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Reacionarismo: que país está-se deixando de legado às gerações futuras?
Como seria esse Brasil regido por conservadores? Os reacionários não sabem responder consistentemente, mas contribuem para que esse hipotético futuro do país seja catastrófico.

Como seria esse Brasil regido por conservadores? Os reacionários não sabem responder consistentemente, mas contribuem para que esse hipotético futuro do país seja catastrófico.

Lendo comentários reacionários e conteúdo de páginas de direita, nos perguntamos: que Brasil os simpatizantes ou adeptos do reacionarismo querem deixar para seus filhos? E que preocupação essas pessoas têm com o país que estão ajudando a “construir”?

É complicado desenhar o que os reacionários em geral querem que o Brasil se torne com base em proposições. Essa dificuldade se deve às eventuais divergências de crenças sociopolíticas e à escassez de propostas que não sejam a simples negação e oposição ao que a esquerda reivindica.

Mas, considerando o caráter majoritário de diversas ideias, como o ódio à equidade, o anticorrupcionismo seletivo, o repúdio às liberdades das minorias políticas, a desatenção perante abusos cometidos por políticos não petistas, o espírito macartista de ódio a tudo que lembre o comunismo e o PT, entre outras, é possível dizer, ou pelo menos conjecturar, que país eles não querem. Desse Brasil indesejado, pode-se deduzir que país estão construindo, mesmo que não almejem conscientemente esse futuro.

Pelo que salta aos olhos de quem se aventura a ler os que os reacionários dizem, não querem um país que acolhe a todas e todos com humanidade e qualidade de vida. Nem mesmo é um país de paz, tolerância, solidariedade, cordialidade, respeito e equilíbrio entre emoção e razão. Menos ainda têm como objetivo legar às próximas gerações um país governado por pessoas cujo único interesse seja comprovadamente um país mais justo sob hegemonia da ética, da honestidade e da transparência.

Isso pode ser notado em cada comentário raivoso publicado, cada discurso de ódio escrito ou apoiado, cada agressão verbal ou mesmo física nas ruas, cada flagrante de omissão e silêncio perante escândalos de corrupção envolvendo pessoas não petistas, cada voto de repúdio a políticas públicas de inclusão social e fomento à equidade.

Sempre que opinam revoltadamente contra políticas afirmativas, de equidade, inclusivas e pró-justiça social, percebemos como lhes é incômoda a ideia de um Brasil de menos desigualdade social e onde o racismo, o machismo, o elitismo, o heterossexismo, a transfobia, a xenofobia sejam realmente combatidos. Parecem querer que as desigualdades permaneçam e dezenas de milhões de pessoas, assim como suas gerações sucessoras, continuem sendo tratas como cidadãs de segunda classe, com pouco ou nenhum direito constitucional.

Dizem, na tentativa de justificar essa indiferença perante a miséria e sofrimento alheios, que no país deveria vigorar a meritocracia. Mas não percebem – ou, em alguns casos, percebem e querem – que um país meritocrático está condenado a existir permanentemente dividido em uma ínfima minoria de “vencedores” e uma imensa maioria de “perdedores”. Ignoram que isso significa necessariamente o agravamento da pobreza, da miséria, da injustiça social, das múltiplas discriminações, da cultura do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Não se hesita, quando veem pessoas se manifestando contra essa ordem desigual, em demandar que a polícia “desça o sarrafo” ou “aja com energia”. Isso confirma que o Brasil que querem é uma espécie de distopia despótica e totalitária, onde só os dominantes tenham uma vida razoável e aos dominados reste como “opções” a obediência e submissão totais ou a morte violenta.

É possível dizer, porém, que nem mesmo uma meritocracia essas pessoas realmente querem. Considerando que, numa meritocracia “ideal”, todos teriam as mesmas oportunidades de “construir seu caminho“ e “vencer na vida” e as vitórias e derrotas dependeriam da conduta do indivíduo, o papo meritocrático é apenas uma fachada. Na realidade, mulheres, negros, migrantes e imigrantes pobres, pessoas trans, pessoas que nasceram em comunidades muito pobres etc. continuariam sendo discriminadas(os) e tendo sua autoestima esmagada e impossibilitada de se desenvolver.

Isso nos permite pensar que o Brasil desejado pelo reacionarismo seria uma espécie de distopia que misturasse ditadura de extrema-direita, feudalismo e teocracia. Nesse “ideal” distópico, apenas homens brancos cisgêneros heterossexuais cristãos nascidos em famílias endinheiradas teriam acesso ao que hoje a Constituição estabelece como direitos. Mesmo a vida e a integridade física não seriam direitos, mas sim oficialmente privilégios.

Acesso a serviços, só pagando caro em dinheiro, apesar de a maioria ser submetida a trabalhos de baixíssima remuneração. E qualquer tentativa de questionar ou transgredir a ordem vigente seria punida com agressão, tortura e morte, sob incitações ferozes de multidões sedentas por punições cruéis contra os subversivos.

Nessa distopia, toda corrupção seria acobertada, uma vez que não haveria condições para um partido odiado, como um PT ou um PSOL, vir à existência (e ser denunciado como um “antro de corrupção” como o PT hoje é) e a imprensa e outros políticos não teriam interesse em denunciar a corrupção entre os amigos do poder. Tentativas de denunciar essa corrupção também seriam punidas, uma vez que os denunciantes seriam tidos como “comunistas”.

E nas ruas, a violência seria algo muito comum, por causa das escorchantes desigualdades sociais e da cultura de violência reinante. E viria de todos os lados, ora dos castigados pela miséria que não veriam outra possibilidade de sobrevivência fora do banditismo, ora da PM, ora dos privilegiados de mentalidade repleta de ódio racista, misógino, classista, heterossexista, transfóbico, xenofóbico, intolerante-religioso etc. Apenas os crimes cometidos por civis em situação de miséria seriam punidos, e a punição seria tortura e morte pela polícia ou por “justiceiros” linchadores. Crimes de ódio seriam acobertados ou mesmo não tipificados como crimes pela lei.

Pode ser ingênuo ou mesmo leviano crer que os reacionários têm o desejo claro de desenhar esse futuro catastrófico. É mais perceptível, aliás, que eles não querem futuro político nenhum fora a derrubada do PT, uma vez que ora não têm propostas de país, ora não usam a razão para dar seus posicionamentos políticos. Sua postura, aliás, é de antipolitização, baseada em aceitar dogmas, obedecer a ordens e colocar nas mãos de alguém com dinheiro, prestígio e autoridade o poder de governar o país e tomar decisões políticas.

O que é mais plausível, portanto, é denunciar que o esforço reacionário encaminha o país para um futuro distópico, mesmo que não haja o desejo claro e expresso dos seus adeptos de concebê-lo como um ideal pelo qual lutar. Com isso, é razoável convidar quem manifesta “pensamentos” reacionários a usar a razão pelo menos uma vez e daí pensar: que Brasil futuro estão ajudando a construir e deixando de herança para seus filhos, netos, bisnetos etc.?

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Newton

outubro 18 2015 Responder

O que é o progresso e o que é reacionarismo dependem muito do ponto onde você começa e do ponto para onde quer ir. Se o objetivo é a igualdade — como muitos autodeclarados progressistas afirmam —, então qualquer progresso rumo a uma maior igualdade tem de ser considerado, é claro, um progresso. Se esse é o caso, então o comunismo tem de ser visto como a mais progressista de todas as causas. E, com efeito, o comunismo assim foi considerado por vários intelectuais do passado.

Em termos puramente políticos, o progresso é algo extremamente subjetivo. Por exemplo, na Dinamarca, os progressistas legalizaram a prostituição; já na Suécia, os progressistas a tornaram ilegal. Podem ambos ser progressistas? Já em termos econômicos, científicos e tecnológicos, o progresso definitivamente existe. Ou ao menos é de se imaginar que exista. Porém, algumas pessoas muito progressistas acreditam que os luditas que quebravam máquinas representavam um “heróico movimento de resistência em prol dos direitos da classe operária”. Ou seja, destruir tecnologia é igual a progresso.

E o que dizer sobre a Revolução Industrial, a qual — não obstante várias dificuldades — elevou sobremaneira a renda per capita da população? Até hoje, há progressistas que ainda não aceitam os pontos positivos da Revolução Industrial.

E os nacional-socialistas — mais popularmente conhecidos como nazistas —, que foram os mais famosos defensores da eugenia? Eles definitivamente não eram progressistas, certo? Afinal, seu professor de história garante que não. E, com efeito, a plataforma de 25 pontos do programa nazista defendia medidas verdadeiramente “antiprogressistas”, como “estatização de todos os conglomerados… divisão dos lucros das grandes indústrias … [e] um generoso aumento nas pensões”. Se, por um lado, os nacional-socialistas não são hoje o exemplo seguido pelos atuais guerreiros da justiça social, por outro, é incontestável que eles representavam o completo oposto do que defendem os libertários e os conservadores.

Supor que o progresso ocorre em uma direção e que a reação ocorre na direção oposta é um tipo de pensamento unidimensional que não se sustenta após uma análise mais sensata. Por exemplo, os progressistas do início do século XX defendiam coisas (e se aliavam até mesmo a grupos religiosos) que os progressistas de hoje abominariam. Foram os progressistas daquela época que, em conluio com protestantes, agitaram pela aprovação da Lei Seca, e criticaram violentamente aqueles “conservadores econômicos que brigaram tanto para revogá-la. O famoso progressista William Jennings Bryan foi um inflexível defensor da Lei Seca.

Foram organizações progressistas que apoiaram, em 1882 e 1924, leis de restrição à imigração de chineses. Vários sindicatos “progressistas” eram abertamente racistas, nativistas e nacionalistas. Até mesmo a segunda encarnação da Ku Klux Klan, no início do século XX, além de ser abertamente racista, também defendia várias reformas progressistas. Margaret Sanger, sexóloga, feminista, defensora do aborto e heroína dos progressistas americanos, chegou a palestrar em um dos eventos da KKK.

Como observou o psicólogo e linguista canadense Steven Pinker:

Contrariamente à crença popular difundida por cientistas ideólogos, a eugenia foi, durante grande parte do século XX, uma das bandeiras favoritas da esquerda, e não da direita. Ela foi defendida por vários progressistas e socialistas, dentre eles Theodore Roosevelt, H.G. Wells, Emma Goldman, George Bernard Shaw, Harold Laski, John Maynard Keynes, Sidney e Beatrice Webb, Margaret Sanger e os biólogos marxistas J.B.S. Haldane e Hermann Muller.

Não é difícil entender por que todos eles se alinharam a esta causa. Protestantes e católicos conservadores odiavam a eugenia porque a viam como uma tentativa das elites intelectuais e científicas de brincar de Deus. Já os progressistas adoravam a eugenia porque era um movimento em prol da reforma e contrário ao status quo. Para eles, a eugenia era um ativismo e não um laissez-faire; era uma responsabilidade social e não um individualismo egoísta

Felizmente, o comunismo está politicamente morto há duas décadas, e nenhum progressista de hoje teria a mais mínima simpatia por absolutamente nenhum aspecto deste regime sanguinário.

Ou não?

Nathalie

outubro 18 2015 Responder

Este ódio é fruto de um pensamento simplista e primitivo espalhado no ensino fundamental de grande parte das escolas e nas faculdades que oferecem disciplinas de administração de empresas na grade, pensamento este que profetiza que com “esforço individual se alcança o sucesso” e de que “o estado nos anos 80 estava inchado e causou toda a crise econômica do terceiro mundo”, que o pobre quer mamar na teta do governo, etc. mas não se ensina q juízes e altos executivos da iniciativa privada, pessoas como todas as outras, ganham muito dinheiro só por terem recebido oportunidades a mais do q o resto da população desafortunada. é um problema d ensino q não tem solução. o negócio é deixar eles implodirem em seu egoismo.

    Newton

    outubro 18 2015 Responder

    Nathalie, obviamente a igualdade de oportunidades é importante, mas o que muitos se esquecem é que ela por si só não é sinônimo de igualdade de sucesso. E para o sucesso, o esforço individual é indispensável.
    Não sei se você studa os estudou em alguma faculdade, mas suponhamos a seguinte situação: você se dedica muito aos estudos, passa noites em claro vendo e revendo as matérias, presta muita atenção nas aulas, logicamente seus esforços serão recompensados através de notas altas. É uma consequência lógica, afinal, você se esforçou, deu o melhor de si mesma, e justamente, mereceu o que recebeu, ninguém pode lhe tirar isso.

    Isto chama-se meritocracia.

    Porém, todos sabemos que existem aqueles que não são exatamente como você: ao invés de estudar com afinco, preferem freqüentar festas (nada contra, afinal, nem só de trabalho vive o homem, rs…), fazer farra com a turma, enfim, o resultado final de seus atos também é previsível.

    Agora, certamente, você será aprovada com louvor, enquanto aquela sua amiga….

    Mas sejamos solidários com os amigos: apesar de vocês terem tido as mesmas oportunidades (afinal de contas, conseguiram chegar na mesma faculdade) sua amiga não conseguirá ser aprovada; vamos então, fazer os seguinte: supondo-se que você possui uma nota 10, e sua amiga farrista possua uma nota 3, ajude-a cedendo 3 pontos para ela, assim você fica com 7 e ela com 6, e todos estarão felizes! A justiça foi feita?

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