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A razão de existir da espetacularização do sofrimento de quem perdeu o Enem por chegar atrasado
Notícias sobre atrasados no ENEM multiplicam-se na internet, todos os anos

Notícias sobre atrasados no ENEM multiplicam-se na internet, todos os anos

Aviso de conteúdo traumático: contém referências ao estupro

Todo ano um fenômeno bizarro, promovido pela mídia e por indivíduos de pouca empatia, marcado pela baixaria e pela falta de ética e de compaixão, acontece nos dias do Exame Nacional do Ensino Médio. Trata-se da espetacularização e até comicização do sofrimento de milhares de pessoas que, na maioria das vezes por infelizes injustiças do acaso, muitas vezes dotadas de um contexto de discriminação e exclusão social, são barradas de fazer a prova por causa de poucos minutos ou mesmo segundos de atraso após o fechamento dos portões dos locais de prova.

Já é lugar comum que a maioria dos grandes portais da imprensa e também sites locais e regionais de notícias transformem em “show de entretenimento” o desespero de quem encontrou as portas do futuro literalmente fechadas diante de si. Fazem algo parecido com as conhecidas “videocassetadas”: transformar a dor física ou emocional alheia em motivo de diversão, de riso, de pensamentos desalmados do tipo “Eu acho é bom!” ou “Bem feito, quem manda ser irresponsável?”.

Acabaram sendo destaque também algumas pessoas que foram ao cúmulo de chegar e sentar perto dos portões dos locais de prova, com direito a levar latas de cerveja para consumo próprio, só para assistir à miséria alheia e caçoar do desespero de quem se atrasou. A mídia abordou isso de maneira aparentemente “imparcial”, mas ficou evidente que, entre essas pessoas carentes de empatia e os noticiários, ficou subentendido um clima de “tamo junto”, já que compartilhavam o prazer sadista de converter o sofrimento de outrem em “atração cultural”.

Algumas pessoas levam ao extremo o prazer sadista de curtir o sofrimento alheio e vão para perto dos portões de locais de prova para assistir, com prazer e sem um mínimo de empatia, a pessoas sofrendo desesperadas

Algumas pessoas levam ao extremo o prazer sadista de curtir o sofrimento alheio e vão para perto dos portões de locais de prova para assistir, com prazer e sem um mínimo de empatia, a pessoas sofrendo desesperadas

Por outro lado, o que se viu entre a opinião pública foi uma prevalência dos que gostaram de ver o que viram nas tais notícias – e até mesmo curtiram e acharam “criativos” os “engraçadinhos” que foram assistir à dor dos atrasados. Houve muitas pessoas que desaprovaram com veemência e defenderam que a postura da imprensa e dos “espectadores ao vivo” foi de fato absurda e antiética, mas atualmente, pelo que se pode deduzir, ainda são minoria.

Esse “show” de horrores – nos múltiplos sentidos da expressão –, incluindo também sua receptividade positiva entre tantas pessoas, nos mostra que paira na sociedade uma tradição de alarmante desvalorização da empatia, uma moral brigadamente divorciada da ética. A maioria das pessoas não se compadece do sofrimento da outra ou do outro – pelo contrário, ri da dor dela(e) e, muitas vezes, a(o) julga como “culpada(o)” pela própria desgraça.

Essa “moral imoral” de comicizar a dor alheia e julgar quem sofre reflete a crença de muita gente de que a sociedade brasileira é ou deveria ser estritamente meritocrática. Ou seja, pune ou deveria punir com severidade os “perdedores”, mesmo que o motivo da derrota destes seja uma injustiça advinda das desigualdades sociais e discriminações que aflige a maioria da população do país.

Afinal, segundo dizem os ideólogos da meritocracia capitalista, as quedas do indivíduo são culpa dele mesmo, por “não ter se esforçado”, por não ter feito um rigoroso planejamento de sua carreira escolar-acadêmica e empregatícia, por ser “preguiçoso”, por “não ser disciplinado”, entre outros pretextos que ignoram completamente o contexto social no qual a vida de cada pessoa está inserida.

Nessa lógica, mesmo o confeiteiro que chegou atrasado porque o patrão não o havia liberado do trabalho a tempo é o “culpado” por seu próprio infortúnio, portanto é um “perdedor” e “deve” ser escrachado pelo julgamento público. E, também, aquelas pessoas mais pobres que, não contando com o carro dos pais, moram longe do local da prova e tiveram que pegar dois ou três ônibus para tentar chegar a tempo, ou cujo patrão não deixou que saíssem do expediente a tempo, são penalizadas por esse julgamento, o que escancara o elitismo odiento dos julgadores.

No fundo, imprensa e sadistas curtidores do sofrimento dos atrasados estão em clima de "Tamo junto", na tradição antiética de transformar a dor alheia em "atração cultural"

No fundo, imprensa e sadistas curtidores do sofrimento dos atrasados estão em clima de “Tamo junto”, na tradição antiética de transformar a dor alheia em “atração cultural”

Outro tentáculo dessa mesma “moral imoral” é a cultura do machismo. É aquela que consiste em culpar as mulheres, com os mais absurdos pretextos, pelas violências que elas sofrem – por exemplo, culpando vítimas de estupro porque “não se davam ao respeito”, ou “usavam roupas curtas demais”, ou “estavam bêbadas”, ou “não estavam acompanhadas de seus maridos ou namorados” etc.

De forma ainda mais severa e criminosa, o machismo amplifica contra mulheres vítimas das mais diversas violências a lógica do “júri opressor” imposto contra quem encontrou os portões fechados no vestibular. Julga, condena, ostraciza, maltrata, humilha.

Essa moral julgadora e estigmatizadora precisa ser enfrentada. Precisamos deixar claro que essa falta de empatia e de ética anda de mãos dadas com ideologias opressoras, como a meritocracia, o machismo e o conservadorismo egoísta, se não é diretamente derivada delas. Da mesma maneira, comentemos, em cada notícia que trata como “show de entretenimento” o sofrimento de quem perdeu a prova, como a imprensa viola a cidadania e os Direitos Humanos quando espetaculariza a desgraça alheia. Essa moral sem ética de expor ao julgamento sumário, condenatório e linchador pessoas que são alvos de opressões e infelicidades cruéis não deve mais ser tolerada, caso queiramos uma sociedade mais humana e justa.

Leia também o desabafo de Ana Silva, no Facebook, sobre a espetacularização do sofrimento dos vestibulandos atrasados, em texto de 2014 que, porém, permanecerá atual por vários anos ainda

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9 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Bruno Gonçalves Reis

novembro 2 2015 Responder

A espetaculização infelizmente não para, tem até 2 canais famosos do Youtube tentando justificar a “zoeira” com os argumentos mais torpes e banhados de senso comum, inclusive um deles cita supostamente o desabafo de Ana Silva no facebook com uma falta de noção de interpretação de texto (atribuindo citações falsas, entre outros) e uma comparação relativista que chega da dar nojo.
Gostaria de saber a opinião do pessoal que frequenta o blog a respeito dos “argumentos” utilizados nesse 2 vídeos.
abraços
https://www.youtube.com/watch?v=WOlRsVj_yz8
https://www.youtube.com/watch?v=5Va-ym7hNFQ
[Link do segundo vídeo corrigido. RFS]

PS: Tem que ter estômago bom para assistir até o final.

    Thiago

    novembro 3 2015 Responder

    Nem cheguei a assistir os dois vídeos completamente, de tão ruins que eram os “argumentos” usados pelos vlogueiros (Felipe Neto, no primeiro vídeo; e Cauê Moura, no segundo) em ambos os vídeos. Se o internauta tiver bom senso, recomendo qualquer boicote a coisas (em especial, vídeos) relacionadas aos dois.

    Um abraço.

      Thiago

      novembro 3 2015 Responder

      Ah, esqueci: eu sei que o Cauê Moura é justamente o vlogueiro que criou a “pérola” “Carnivoro’s Song”. Segue aqui o link de um texto deste blog tratando mais a respeito desta música:

      http://consciencia.blog.br/2011/07/krasis-onivoros-minha-empatia-caga-na-sua.html#.Vjj5kXqrTIU

      Bruno Gonçalves Reis

      novembro 4 2015 Responder

      Cara, não sabia a existência desse texto excelente aqui no blog, e muito menos desse vídeo ridículo do Cauê Moura, mas se tratando do Cauê o homem do super nióbio não é de se esperar que um vídeo de baixaria e sem noção como esse fosse de sua autoria.

      Abraços.

pfelipens

outubro 31 2015 Responder

Comparar a culpabilização que as vítimas de estupro sofrem com as zoações sobre gente que chega atrasada no ENEM por irresponsabilidade própria chega a ser o cúmulo da falta de noção, um desrespeito as verdadeiras vítimas. Que coisa grotesca, que bola fora. Só podia ser feministo mesmo.

    Robson Fernando de Souza

    outubro 31 2015 Responder

    Não sei se vc viu que o texto coloca o machismo como algo muito mais grave do que a antiética espetacularização do sofrimento de quem chegou atrasado no Enem. Não coloca os dois em pé de igualdade como tendo as mesmas consequências severas, só coloca ambos na mesma categoria de culpabilização contra quem sofre.

    E além de me chamar de “feministo” sendo você um homem, ainda demonstra total falta de empatia pelas pessoas que, de acordo com o texto, chegaram atrasadas ao Enem por motivos de injustiça social. Considerando que, entre essas pessoas, houve mulheres prejudicadas por alguma circunstância machista e você não teve empatia por elas, acho que não sou eu o feministo aqui – a não ser que alguma mulher feminista aponte se agi ou não como um.

      Newton

      novembro 1 2015 Responder

      Robson, por favor, me esclareça: como pode uma pessoa se atrasar por “injustiça social”? No caso do padeiro, creio que a falta de colaboração foi do patrão, e não classificaria isto de injustiça social, mas sim, de falta de solidariedade, e isto pode acontecer com qualquer empregado, mesmo aqueles que possuem bons cargos e ganham bem.
      Quanto àqueles que se atrasaram devido ao transporte público…concordo que nosso sistema de transporte é péssimo, mas acontece o seguinte: se existem muitos que também dependem de ônibus, trem, etc., que conseguiram chegar a tempo, a reclamação que joga a culpa no transporte soa meio que como uma desculpa…claro que existem motivos de força maior, como interrupções no tráfego, quebras, mas existe aquele ditado: Deus ajuda quem cedo madruga…

        pfelipens

        novembro 2 2015 Responder

        ”Como alguém se atrasa por justiça social?”

        [barulho de grilos]

Newton

outubro 28 2015 Responder

Pois é, o povo gosta mesmo é de desgraça, como dizia minha avó…coisa de gente escrota se divertir com a miséria alheia.

Mas por outro lado, o brasileiro não é lá muito amigo da pontualidade, se mudarem o horário de entrada para 1 hora mais tarde sempre vai haver atrasados ainda. E isso não tem nada a ver com classe social, cor da pele ou nacionalidade. Chegar atrasado faz parte da cultura brasileira.

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