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O que a reação da “nova direita” perante o ENEM 2015 nos diz sobre ela

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Aviso de conteúdo traumático: contém referências à misoginia e à violência contra a mulher

Editado em 26/10/2015 à 00h13

O Exame Nacional do Ensino Médio de 2015 foi, segundo os muitos elogios, show de bola. No primeiro dia, questões sociológicas e filosóficas com temas emancipacionistas estiveram presentes em peso. E no segundo, a redação obrigou milhões de pessoas a pensar e escrever sobre a violência contra a mulher no Brasil. Não foi de surpreender a reação de ódio que adeptos convictos da “nova direita”, reacionária, intolerante e autoritária, dedicaram ao vestibular nacional, e tal postura nos diz muito sobre as crenças e os interesses dessas pessoas.

Diante de questões envolvendo pensadores de esquerda, como Simone de Beauvoir, Paulo Freire, Slavoj Zizek, Milton Santos e o ambientalista sociopolítico Carlos Walter Porto-Gonçalves, e uma redação fundamentalmente pró-feminista, a grita foi geral entre quem é contra os avanços sociais. Multiplicaram-se as acusações de “doutrinação comunista”, “marxismo cultural” e “ditadura esquerdista” contra o ENEM.

Mesmo havendo também questões não problematizadoras sobre o pensamento de Tomás de Aquino, Thomas Hobbes, David Hume e Friedrich Nietzsche, que não eram pensadores de esquerda, só houve olhos para as questões de teor mais emancipacionista. Não foi levada em conta a pluralidade de tendências político-ideológicas presentes no exame, mas sim apenas a presença de pensadores contrários ao status quo.

E o mais estarrecedor foram as “reclamações” de machistas convictos perante a temática da redação. A banca que formulou as questões e o tema do texto dissertativo preocupou-se em fazer os “feras” relembrarem o quão grave e inaceitável é o fato de o Brasil ser um dos países mais violentos do hemisfério ocidental para as mulheres e, assim, argumentarem em defesa dos direitos fundamentais delas, como a vida, a integridade física e psicológica e a liberdade.

Pois bem, os misóginos de direita – assim como também muitos “esquerdomachos” – bufaram de raiva diante da obrigatoriedade de fazer uma redação que no mínimo aceitasse a validade das lutas feministas. Ficou expresso nas redes sociais como odiaram ser obrigados a deixar a misoginia de lado sob pena de tirar zero no texto.

Entre os desabafos, constaram diversos discursos de ódio, como xingar as feministas de “feminazis”, tentar tornar a violência (de homens) contra homens algo “mais grave” do que a contra as mulheres e usar surrados jargões machistas, como “falta de louça para lavar”, “mulher tem que se dar ao respeito” e referências a mulheres “direitas” e “decentes”.

No mais, foram muitas as amostras de como lhes foi “penoso” falar sobre violência contra a mulher e, no caso de muitos, do quão grande é o risco de terem suas redações anuladas por apologia à violação dos Direitos Humanos. Também foram um destaque excrescente as declarações raivosas de alguns parlamentares ultraconservadores misóginos sobre os dois dias do ENEM.

As queixas sobre os dois dias de prova nos dizem muito sobre a direita reacionária brasileira. Sobre o primeiro dia, ficou muito evidente que ela não defende uma sociedade democrática, ideologicamente plural, que respeite e valorize a liberdade de expressão, pensamento, consciência e crença.

Ao invés, sua posição é defensora da censura contra teorias e pensadores de esquerda. Demanda energicamente a eliminação, mesmo que seja por força da lei e da violência, de todo e qualquer conteúdo didático que se enquadre em imaginárias e pejorativas categorias de pensamento “doutrinário”, como o “marxismo cultural”, a “ideologia de gênero” e o “gramscianismo”. São contra a diversidade ideológica, na qual ideias de direita e de esquerda confrontem umas às outras e do embate derivem valiosos conhecimentos e reflexões para os estudantes.

Muitos reacionários “exigem” que as escolas e universidades atuem de maneira politicamente “neutra” – sem saber que isso é simplesmente impossível, uma vez que mesmo a não tomada de posição tende sempre a favorecer um dos lados a despeito da indecisão ou abstenção do indivíduo. Ou então promovam uma educação explicitamente direitista, promovendo doutrinação cristã-conservadora, moral e cívico-nacionalista. Defendem também que sejam levados à sala de aula “pensadores” radicais de direita, como Olavo de Carvalho, Ludwig von Mises, Murray Rothbard, Milton Friedman, Luiz Felipe Pondé e Leandro Narloch, alegando que eles são “censurados” pelos órgãos “esquerdistas” de ensino.

E no segundo dia, a imagem que temos da direita conservadora radical revelando a si mesma é que ela é assumidamente machista e misógina. Ao considerar o simples repúdio às múltiplas formas de violência contra a mulher (física, psicológica, moral, econômica, simbólica etc.) uma forma de “doutrinação de esquerda”, ela se mostra desumana e vazia de empatia.

Não tem o mínimo pudor ao, a partir de sua posição misógina, patrocinar moralmente a impunidade a agressores de mulheres, defender a perpetuação da cultura de estupro – mesmo que tente negar a existência da mesma – e desejar impor retrocessos aos direitos das mulheres, até que elas voltassem a ser forçadas à submissão perante os homens e à reclusão no mais confinador espaço doméstico.

O ENEM, pese ser um exame de seleção “meritocrático” que deixa claro que o acesso ao ensino universitário não é um direito no Brasil, felizmente ajudou neste ano a fazer o contrapeso feminista, emancipacionista e defensor do livre pensamento diante dessa direita conservadora intolerante. Ajudou a deixar ainda mais claro o quanto a “nova direita” brasileira é autoritária, machista e contrária à liberdade intelectual. Isso pode nos ajudar a denunciar à sociedade quais são as verdadeiras intenções e interesses presentes da direita nacional contemporânea, e que ela não é defensora da liberdade, da democracia e da segurança individual coisa nenhuma.

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12 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fernando

novembro 4 2015 Responder

Esse post me suscitou duas perguntas.

A primeira é: não será desonesto dizer que a prova não era doutrinação esquerdista só porque comportava quatro autores “que não são de esquerda” (num universo de quarenta e cinco questões), quando também temos questões baseadas em Zizek, Milton Santos, Wlamyra Albuquerque, Paulo Freire, David Harvey, Maria da Glória Gohm, Simone de Beauvoir, Karl Mannheim, Robert Reich, Sidney Chaloub, além de um texto da Caros Amigos?

A segunda é: quantas obras dos autores de direita mencionados, especialmente Mises, Friedman e Rothbard, terá o preclaro blogueiro lido para poder qualificá-los tão desabonadoramente de “pensadores”? Quais serão as críticas às suas obras? Quais as críticas à epistemologia de Teoria e História? Qual a refutação à praxeologia de Ação Humana? Qual o problema com o princípio da não-agressão que constitui o cerne temático de A Ética da Liberdade? Qual a base teórica e factual de que dispõe o blogueiro para refutar a tese de A Grande Depressão Americana? Espero que tal sentença não tenha sido motivada por mera bibliofobia.

André Santos

outubro 27 2015 Responder

Excelente texto! Porém, sob o argumento dos reacionários de plantão, de que a prova apresentou apenas uma visão de mundo (marxista, citando apenas pensadores de esquerda), o que responder se a prova não há como apontar na prova nenhuma questão sobre pensador de direita ou liberal, como Mises ou Milton Friedman? Há algo na prova que possa ser apresentado como contraponto do pensamento de esquerda que vem sendo questionado?

    Robson Fernando de Souza

    outubro 28 2015 Responder

    Valeu, André =)
    Como o próprio texto diz, havia questões sobre Nietzsche, Tomás de Aquino, Hume e Hobbes, que não eram pensadores de esquerda. Abs

Mariaa

outubro 26 2015 Responder

Muito bom o texto!! Ganhou uma leitora, haha :D

    Robson Fernando de Souza

    outubro 27 2015 Responder

    Obrigado, Maria =) E seja muito bem vinda! Abs

Thiago

outubro 26 2015 Responder

Ao autor do blog,

eu vi na internet algumas histórias de que Simone de Beauvoir fazia apologias à pedofilia e teria colaborado com o nazismo, estas histórias REALMENTE conferem ou são mitos criados por pessoas ressentidas da “nova direita” que você criticou no texto, mitos estes criados com o objetivo de desqualificar a obra de de Beauvoir?
A propósito, creio que este “mimimi” da direita infelizmente seja desnecessário, o que é mais uma prova de que eles são realmente um problema grave.

Thiago, o mesmo que fez aquele comentário sobre o livro “Direita e Esquerda” de Norberto Bobbio

    Robson Fernando de Souza

    outubro 26 2015 Responder

    Thiago, só achei essa história de que Simone era “pedófila” e “colaboradora do nazismo” em sites e páginas de extrema-direita (incluindo sites de ódio misógino-masculinista), nada em páginas realmente sérias. E é um mito internacionalmente difundido entre reacionários extremistas. E pelo que li, a acusação de “colaboradora do nazismo” se dá porque ela trabalhou na França quando o país estava sob ocupação do nazismo, aí distorceram a história como se ela estivesse trabalhando pro “Terceiro Reich”.

    Ou seja, pelo que tudo indica, ambas são mentiras originadas de sites conspiracionistas de extrema-direita.

    E pode ter certeza, o mimimi da direita (generalizo porque até hoje nunca vi uma direita realmente democrática e crítica ao extremismo reacionário no Brasil) é completamente desnecessário. Ela não vem colaborar com a democracia e com o amadurecimento das ideias circulantes. Pelo contrário, tem mostrado todos os dias ter uma forte alergia a tudo aquilo que constitua valores democráticos. Diz “defender a democracia”, mas odeia os valores da mesma.

    Abs!

      Thiago

      outubro 27 2015 Responder

      Muito obrigado, Robson, você é um dos melhores blogueiros que existem na Internet!!!!

      A propósito, tem bem um texto recente da Lola Aronovich sobre o tema das controvérsias a respeito de Simone de Beauvoir.
      Segue aqui o link:

      http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2015/10/a-verdade-sobre-simone-de-beauvoir.html

        Robson Fernando de Souza

        outubro 30 2015 Responder

        Valeu ae, Thiago =D E valeu tb pelo link =) Abs!

      Vinicius

      novembro 4 2015 Responder

      Eu vi que naquela época, as pessoas se casavam aos 14/16 anos, e essa “pedofilia”, era pra pessoas de 13/12 anos, igual às de 14 hoje, que o casamento é +18

Lilian

outubro 26 2015 Responder

Artigo fantástico! Basta que alguém se coloque no lugar do outro para entender a liberdade individual e os direitos humanos. Já cansei de discutir com gente machista, vamos colocar essa galera nova pra pensar e esperar que isso melhore o futuro!

    Robson Fernando de Souza

    outubro 26 2015 Responder

    Valeu, Lilian =D

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