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nov15

“A humanidade decidiu” caminhar para um precipício ambiental? Calma lá, Galileu
Título e cabeçalho da matéria da Galileu. O cabeçalho diz que "a humanidade decidiu" caminhar para o precipício climático, cometendo um pacote de erros ao dizer isso

Título e cabeçalho da matéria da Galileu. O cabeçalho diz que “a humanidade decidiu” caminhar para o precipício climático, cometendo um pacote de erros ao dizer isso. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

Editado em 14/11/15 às 00h04, com ajuste no sexto parágrafo, cuja menção a “filósofos positivistas e bacon-cartesianos”  foi substituída

Em matéria do último dia 11, o site da revista Galileu noticiou um grande descolamento e desmoronamento de iceberg na calota polar da Groenlândia, e afirmou no cabeçalho que “O precipício do desastre climático para o qual a humanidade decidiu marchar está resumido nesse registro histórico” (grifo meu). Devo alertar aos responsáveis pela notícia que é muito imprudente dizer que a culpa é uniformemente “da humanidade” como um todo e que ela “decidiu”, enquanto conjunto de bilhões de indivíduos supostamente em pensamento e intenção sincronizados e uniformizados, cavar sua própria desgraça, ecologicamente falando.

Afirmar que “a humanidade decidiu” dinamitar, metaforicamente falando, o chão onde está apoiada é uma postura que despolitiza a causa ambientalista. Essa crença isenta os verdadeiros responsáveis pelos crimes ambientais em grande escala que têm historicamente mutilado a biosfera. Fataliza as ações ambientalmente nocivas como manifestações da própria natureza humana, ao invés da ignorância ou má intenção de pessoas não conscientes ou opositoras da causa. E esvazia o sentido e o mérito da luta dos mais diferentes ramos do movimento ecologista global por uma humanidade amiga do meio ambiente em que vive.

 

O acobertamento dos verdadeiros responsáveis pela crise ambiental global

Quando se trata o tema como se todos os seres humanos fossem igualmente cúmplices e consentidores da crise ambiental-civilizacional do mundo moderno, está-se acreditando que uma pessoa que idealizou e ajudou a fundar uma das ecovilas mais sustentáveis do mundo e um morador de rua que frequentemente passa fome têm o mesmo grau de culpa que pessoas como os deputados e senadores da bancada ruralista brasileira, o ex-presidente estadunidense George W. Bush (notável opositor da causa ambiental durante seu governo na década de 2000) e a magnata australiana da mineração Gina Rinehart. Comete-se uma falsa simetria e uma nivelação muito injusta.

Ignora-se que quem está lá comandando a derrubada de milhares de campos de futebol na Amazônia não é a vegana que milita em movimentos sociais e tem recomendado o documentário Cowspiracy para o máximo possível de pessoas. Nem o cidadão comum que tenta racionalizar o consumo doméstico de água e eletricidade fazendo aquilo que a educação conservacionista tradicional recomenda. Mas sim o pecuarista “dono” de três mil bovinos e investigado por crime ambiental, corrupção e envolvimento no assassinato de três ambientalistas, que está aumentando em 40% a já enorme extensão de sua fazenda ao destruir a floresta amazônica na borda norte da propriedade. É absurdo colocá-los no mesmo saco de “comparsas de crimes ambientais”.

Essa atitude promove a despolitização do ambientalismo também ao reafirmar e perpetuar o erro de focar no pequeno consumidor a responsabilidade de salvar o mundo do colapso ambiental e da próxima extinção em massa. É esse vício que faz promotores de uma educação ambiental de eficácia duvidosa insistirem que fechar a torneira enquanto escova os dentes será “essencial” para não deixar as barragens do Sistema Cantareira de São Paulo secarem. Isso enquanto donos de grandes fazendas, madeireiras e indústrias estão cortando com desflorestamento o fluxo atmosférico de água da Amazônia para a Região Sudeste, destruindo os mananciais dos rios que alimentam o sistema, poluindo a água que abastecerá dezenas de municípios paulistas e devastando as matas ciliares para plantar eucalipto ou expandir pastos.

E também isenta do peso da culpa os ideólogos apologistas do desamor ao meio ambiente. Não considera a importância crucial, para o agravamento da crise eco-civilizacional, de defensores intelectuais do antropocentrismo supremacista e ecoviolento, apologistas do capitalismo liberal e do fundamentalismo de mercado, empresários industriais e donos de agências de publicidade que vivem incitando a classe média ao consumismo e à irresponsabilidade socioambiental, pseudocientistas negacionistas das mudanças climáticas, financiadores de movimentos conservadores que tentam difamar o ambientalismo, entre outros que fomentam que os cidadãos comuns mantenham comportamentos antiecológicos.

Isso sem falar nos políticos que, com fins escusos de manter os governados na ignorância e alheios ao conhecimento sobre cidadania e democracia, cortam investimentos em educação, impõem políticas educacionais medíocres que boicotam propostas transformadoras de Educação Ambiental, excluem a Sociologia e a Filosofia de qualquer prioridade no currículo escolar e precarizam progressivamente o ensino público. Esse desinvestimento é essencial para que milhões de pessoas não tenham acesso à Educação Ambiental necessária para se diminuir a pegada ecológica das classes populares e médias.

Em outras palavras, os detentores de poder econômico, político e intelectual são responsáveis não só pelas atividades econômicas de impacto ambiental em grande escala e pela ausência de uma política ambiental governamental séria, mas também por induzir a população governada e consumidora a ter impactos ambientais individuais irrazoáveis e não ter consciência disso. Ou seja, não é “a humanidade” que “decide” homogeneamente destruir o planeta, mas sim aquelas pessoas poderosas que têm o poder de governar e controlar o restante da espécie humana.

 

A desvalorização e deslegitimação das lutas dos ambientalistas

Ao crer que “a humanidade decidiu dar um mosh no abismo ecológico”, ele coloca no mesmo saco todos os ativistas ecologistas do planeta, como se tivessem decidido isso tanto quanto os piores criminosos ambientais do mundo. Os reprodutores dessa crença homogeneizadora de culpa não percebem, mas estão por meio dela deslegitimando o movimento ambientalista, desvalorizando suas ações e conquistas e desrespeitando seus membros.

Desse ponto de vista, as convicções, ações e realizações de um coletivo de ativistas cofundadores de duas ecovilas veganas, militantes contra fazendeiros e madeireiros criminosos ambientais e responsáveis pelo reflorestamento de 480 hectares de mata atlântica de nada valeram. Foram diluídas na homogênea “escolha da humanidade inteira” pela própria miséria.

Nessa homogeneidade, é preciso ressaltar também, acaba-se atribuindo ao ser humano uma essência ambientalmente perversa. Ou seja, manifesta-se a crença de que a “natureza humana” é má e avessa à ideia de respeitar o meio ambiente. Daí, de nada adiantaria milhões de seres humanos promoverem ativismo ambiental e/ou procurarem diminuir sua pegada ecológica, porque eles fatalmente “participaram” da “escolha” de “toda” a espécie humana pela provocação do colapso climático global. Uma contradição lógica que nega a capacidade de muitos indivíduos e também de culturas inteiras de buscarem a sustentabilidade, como se percebe.

Fica claro que, por tantos motivos, é uma falha crassa, e até mesmo uma atitude de irresponsabilidade ambiental, dizer que “a humanidade decidiu marchar para o precipício do desastre climático”. Não só protege quem realmente está forçando a espécie humana a essa marcha, como também deixa a entender que a Educação Ambiental e a tomada individual e coletiva de consciência não são páreos para uma suposta (e falsa) natureza humana antissustentável e suicida. Então, calma lá, Galileu.

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