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Quer rir um pouco do atual estado de coisas da política brasileira? Assista ao programa partidário do PSDB

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Que o estado de coisas atual na política brasileira é vomitoso, isso todo mundo já sabe, da esquerda mais revolucionária à direita mais fanática. Mas de vez em quando, apesar de situação tão desesperançosa, ainda é possível espremer suco de uva da pedra e dar boas risadas em alguns momentos do cenário político. O talvez melhor exemplo atual é o programa partidário do PSDB, que foi veiculado na TV aberta no final de setembro e pode ser visto novamente no YouTube.

O programa do partido ex-socialdemocrata, de tão risível, é engraçado – exceto a parte machista em que é reforçado o “papel da mulher durante a crise” como dona-de-casa. Ficamos diante de discursos extremamente hipócritas e contraditórios, típicos de quem nunca tomou um “semancol” na vida, e da assunção desavergonhada, mas sutil, do partido de ser tão interessado no “poder pelo poder” quanto o PT que tanto vive criticando.

 

A hipocrisia do “quarteto nada fantástico”

As “melhores” partes são os discursos do quarteto nada fantástico Alckmin, Serra, FHC e Aécio. É possível rir alto ao ouvir e/ou ver, por exemplo:

– Alckmin falando de o Brasil não poder ficar “parado por mais três anos”, enquanto na Grande São Paulo obras do metrô e do trem suburbano estão atrasadas e lentas – ou mesmo paradas – e têm seus custos inflados a cada ano, o Rodoanel Norte também está com as obras congeladas e outros projetos intermunicipais de mobilidade penam para sair do papel. Isso sem falar da evasão de indústrias do estado, por causa da crise hídrica;
– Serra dizendo que “em toda [sua] vida pública, nunca [viu] o Brasil numa situação tão difícil como essa”, apagando de sua memória sua época de ministro de FHC, quando testemunhou uma crise econômica ainda mais severa do que o status atual da economia brasileira;
– o mesmo Serra reclamando de “juros até as nuvens”, esquecendo da época do governo do qual foi ministro, quando os juros chegaram ao triplo do atual nível;
– FHC falando no “inferno da crise e do desemprego”, sem o mínimo de autocrítica para com o seu passado presidencial;
– a moça do programa partidário mencionando a “mistura de mentira, corrupção, desorientação, incompetência e mau uso do dinheiro público”, entregando pedras para as catapultas dos adversários do PSDB jogarem no governo paulista de Alckmin e no passado governamental e ministerial de FHC, Serra e Aécio;
– Aécio falando de “crise política e moral”, como se não tivesse sido coprotagonista de uma das campanhas eleitorais de mais baixo nível desde a redemocratização e não estivesse inflamando ainda mais os ânimos dos “indignados” seletivos em torno do desejo de que Dilma sofra um impeachment, mesmo sem nenhuma prova formal até o momento, por suposto envolvimento em crimes no atual mandato – e no anterior;
– Ele também falando da “realidade escondida dos brasileiros”, escondendo que, em sua época de governador de Minas Gerais, as críticas ao seu governo eram censuradas na mídia local.

Isso sem falar do brado escrito “Xô, mentira! Xô, corrupção!”, vindo de um partido em que parte do elenco é frequentemente denunciada nos âmbitos federal e estadual – com destaque para escândalos em São Paulo e Minas Gerais, como o Mensalão Tucano e o “cartel” paulista do Metrô e da CPTM – mas é protegida pela impunidade garantida pela imprensa nacional.

Isso sem falar no costumeiro negacionismo de gente como Geraldo Alckmin, que negou mentirosamente a crise da água no estado de São Paulo e a greve dos professores estaduais do ensino básico.

 

O machismo institucional do partido corta a graça do programa

À primeira declaração de Aécio, porém, sucede uma parte nada engraçada. O PSDB reforça, do alto de seu machismo institucional, que enxerga a mulher como sendo “destinada” a ter como papel social principal, senão único, o de mãe e dona-de-casa, e como papel econômico exclusivo o de gerenciadora do orçamento doméstico residencial.

Segundo o programa, a crise econômica “acabou dando à mulher um papel ainda mais importante dentro da família”, afirmação seguida de exemplos de donas-de-casa e mães que foram obrigadas a readequar o orçamento doméstico de seus lares e a alimentação de seus filhos.

Em nenhum momento o programa mostra as mulheres, mesmo as entrevistadas, como adeptas de trabalhos formais ou informais remunerados e não domésticos. Tampouco se preocupa em descrever como tem sido a realidade delas nesses trabalhos fora de casa – se estão com menos clientes, se foram demitidas, se migraram para o trabalho informal, se pensam em fechar a microempresa que administram, se estão se sentindo obrigadas a contrair empréstimos para salvar o negócio etc. O único papel que lhes é reconhecido pelo partido é o de donas-de-casa com lar para cuidar, comida para comprar e filhos para criar.

 

O PSDB assume que não tem propostas nem projeto de país

Depois da lamentável parte machista, o programa tucano volta a causar risadas, por meio da fala de Aécio. O “ex-quase presidente” pergunta retoricamente “qual é a solução” e diz ser necessário “pensar como sair dessa situação”, “olhar para frente para consertar” e “pensar em quem tá sofrendo com essa crise”. Diz que “nós (do PSDB) não vamos virar as costas para as dificuldades que o Brasil e você está (sic) atravessando”.

Como as “grandiosas” medidas que o PSDB pretende supostamente tomar “pelo bem do Brasil”, ele se restringe a dizer que os parlamentares do partido votarão contra medidas que sufoquem ainda mais a população, como a volta da CPMF, e a favor daquelas que a desonerem, como a redução de impostos sobre a folha de pagamento das empresas para evitar demissões.

Nada de propositivo é dito. Nenhum projeto de lei de autoria tucana que eventualmente esteja em trâmite ou que algum parlamentar esteja criando é mencionado. Nenhuma sugestão de atalhos para o governo Dilma superar a crise econômica e política é dada.

Sem querer, ele revela que o partido não tem propostas, tampouco projeto de país. O PSDB, apesar de toda a sua sanha de poder – que inclusive está por trás do enorme desejo de Aécio de ver Dilma ser “impichada” – e do persistente inconformismo pela derrota do senador mineiro no ano passado, mostra-se como um partido que não pretende pôr em prática um projeto alternativo de país. Nem mesmo como partido conservador, ou liberal-econômico, o partido tenta se mostrar.

Os membros da agremiação ex-socialdemocrata tanto reclamam que o PT pretende se manter no poder “a qualquer custo”. Mas não conseguem esconder a nada inferior sede de “poder pelo poder” por parte de Aécio, Serra, Alckmin e do partido em si.

Outro ponto muito importante que o PSDB escancara mesmo a contragosto é que não tem aplicado projetos bem-sucedidos de governo nos estados que administra ou administrou – com nomes como Alckmin, Serra, Aécio, Anastasia e Beto Richa. Não consegue expor na vitrine seus atuais ou antigos governos estaduais como modelos de gerenciamento resistente a crises, de resolução democrática e justa de problemas internos, de desenvolvimento socioeconômico sustentável, de boa e eficiente gestão do dinheiro público.

Mesmo Alckmin, apesar de ser o governador do estado mais rico do país e único do quarteto do guia partidário atualmente com um mandato de chefe executivo, apareceu apenas brevemente, dotado de um discurso curto, vago e sem sustância. Não veio ao programa para mostrar o estado de São Paulo como, digamos, um bastião de resistência à crise “econômica, política e moral” mencionada por seu colega.

Isso nos remete a outra característica de forte relevância: o partido não mostra aprender com seus erros passados. Se o Brasil está tendo problemas sérios com um PT avesso à virtude da autocrítica, o PSDB mostra que não é nada diferente do seu adversário.

FHC veio reclamar da crise e do desemprego, mas não trouxe nenhuma reflexão e autoavaliação sobre a experiência que ele, como ex-presidente, e o seu partido tiveram entre 1995 e 2002. Alckmin fala de “Brasil parado”, mas não traz nenhuma lição, a partir dos vinte anos de tucanato no estado de São Paulo, sobre como solucionar problemas internos e fazer a economia do país engrenar de maneira justa, ecoamigável e benéfica a todos. Aécio tanto vocifera contra a crise moral da política federal, mas não mostra a si mesmo como alguém que, em oito anos de governo mineiro, tenha revisto e superado antigos erros e aprendido como aplicar federalmente eventuais bons exemplos estaduais de governança.

 

O apelo demagógico e tiro-no-pé aos panelaços

Seria absurdo fechar este artigo sem uma menção honrosa à exploração dos panelaços. O PSDB tenta figurar como o partido que “ouve a indignação da população”, ao encenar um fictício protesto bate-panela de rua e, na parte final do guia partidário, recitar a parte final do hino nacional brasileiro.

A produção do programa não percebe que a exaltação do panelaço reflete que o partido escolheu um público-alvo restrito para “conscientizar” sobre a crise econômica e política no Brasil: os “indignados” seletivos, vulgo “coxinhas”, que creem que o único elemento responsável pelo que há de errado no Brasil atual é o PT, e mais nenhum outro partido.

Não notaram que figurar o panelaço como “símbolo” de protesto cidadão é exaltar a atenção seletiva a casos de corrupção, a obediência pia a comandos de líderes igualmente seletivos (como os Revoltados Online e o Movimento “Brasil Livre”) e a submissão da democracia e da reivindicação política cidadã aos interesses privados de quem quer o PT fora do poder por motivos que nada têm a ver com a prevalência da ética e transparência políticas e dos valores democráticos.

Isso coloca o PSDB como legitimador dessa seletividade e da transformação da política em meio de usar o público para beneficiar o interesse particular. E, como foi mostrado sobre o “poder pelo poder”, ressalta que o que o partido e seus altos membros pretendem é usar, manipular e exaltar passionalmente a opinião pública para promover um projeto tucano de subir ao poder e manter-se nele para meramente desfrutar dos benefícios privados de possuí-lo. Não tem nada a ver com propor, trazer e aplicar soluções para a instabilidade econômica, social e política do país; promover a prosperidade, a sustentabilidade e a justiça social e aprofundar a democracia e os direitos do povo.

O partido, nesse programa partidário, mostra-se como uma negação, em termos de negar seu passado e seu envolvimento na crise moral e política do momento, apresentar zero proposta e zero projeto de país e não ser nenhuma solução para o Brasil. Seus únicos impactos foram renovar o autoengano dos “indignados” seletivos, que creem piamente que o PT é “a raiz de todo o mal”, e fazer rir aquelas pessoas que possuem senso crítico em se tratando de política. Por isso, fora a parte machista que restringe o papel socioeconômico da mulher ao gerenciamento do lar, o programa pôde via TV e ainda pode fazer, por meio do YouTube, muitas pessoas rirem – mesmo que seja para não chorarem.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Newton

outubro 4 2015 Responder

A política brasileira não tem mais salvação.

Desejaria ser presidente da república por um dia: colocaria todos em um navio, mandaria pro meio do oceano e mandaria um torpedo bem no meio.

O mau caratismo está no DNA do brasileiro, todos criticam os políticos, mas não cuidam de seu próprio comportamento; o troco dado a mais que não é devolvido, o celular achado que tem logo o seu chip retirado, o suborno oferecido aos policiais…com um povinho desses, esperar o quê da política?

Cada país tem o (des)governo que merece.

    Nathalie

    outubro 11 2015 Responder

    Nossa, como vc conseguiu ter uma proposta de governo á presidência da república tão elaborada?? “Desejaria ser presidente da república por um dia: colocaria todos em um navio, mandaria pro meio do oceano e mandaria um torpedo bem no meio” Quero saber em q escola vc estudou pra eu nunca matricular meu filho nela.

      Newton

      outubro 12 2015 Responder

      A escola da vida lhe ensina até o que você não quer aprender, menina.

      Mas não se preocupe com meu discurso violento; todos os dias os governantes fazem muito pior com sua pessoa e você nem percebe. E às vezes até aplaude.

      Newton

      outubro 12 2015 Responder

      Ah, e só pra esclarecer, quando disse “todos” referia-me aos políticos. Fique calma que nem você e nem seu filho estão inclusos nisso. Todos já estamos numa canoa furada.

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