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O atentado terrorista em Paris e o reducionismo dos preconceituosos
Para quem acredita em divindades pessoais, rezem por Paris. Para quem não acredita, ou prefere ajudar pessoalmente, façam o possível para que os sobreviventes e as famílias das vítimas do atentado sejam aliviadas de sua dor

A quem acredita em divindades pessoais, rezem por Paris. A quem não acredita, ou prefere ajudar pessoalmente, façam o possível para que os sobreviventes e as famílias das vítimas do atentado sejam aliviados de sua dor

Editado em 14/11/2015 às 13h58

Depois do obviamente triste e repudiável ataque terrorista em Paris, com mais uma centena de mortos, muitas pessoas correram para tentar explicar, do alto de seu senso comum, por que aquilo aconteceu. O que se viu a partir disso foi um fétido fluxo de declarações preconceituosas, tanto de pessoas muito religiosas quanto de quem não tem religiosidade (e a odeia), e especulações reducionistas bizarras.

Podem ser vistos, nas redes sociais, dizeres nos dois polos do eixo da intolerância e da ignorância sobre religião e irreligião. Eu pessoalmente pude ver, no Facebook, declarações de ódio islamofóbico que consistiam em absurdos ora de fanatismo religioso cristocêntrico, ora de neoateísmo apologista do preconceito contra religiões.

De um lado, cristãos socializados no ódio a outras crenças e descrenças disseram que os terroristas seguem uma “religião do mal”, “não têm Deus no coração” e, em outras palavras, deveriam ser “trazidos à luz por Jesus”. Afinal, o grande problema não seria nenhum além do fato de que os criminosos não eram cristãos – e, como consequência disso, seriam incapazes de seguir um caminho de retidão moral.

Esses intolerantes propagam e incitam o ódio a todas as religiões não cristãs e em especial a muçulmanos e ateus. O curioso é que, nessas horas, promovem esse discurso criminoso na tentativa de parecerem estar denunciando um caso de desrespeito à vida de seres humanos e defendendo o amor e a paz.

Mas eles mesmos estão desrespeitando bilhões de humanos e incitando ainda mais animosidade, violência e guerra. Em última análise, também estão colocando em risco a vida de pessoas como os refugiados sírios em vários países, os muçulmanos que vivem já há tempos nessas mesmas nações, os palestinos sob opressão armada de Israel e também os ateus, comumente acusados de serem “inclinados ao crime e à imoralidade”.

Do polo oposto, vieram declarações igualmente lamentáveis de que a culpa seria, totalmente ou em sua maior parte, das crenças religiosas fundamentalistas de cunho metafísico e moral que os assassinos traziam em sua mentalidade. Cheguei a ver, no Facebook, gente atribuindo a motivação da tragédia à repulsa do Estado Islâmico por rock e metal – como se isso não fosse apenas um pequeno detalhe de todo um contexto de ressentimento contra as culturas ocidentais, algo muito maior fomentado direta e indiretamente em grupos extremistas por ações de Estados poderosos do Ocidente, como será visto mais adiante.

Ou então da própria existência do islã – mesmo sendo o fundamentalismo aderido apenas por uma minoria de muçulmanos – ou mesmo das religiões e crenças teístas em geral.

Nisso não faltaram ocorrências do uso oportunista da tragédia, por ter sido causada por religiosos – mesmo sendo especificamente fanáticos deturpadores da filosofia do Corão –, para propagandear como “óbvias” as crenças de que divindades e mundos extraterrenos pós-morte não existem e, também, que religiões são um “erro” da humanidade e deveriam não mais ser toleradas.

Era, em sua mais inconveniente e intolerante essência, o neoateísmo antirreligioso, aquela corrente de pensamento que não se restringe a descrer em divindades e cosmologias religiosas, mas também condena as religiões – todas elas ou especificamente as monoteístas – e deseja um mundo desprovido de crenças e espiritualidades sobrenaturalistas.

Não “só” o discurso preconceituoso foi a marca registrada dos dois lados intolerantes. Além de tudo isso, também foram dolorosamente reducionistas, politicamente rasos, ao especularem razões tão absurdas para que o atentado na boate parisiense tenha acontecido. Digo isso porque suas “análises” de senso comum não levam em conta, em momento nenhum, as questões geopolíticas que têm sido o plano de fundo de grande parte dos ataques terroristas, genocídios e conflitos no mundo.

Não considera, por exemplo, que diversos Estados geopoliticamente centrais, como os Estados Unidos e o próprio Estado francês – segundo palavras do presidente François Hollande no ano passado –, têm financiado e fomentado grupos extremistas no Oriente Médio. Muitas vezes esse fomento vem para instabilizar ou derrubar governos que não se alinham aos ditames do eixo EUA-Europa Ocidental.

Como exemplos dessa postura de apoio ou repúdio seletivo ao terrorismo, temos a alimentação da Al-Qaeda, pelos EUA, no Afeganistão durante a guerra entre aquele país e a União Soviética na década de 80 e, mais recentemente, o apoio de EUA e União Europeia a grupos armados que têm atuado contra o regime de Bashar al-Assad na Síria. Vale lembrar que é essa guerra civil nesse país que tem causado a crise dos refugiados sírios na Europa.

Vale fazer menção honrosa, aliás, ao constante financiamento vindo dos EUA às ações de terrorismo de Estado cometidas nos Territórios Ocupados da Palestina pelas forças armadas de Israel e comandadas pelo governo desse país.

Não só os grupos (e Estados, como o israelense) terroristas da região têm sido alimentados, como também o tem sido o ódio de muitos muçulmanos a esse Ocidente rico globalizador que se revela a eles como fonte de miséria, dominação, neocolonialismo e violência. O ressentimento de muitos com isso, cuja responsabilidade é dos Estados e das empresas de conluio com estes, se combina com o fomento internacional ao terrorismo e alimenta grupos fundamentalistas, que usam interpretações bizarras e descontextualizadas do Corão para promover a violência e o terror. Daí o monstro nasce e cresce e os inocentes da Europa, dos EUA e também do próprio Oriente Médio sofrem as consequências, conforme vimos ontem em Paris.

Absolutamente nada disso foi levado em consideração nas opiniões dos religiosos e antirreligiosos preconceituosos. Para eles, o problema foi “causado” simplesmente pela existência do islamismo, supostamente uma religião “defensora” da intolerância e “beneficiadora do terrorismo”. E a essa crença errônea respondem com apelos – diretos ou indiretos, intencionais ou não – à intolerância islamofóbica, incitando que o islã seja demonizado tanto pela cristandade quanto pelos antiteístas e sobrepujado pela “doutrina” neoateísta ou pelo dogma cristão “por um mundo melhor”.

A essas pessoas, o mundo pede: apenas parem, por favor, pelo que há de mais compassivo na humanidade. Ninguém está precisando de discursos contra o islã, contra religiões em geral ou contra pessoas que “não têm Deus no coração”. O que os familiares e amigos das vítimas fatais do atentado e aquelas pessoas que estão ajudando os sobreviventes realmente querem é o apoio, a solidariedade e também, na medida do possível, ajuda material das pessoas de Paris, do restante da França e também de todo o mundo.

O planeta clama, diante deste e de todos os outros atentados terroristas ao seu redor, sejam aqueles muito noticiados, os subnoticiados ou os ignorados pela imprensa internacional: menos especulação preconceituosa. Mais empatia, solidariedade e respeito à dor alheia e a quem não tem nada a ver com os crimes dos terroristas e dos Estados que os fomentam. Por favor.

 

P.S: Ao mesmo tempo em que declaremos nossas energias a Paris e a outros locais onde ocorreram atentados, também direcionemos nossa solidariedade, seja como apoio material ou como postura de reação política e ambientalista, às vítimas humanas e não humanas da catástrofe ambiental, causada por crime ambiental, na Bacia do Rio Doce, em Minas Gerais e Espírito Santo.

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6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Nathalie

novembro 17 2015 Responder

O pessoal q comentou aqui leu o texto acima? Porque estão falando que o atentado em Paris foi justamente motivado por “religião”, coisa q o texto refuta a todo momento. É uma insistência nessa história d bandidos e mocinhos q realmente desanima. Trata-se de uma questão política e não religiosa, ou por trás da política, como sempre, uma questão de poderio econômico querendo se expandir nos países orientais. Invadir estes países sem motivação alguma sujaria a imagem dos cavaleiros da ordem e da justiça (EUA), então CRIAR um clima de insegurança cai bem.

    Newton

    novembro 20 2015 Responder

    É…uma questão de poderio econômico querendo se expandir nos países orientais…estão querendo fazer as mesmas coisas daqueles que censuram.

    Criar um clima de insegurança? Para isso é necessário assassinar inocentes? Que Deus nos proteja.

Newton

novembro 15 2015 Responder

A Igreja Católica já foi protagonista de episódios hediondos na história do mundo.

Porém, o que assusta nos muçulmanos é o conceito de “infiel” nos seus preceitos. Infiel seria TODOS AQUELES que não professam a fé islâmica. Desnecessário explicar a extensão desse conceito.

Também não acho que seja “demonstração de ódio cristocêntrico” as críticas quanto às atitudes dos terroristas. Foi simplesmente indignação pela morte de inocentes que não têm nada a ver com o problema islâmico. Seria “demonstração de ódio budista” se o Dalai Lama criticasse tais atitudes? Claro que não, assim como não classifico de “ódio ateu” a desaprovação de tais atos por parte do autor deste blog.

Todo e qualquer acontecimento hoje em dia é pretexto para impingir rótulos às pessoas.

Newton

novembro 15 2015 Responder

A raiz de tudo isso é o radicalismo.

Tudo que foi dito a respeito de cristãos, ateus, etc., também pode ser dito a respeito dos muçulmanos.

Nessa história não existem santos

Ronaldo

novembro 15 2015 Responder

Concordo com você, raramente as pessoas pensam no que realmente cria as condições para que tais tragédias aconteçam ano após anos, para boa parte é sempre mais fácil apontar dedos. Amanhã certamente algum maluco vai falar que o Bolsonaro está certo, ai ai ai…que preguiça disso.

Abraços!

Alessandro

novembro 15 2015 Responder

A religião muçulmana não é boa, e seu avanço é preocupante. Principalmente para os direitos que as mulheres tem conquistados no último século. Dúvida, eu sugiro a leitura de livros escritos por elas: mulheres que vivem e viveram em países islâmicos:

Infiel:A história de uma mulher que desafiou o islã

http://www.rascunhocomcafe.com/2015/04/infiel-como-sair-da-caverna.html

Eu sou Malala:
http://www.rascunhocomcafe.com/2015/11/eu-sou-malala-muito-alem-que-vida-de.html

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