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nov15

Como os “defensores da vida e da família” contribuem decisivamente para matar vidas sencientes e destruir famílias
Milhões de famílias, mulheres, pessoas trans e adolescentes são alvos dos conservadores fundamentalistas

Milhões de famílias, mulheres, pessoas trans e adolescentes são alvos dos conservadores fundamentalistas

Aviso de conteúdo traumático: o conteúdo deste texto pode acionar traumas em mulheres sobreviventes de abortos, vítimas de violência sexual, pessoas não heterossexuais e vítimas diversas de intolerância familiar.

Dizem os conservadores que estão “defendendo a vida e a família”, ao respectivamente se colocarem contra o direito da mulher de escolher entre interromper ou manter a gravidez e advogarem pela negação ou revogação das liberdades civis de pessoas não heterossexuais e casais homoafetivos e/ou não monogâmicos. Não sabem que, nessa empreitada contra direitos alheios, estão sendo nada além de cúmplices fundamentais da morte dolorosa de vidas humanas e da destruição de incontáveis famílias – incluindo muitas baseadas no modelo pai-mãe-filhos.

 

Os interesses por trás dessa “defesa”

É notável, em primeiro lugar, que essas pessoas que se atribuem o papel de “defensores” do “direito à vida” e da “instituição familiar” não os defendem de verdade, como algo altruísta e humanitário. O que as move não é compaixão, tampouco a ética defendida por Jesus Cristo nos Evangelhos, mas sim o fundamentalismo evangélico e católico.

Nota-se também que a defesa dessas “causas” é comumente usada como instrumento de promoção da demagogia e da manipulação de massas por parte de pastores que almejam não o Reino dos Céus cristão, mas sim poder mundano – político e econômico – por meio da conquista de votos eleitorais fáceis e da arrecadação de dízimos.

Nessa estratégia demagógica, costumam colocar homossexuais e mulheres feministas como categorias de “inimigas(os) nacionais” a serem “combatidas(os)” pelos “homens e mulheres de Deus”. É uma tática semelhante à que era (e ainda é, vide ultraconservadores) promovida por fascistas, que “elegiam”, por exemplo, comunistas e judeus como os “inimigos da nação” para arrebanhar as multidões e controlá-las pelo fomento ao medo e ao ódio.

 

Como a “defesa da vida” é responsável por agônicas mortes

Não é segredo talvez para ninguém que, por influenciar o Estado a negar às mulheres cis e muitas pessoas trans (homens trans e pessoas com vagina não binárias) o direito ao aborto seguro, os “defensores da vida” induzem-nas a procurar, do alto de seu desespero e da impossibilidade de assumir uma criança e criá-la dignamente, clínicas clandestinas de aborto. E desses locais é comum que saiam mortas – não sem antes terem sofrido dores horríveis – ou com sequelas muito graves – muitas vezes também muito dolorosas.

Isso já é o bastante para sabermos basicamente que a bandeira “pró-vida” desrespeita os direitos humanos à vida e à integridade física e psicológica de milhões de pessoas (principalmente mulheres cis, vítimas diretas da misoginia intrínseca à “defesa da vida”) já formadas, nascidas e crescidas e condena muitas delas a uma morte precedida de agonia. Mas não para por aí, já que outras vidas humanas também morrem de maneira miserável como consequência dessa “luta” conservadora.

Outra consequência fatal dessa “causa” é que, coagidas a levarem adiante até o fim gravidezes indesejadas, muitas gestantes acabam trazendo ao mundo crianças que não terão o mínimo de condições dignas de viver – no âmbito afetivo, psicológico e social.

Não é absurdo presumir que muitas dessas crianças nascerão e crescerão em famílias desestruturadas, castigadas por flagelos como a violência doméstica, o consumo de drogas como álcool e cocaína pelo pai e/ou pela mãe, a penetração do crime na família (como quando o pai é narcotraficante e tem histórico de agredir e matar suas ex-companheiras) e a miséria socioeconômica. Nem o é pensar que esse era um dos vários motivos que outrora motivaram suas mães a terem desejado abortá-las antes que fossem dadas à luz.

Nessas condições, é inviável que essas crianças cresçam saudavelmente. Daí muitas delas acabam caindo no mundo do crime, tornando-se fortes candidatas a serem assassinadas ou por policiais, ou por outros criminosos civis. E antes disso, já se pode perceber que a vida desses jovens, não bastasse esse alto risco de morte violenta, é permeada de sofrimento, traumas e privações.

Em outras palavras, a “defesa da vida” contribui para vidas e mortes dolorosas, não só das mulheres cis e pessoas trans com vagina que morrem em abortos clandestinos, como também das próprias crianças e adolescentes “salvos” do aborto.

É curioso perceber inclusive, ao se falar dessas crianças e adolescentes, que muitos dos autodenominados “defensores do direito à vida”, quando os veem cometer crimes como assaltos, sequestros, tortura, narcotráfico e homicídios, não hesitam em exigir que a polícia os mate. Defendendo que “bandido bom é bandido morto” e “vagabundo tem que morrer” – mesmo quando o bandido “vagabundo” é um jovem que foi “salvo” do aborto no passado –, acabam caindo numa contradição literalmente fatal e anulando sua suposta preocupação com a vida humana.

Tudo isso porque denominações religiosas fundamentalistas acreditam dogmaticamente – e tentam impor essa crença a toda a sociedade – que o embrião, mesmo sendo apenas um conjunto de células sem senciência até várias semanas depois da fecundação (segundo estudos, a senciência só surge entre o quinto e o sétimo mês de gestação), “já é uma vida” e por isso essa “vida” deve ser defendida. Isso mesmo na base da violência misógina – que inclui considerar embriões sem senciência mais dignos de direitos do que meninas e mulheres – e da cassação ou negação de direitos fundamentais e às custas do sofrimento e morte de milhares de vidas sencientes já nascidas e crescidas.

 

Como a “defesa da família” contribui para a destruição de inúmeras famílias

Também não é segredo, hoje em dia, que os “defensores da família” são os maiores inimigos da instituição familiar. Para se ter uma ideia inicial, eles desejam que nada menos que 50,1% de todas as famílias no Brasil (dados do Censo 2010 do IBGE) deixem de ser reconhecidas – ou nunca o sejam – pelo Estado como famílias e, assim, não tenham assegurados os direitos familiares estabelecidos pela legislação brasileira.

Entre essa parcela majoritária, estão, por exemplo, famílias homoafetivas, não monogâmicas (uma mulher e dois homens, duas mulheres e um homem, três mulheres, três homens, uma pessoa não binária e uma mulher e um homem, quatro ou mais pessoas que se amam etc.), mães solteiras com filhos, pais solteiros com filhos, avós que criam netos, tios que criam sobrinhos, irmãos mais velhos que criam irmãos mais novos, primos mais velhos que criam primos mais novos, amigos que dividem o mesmo lar, indivíduos que moram sozinhos etc.

Desejam que todos esses diferentes modelos familiares sejam ilegalizados – e, em alguns casos, até criminalizados –, de modo que só seja permitido pelo Estado um único: marido e esposa, de preferência com um ou mais filhos(as). Isso por motivos de heterossexismo, o ódio e preconceito a pessoas não heterossexuais. Por causa de uma “lei divina” (Levítico 18:22) aplicada em um determinado povo do Oriente Próximo na Antiguidade e aplicada de maneira anacrônica e seletiva, não admitem que casais homoafetivos formem família, adotem ou gerem crianças.

O mais curioso é que essa aplicação de uma lei datada da Idade do Bronze mediterrânea é seletiva. O consumo de bacon e carne suína (Levítico 11:4,7; Deuteronômio 14:8) e o uso de roupas compostas ao mesmo tempo de lã e linho (Deuteronômio 22:11) também são proibidos na mesma lei religiosa antiga, mas não recebem dos fundamentalistas “cristãos” a mesma condenação moral, nem são alvos de tentativas de deputados teocratas de proibi-los por lei. Nem é objeto de intensiva defesa política a pena de morte por apedrejamento, defendida no mesmo código (Levítico 24; Levítico 20:27; Deuteronômio 17:2-5 etc.)

Contudo, essa “defesa” da “família tradicional” não inclui defender também a integridade e harmonia das famílias que correspondam a esse modelo. É comum que “defensores da família” na igreja, como pastores fundamentalistas e padres fanáticos, incitem em seus fiéis ódios como o heterossexismo, a misoginia (especialmente contra feministas), a transfobia, a intolerância contra credos não cristãos, a perseguição política contra pessoas de esquerda ou filiadas ao PT, entre outros.

Como consequência, famílias de pai, mãe e filhos são desmembradas em situações como quando:
– a esposa se declara feminista e o marido machista pede divórcio e a expulsa de casa como represália;
– a filha se declara abertamente uma moça transgênera e consequentemente é expulsa do lar;
– o filho se declara gay e é banido da família e deserdado por isso;
– a esposa se assume ateia ou recém-convertida à umbanda e, por causa disso, é deixada sozinha com as crianças pelo marido evangélico fundamentalista etc.

Em resumo, seja aquelas “não tradicionais” cujos direitos os teocratas lhes querem cassar, seja as “tradicionais” que sacerdotes “pró-família” destroem com seus discursos de incitação ao ódio intolerante, os “defensores da família” são direta ou indiretamente responsáveis pela ilegalidade ou destruição de incontáveis famílias no Brasil e em outros países.

Fica muito claro, quando levamos em consideração todas essas influências perniciosas da militância conservadora e fundamentalista “em defesa da vida e da família”, que ela não fala a verdade ao dizer que defende o direito à vida e a instituição familiar. Pelo contrário, é a maior responsável pela morte de inúmeros seres humanos – principalmente mulheres – e pela desagregação violenta de incontáveis famílias. Isso é o bastante para que, com conhecimento de causa, peitemos o conservadorismo “pró-vida” e “pró-família”, que nada mais traz à sociedade do que violência, ódio, intolerância, autoritarismo, privações, sofrimento e morte.

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2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Robert Palmer

dezembro 19 2015 Responder

Não vejo as fontes pelos quais o autor deste texto acusa os tais “fundamentalistas cristãos”. Se ele não leu o Código Civil de 2002, então não sabe que para deserdar uma pessoa, somente se esta cometer algum crime contra os demais herdeiros (Código Civil, artigos 1814, 1962 e 1963).
Caso a esposa do Cristão converta-se a uma fé diferente da dele, ou caso contrários, ambos não poderão se divorciar, conforme “MANDA” o Nosso Senhor Jesus Cristo (Lucas 16: 18 e Marcos 6:18).
Se a esposa de um cristão torna-se feminista, este também não poderá deixá-la, uma vez que segundo NSJC, o divórcio, somente por adultério, e nenhum outro motivo.
Caso o filho do cristão se descubra como gay ou lésbica, seja lá o que for, este baseado nos conceitos bíblicos e sabendo que este é menor de idade, irá orientá-lo a ter uma mudança de postura, pois a bíblia condena o Homossexualismo, mas manda amar o homossexual como Nosso Pai nos ama. Mas independentemente da orientação sexual, e baseado nas legislações vigentes, iniciada a maioridade civil, extingue-se a obrigação dos pais em sustentar os filhos, independente de qualquer orientação.
Por favor, quando for utilizar argumentos para atacar os cristãos, use a Bíblia Sagrada, e não as palavras de pastores midiáticos; porque este são falhos e humanos. Mas NSJC, felizmente não é.

Newton

novembro 15 2015 Responder

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra…fundamentalismos existe em todos os lados e não é privilégio nem de conservadores e nem de progressistas.

Quer saber minha opinião? Que cada um faça o que quiser, assuma a responsabilidade e as consequências, e não encha o saco.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo