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A aversão seletiva da direita a regimes autoritários: o problema para ela não é não serem democráticos, mas sim outra coisa
Imagem reacionária "critica" Cuba, onde há um dos regimes não direitistas mais odiados pela direita no Brasil, com possível imagem falsa

Imagem reacionária “critica” Cuba, onde há um dos regimes não direitistas mais odiados pela direita no Brasil, com possível imagem falsa

É extremamente comum pessoas de direita, em especial conservadores e livre-mercadistas, declararem seu horror e aversão a regimes ditos “comunistas”, como os que governam ou governavam Cuba, Venezuela, Bolívia, Coreia do Norte, a China antes de Deng Xiaoping e a antiga União Soviética. Argumentam que não toleram tais governos por serem autoritários e avessos às liberdades individuais. Mas se observarmos bem, isso nada mais é do que um pretexto de fachada e não implica que essas pessoas realmente sejam opositoras incondicionais do autoritarismo, da não liberdade e da perseguição política.

Esse ódio a regimes considerados socialistas ou “comunistas” de jeito nenhum é devido a um apreço sincero pela liberdade e pela democracia, tampouco pelo zelo aos direitos humanos, civis e políticos. Isso pode ser percebido, por exemplo, quando um “liberal” de direita tergiversa em defesa do regime de Augusto Pinochet, que governou o Chile entre 1973 e 1990 com mão de ferro, na base de muita violência e supressão de direitos e liberdades. Costumam defender que o Chile sob o jugo do general “prosperou” por ter sido “aberto ao livre mercado”, geralmente sem fazer poréns às tantas violações de Direitos Humanos e às vedações de liberdades individuais naquele tirânico governo.

Também pode ser percebido quando um ultraconservador declara todo o seu ódio ao “tirânico e sanguinário” regime de Fidel e Raúl Castro em Cuba, mas investe palavras (falaciosas, diga-se de passagem) na defesa do golpe de 1964 no Brasil e dos presidentes militares que aqui governaram entre 1964 e 1985.

Por um lado, rejeita os avanços sociais em Cuba na época de Fidel (e sucedidos por Raúl), como a quase erradicação do analfabetismo e o aprimoramento do sistema público de saúde, ao dizer que nenhuma melhoria em direitos sociais justifica o “totalitarismo” cubano. Mas por outro, defende o predatório e insustentável “milagre brasileiro”, as explosões de obras faraônicas e desenvolvimentistas e o culto ao nacionalismo imposto nas escolas brasileiras da época.

Soma isso à defesa de que, durante a ditadura militar brasileira, o Estado “só matava vagabundos” – num frontal desrespeito à memória de milhares de famílias que perderam entes queridos para a tortura – e “trazia segurança aos cidadãos de bem”.

Outro exemplo é quando um jovem “libertário” defende um Estado supermínimo e coloca como antítese “diabólica” a Coreia do Norte, onde há de fato um controle total por parte do Estado sobre os indivíduos. Mas tergiversa diante da possibilidade de, quando o Estado for reduzido à função de reprimir transgressões à propriedade privada, ser fechada toda e qualquer perspectiva de democracia e asseguramento de direitos – e assim abrir-se o caminho para uma dominação absoluta por parte de grandes corporações, sem que a população trabalhadora e pobre tenha condições de reagir vitoriosamente.

O problema da direita perante governos socialistas reais não democráticos, de fato, não é a oposição a regimes autoritários ou à ausência de democracia. Mas sim que os países submetidos a tais regências não são governados pela direita ocidental. É o ressentimento de não estarem onipresentemente nos postos mais altos de poder em todos os países – mesmo no caso do Brasil, onde Dilma Rousseff promove um governo claramente pendido à direita e pró-grandes empresas mas, mesmo assim, é considerada “socialista” por boa parte da direita nacional, simplesmente por ser do PT, um partido que nasceu na esquerda.

Os direitistas adeptos desse “antiautoritarismo” seletivo odeiam com todas as forças os “regimes comunistas” e “bolivarianos”, mas toleram, ou mesmo defendem, governos ditatoriais ou plutocráticos assumidamente pró-capitalistas. Não se importam nem mesmo em contradizer sua bandeira de defesa do Estado Mínimo. Aliás, se for considerado que a redução do Estado defendida na direita brasileira não inclui diminuição do poder do aparelho repressivo estatal – ou seja, das instituições militares, judiciárias e policiais -, sequer existe essa contradição entre Estado Mínimo e aparelhos repressores (públicos e de segurança privada) mais fortes e violentos.

Diante disso, questionemos aquelas pessoas que se assumem de direita e dizem ser “contra o totalitarismo comunista (sic)”. Se elas vierem vociferar contra Cuba, Venezuela e Bolívia, perguntemo-lhes se elas realmente são contra o autoritarismo e os cerceamentos de liberdades individuais ou são simplesmente contra países quaisquer serem regidos por governos de esquerda. Se realmente são contra o autoritarismo, logicamente se colocarão também contra toda e qualquer ditadura, por mais capitalista e livre-mercadista que seja. Caso contrário, estão apenas usando a defesa da democracia como argumento de fachada para algo nada a ver com o apreço pelas liberdades.

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5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Riis

junho 11 2016 Responder

Robson, já é de um tempo que acompanho seus textos, e o que eu percebo deles é sempre um maniqueísmo ingênuo, em que a direita é o mal e a esquerda é o bem. Também é uma crítica generalista, você sempre fala dos “direitistas”, “deles”, mas raramente dá nome aos bois. Você acha mesmo que comentaristas de facebook são os melhores representantes de qualquer vertente de pensamento? Ou você não tá pegando o pior da vertente, no caso o pensamento de direita, e criando um espantalho? Outra coisa, você não acha irresponsável e simplista colocar liberais, conservadores religiosos, ultra-nacionalistas e militaristas tudo no mesmo saco, chamando-os simplesmente como “direita”?
E por fim a questão da indignação seletiva: você não acha que a indignação seletiva não é um problema da “direita”, mas do comportamento humano (“não importa se o juiz roube, contanto que roube pro meu time”)? Por acaso não existe muita gente de esquerda que diz lutar “contra o golpe e pela democracia” ao mesmo tempo que aplaude os atos autoritários e antidemocráticos do governo de Maduro?
ABS

Newton

dezembro 4 2015 Responder

Conheço pessoalmente um ex-técnico da Seleção Brasileira de Beisebol, e o time já jogou em Cuba há alguns anos atrás.

No saguão do hotel, sempre há meninas, em sua maioria adolescentes, que se prostituem, às vezes a troco de…um sabonete! Sim, senhores, a que ponto chega a vida do povo da Ilha de Fidel…

Newton

novembro 25 2015 Responder

Essa polarização esquerda-direita só serve mesmo para fins de discussão.

Para o povo de lugares como Cuba, Venezuela, por exemplo, o que importa mesmo é que a vida lá é uma porcaria.

Alysson

novembro 24 2015 Responder

Exato. A crítica na verdade é feita à governos não capitalistas, não às ditaduras. Da mesma forma que há um culto aos militares, exceto a Fidel e Chaves. Há diversos países pobres no mundo, a grande maioria são capitalistas, havendo uma variável mistura entre democracia, autoritarismo, neoliberalismo, intervencionismo, etc. E as causas da pobreza tbm são várias, sendo que boa parte foi em algum momento, colônia de exploração de nossas atuais grandes potências. Mas no caso de Cuba ou Venezuela, a explicação para suas mazelas é atribuída simplesmente como culpa do regime, haja simplismo! As falsas dicotomias e o simplismo binário (dentro da ausência de senso crítico) impossibilitam qualquer possibilidade de debate com essa turma!

    Robson Fernando de Souza

    novembro 27 2015 Responder

    Pois é, Alysson. Tentativas simplistas e reducionistas de “explicar” o mundo são muito comuns na direita brasileira. Abs

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