à minha denominação pentecostal.”

– “Vivo uma vida muito bacana no meu apartamento de classe média, trabalho com satisfação como técnico-administrativo de um órgão público, adoro a vida urbana das grandes cidades e sou quase viciado na compra e consumo de aparelhos de informática e telecomunicações. Isso me faz perceber como é óbvio que todo mundo que venha a ter uma vida semelhante à minha vá ser feliz também.”

– “Sou feliz sendo ‘carnívoro’ assumido e churrasqueiro assíduo. Tenho pena dos vegans e vegetarianos, já que, uma vez que eu sei como ‘carne é vida’, ‘vejo’ como eles vivem infelizes por não consumirem alimentos de origem animal.”

Uma pessoa que usa de falácia egocêntrica para tentar descrever ou ditar o comportamento alheio não percebe que está negando as diferenças entre os seres humanos e as peculiaridades de cada indivíduo. Esse sofisma nos impede de reconhecê-las e limita nossa capacidade de respeitar as diferenças. E nos prende, metaforicamente falando, numa bolha de crenças que nos impede de ter um contato mais empático, humanitário e compreensivo com outras pessoas, ainda mais com aquelas que são bastante diferentes de nós em características intrínsecas, crenças e comportamentos.

A partir do momento em que reconhecemos a argumentação autocentrada como falaciosa e, portanto, inválida, conseguimos melhor nos sentir na pele de outrem, entender as dificuldades e sofrimentos pelos quais a outra pessoa passa em sua vida e, em muitos casos, ajudá-la a superá-los. E, uma vez que nos tira do pedestal imaginário de “padrão universal e/ou ideal de ser humano”, nos faz mais humildes e entendedores das injustiças do mundo.

Ao admitirmos que muitas de nossas crenças são baseadas na falácia egocêntrica, temos a oportunidade de revê-las e, com isso, reformar e amadurecer nossa postura de encarar o mundo e interagir com outras pessoas. Temos tudo a ganhar e nada de bom a perder quando essa percepção nos induz a uma transformação de ideias e atitudes. Portanto, pense quais crenças e ideias são realimentadas por uma visão de mundo autocentrada, e repense-as em seguida, se quer ter uma vida mais feliz.

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2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

haroldo

outubro 24 2015 Responder

Robson, é meio off topic: uma vez eu ouvi falar que os cientistas inventaram um hamburger de carne sintetica, sera que isso pode ser o futuro dos homens evitarem de abater muitos animais?

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