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nov15

Capacitismo intelectual e psicofobia contra quem pensa diferente: um mal que não deveria ser admitido
Exemplo de capacitismo intelectual contra quem crê em astrologia

Exemplo de capacitismo intelectual contra quem crê em astrologia

Editado em 12/03/2017 às 16h21

Você presencia ou faz, de vez em quando, insinuações ou acusações explícitas de quem tem determinadas ideias tem “problemas mentais” ou “sofre” de algum tipo de transtorno psiquiátrico?

Se sim, considera esse tipo de insulto algo “normal”, aceitável, “nada de mais”?

Se pensa assim, preciso lhe dizer: isso é uma forma de preconceito e não deve ser admitida.

Convido você a ler este artigo para perceber o quão grave é essa postura e por que cada pessoa tem a obrigação de bani-la dos debates sociopolíticos.

 

Capacitismo e psicofobia

Não ao capacitismo e à psicofobia!

Existem dois tipos de preconceito quando a acusação é relativa a condições, transtornos ou deficiências que envolvem o cérebro.

O primeiro é quando se trata de preconceito contra pessoas que têm algum tipo de deficiência, necessidade especial ou neurodiversidade: o capacitismo. Quando a deficiência em questão é intelectual ou o destrato ocorre em função de a pessoa ofendida possui alguma condição neurodiversa, como síndrome de Asperger ou outra forma de autismo, trata-se do capacitismo intelectual.

O segundo ocorre quando o preconceituoso:

  • Julga alguém que pensa diferente ou comete erros argumentativos como se a pessoa tivesse alguma desordem psiquiátrica, como depressão, síndrome do pânico, esquizofrenia e transtorno obsessivo-compulsivo;
  • Trata de maneira pejorativa e discriminatória quem realmente tem algum transtorno;
  • E/ou “receita” remédios psicofármacos para quem cometeu erros ou desonestidades em sua argumentação.

Nesse caso, estamos diante da psicofobia.

 

Exemplos de capacitismo intelectual e psicofobia

O capacitismo intelectual ocorre, por exemplo, quando o indivíduo:

  • Chama de “oligofrênico” quem acredita em astrologia ou no livre mercado;
  • Xinga de “autista” quem se comporta de maneira agressiva em debates políticos;
  • Faz piadinhas preconceituosas envolvendo reservar vagas de “deficientes” em estacionamentos para pessoas com determinadas posições políticas.

Já a psicofobia vem em ocasiões como:

  • Chamar de “esquizofrênicos” conservadores e neoliberais que frequentemente caem em contradição;
  • Usar indiscriminadamente o termo “psicopata” para designar quem dedica insensibilidade e nega empatia a minorias políticas;
  • “Receitar” rivotril, ritalinao ou algum outro psicofármaco para quem defende “intervenção militar” ou as contrarreformas do governo de Michel Temer.

 

A falta de ética no preconceito capacitista e psicofóbico

Psicofobia é crime!

Associação Brasileira de Psiquiatria

Esses dois preconceitos não são e nunca serão maneiras racionais, inteligentes e tampouco éticas de se refutar as crenças e ideias políticas alheias.

Pelo contrário, é uma maneira covarde de ataque pessoal – a falácia de desqualificação pessoal, mais conhecida como ad hominem –, que, ao invés de refutar a ideia, ataca a pessoa de seu autor ou reprodutor, muitas vezes com violência verbal.

No contexto político brasileiro atual, isso deveria estar claro para todos. Mas infelizmente não parece estar, já que, da esquerda mais libertária à direita mais reacionária, muita gente insiste em desqualificar como “deficientes intelectuais” e/ou pejorar como “transtornados” seus opositores.

Posturas fanáticas e irracionais do outro lado, seja lá qual lado for, não são tratadas como aquilo que são – simplesmente fanáticas e irracionais –, mas sim frutos de deficiência cognitivo-intelectual, desordem psiquiátrica ou condição neurodiversa.

Essa postura, aliás, acaba julgando que pessoas que realmente têm essas características mentais/intelectuais seriam essencialmente antiéticas, fanáticas, brutas, caóticas, violentas, insensíveis e propensas a cometer crimes.

Como fica evidente nisso, é uma maneira tanto de pejorar e ofender pessoas que pensam diferente como de reafirmar, por meio de violência simbólica, que pessoas que realmente tenham tais condições “devem” ser discriminadas, “interditadas”, excluídas do convívio em sociedade.

Isso tem ajudado a acirrar os ânimos dos dois lados, fechá-los mutuamente ao diálogo ou debate e fomentar ainda mais o lamentável clima de intolerância política que paira hoje no Brasil mais do que em outras épocas da Nova República. Não tem convertido indivíduos de direita em indivíduos de esquerda, nem o contrário, mas sim feito pessoas de cada posição se fincarem ainda mais em sua postura ideológica, enxergarem o outro lado como monstruoso, maligno e bárbaro e imbuírem de fanatismo sua convicção política.

 

Considerações finais

Diga não à discriminação!

Se você promove capacitismo e psicofobia ao tratar quem pensa e crê diferente de você, está sendo nada mais que preconceituoso(a), usando de violência autoritária – mesmo que se diga de esquerda – e perdendo a razão em sua postura política, ideológica, social ou filosófica.

Portanto, reveja essa postura o quanto antes. Porque ela não está fazendo bem a ninguém, não está tornando sua ideia “melhor” ou “superior” às dos outros. Pelo contrário, está desqualificando você como defensor(a) racional de suas ideias e crenças, endurecendo contra você quem tem crenças distintas das suas e ajudando a estigmatizar e excluir socialmente quem tem realmente condições não neurotípicas.

imagrs

4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Aspie Consciente

novembro 10 2015 Responder

Robson,

Este seu texto sobre capacitismo intelectual e psicofobia é muito bom. Sem dúvida um dos melhores deste blog.
Ainda assim, gostaria de chamar-lhe a atenção por uma coisa: seria mais apropriado substituir a palavra “doenças”, nas vezes em que ela ocorre no texto, por “condições” ou algo mais apropriado, visto q na medicina psiquiátrica e na psicologia se falam de “transtornos mentais” e não de “doenças mentais”, a não ser em poucos casos, e, além disso, as doenças são transmissíveis/contagiosas, em geral possuem a sua causa (etiologia) “conhecida do grande público” e podem ser controladas ou mesmo curadas, além de causarem alterações drásticas na homeostasia do organismo doente (ex. febre); ao passo que os transtornos mentais são incuráveis na maioria dos casos, NÃO se transmitem/NÃO são contagiosas e possuem, no geral, a sua causa “desconhecida” – e, claro, não causam alterações homeostásicas (transtorno bipolar tem febre como sintoma, por acaso?).
Eu estou acostumado a diferenciar transtornos de síndromes e doenças pq… Eu tenho Transtorno de Asperger, e gosto muito de pesquisar sobre outras condições parecidas com a minha, em especial as que se enquadram no Transtorno do Espectro Autista, do qual o Transtorno de Asperger faz parte. Aliás, gostaria de te propor um desafio: o q acha desses políticos q ofendem seus adversários chamando-os de autistas?
Se quiser, tem os seguintes links abaixo alertando sobre o uso de tais palavras.

http://www.infoescola.com/medicina/diferenca-entre-doenca-e-sindrome/

http://www2.uol.com.br/vyaestelar/doenca_transtorno_sindrome.htm

Aspie Consciente

    Robson Fernando de Souza

    novembro 10 2015 Responder

    Obrigado, Aspie Consciente. Fiz algumas alterações aqui e substituí devidamente o termo “doenças”.

    Quanto aos políticos psicofóbicos, repudio essa postura preconceituosa deles. E digo mais: eu mesmo já fui alvo de cyberbullying psicofóbico no passado (adolescência e juventude pós-adolescente), senti na pele o que é uma pessoa simplesmente imatura ser discriminada e chamada ofensiva e pejorativamente de “autista” – como se autismo fosse um “defeito” e uma “desqualidade”.

    Abs

Newton

novembro 8 2015 Responder

Não sou psiquiatra nem psicólogo, mas em minha leiga opinião, até instintivamente quase todos conseguem diferenciar atos insanos de atos racionais. Da mesma maneira, conseguimos rapidamente perceber, quando alguém está falando, se tal pessoa está sob influência de entorpecentes.

    Stella

    novembro 8 2015 Responder

    Só que é injusto com as pessoas com deficiência. E se, justamente, temos discernimento, que o usemos e paremos com este discurso.

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