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nov15

Como os programas policialescos evidenciam à sua própria audiência pró-armamentista que armar civis não trará segurança
Algumas das evidências de que o armamento civil é uma cilada vêm de onde menos se espera: os programas policialescos

Algumas das evidências de que o armamento civil é uma cilada vêm de onde menos se espera: os programas policialescos

É de se imaginar que muitos autodenominados “cidadãos de bem” defensores da revogação do Estatuto do Desarmamento assistem aos programas policialescos e são até entusiastas destes. Tanto é que os usam como fontes recorrentes de “provas” de que o uso civil de armas de fogo deveria ser legalizado. Mas não percebem que estão caindo em contradição com o próprio conteúdo desses programas, que deixam claro como a reivindicação em questão é uma cilada.

Muitos não percebem, mas são comuns, nesse tipo de programa, denúncias sobre criminosos que, até pouco tempo atrás, estavam acima de suspeita perante a maioria das pessoas de seu círculo social. Em outras palavras, eram considerados “cidadãos de bem”. Isso até que violentassem e matassem suas (ex-)esposas, noivas ou namoradas, ou então outras pessoas em ocasiões como brigas de bar e de trânsito.

Também têm sido comuns nesses programas os relatos de homicídios contra travestis e outras mulheres trans, geralmente por motivos transfóbicos e/ou ligados à maneira como os assassinos lidam com a prostituição de mulheres. Seria ingenuidade pressupor que todos esses assassinatos teriam a autoria de bandidos veteranos em criminalidade.

É de uma maneira capenga que esses tipos de crime, vindos de “ex-cidadãos de bem”, são denunciados. Isso porque se foca predominante ou exclusivamente ocorrências em bairros pobres, evita-se denunciar com alarde crimes cometidos (ou com suspeitas de o terem sido) por policiais e deixa-se a entender que criminosos já nasceram predispostos à violência. Mas ainda assim esses programas mostram, de certa forma, que “cidadãos de bem” não são pessoas incorruptíveis e imaculadas.

Isso, a despeito das impressões de quem ao mesmo tempo defende os programas policialescos e o armamento civil, mostra que armar pessoas consideradas “de bem” – principalmente homens – não só será ineficaz em controlar os índices de violência. Também irá multiplicar os relatos de crimes cometidos por pessoas que se acreditava que não eram bandidas.

Isso poderá não “só” decorrer de casos de feminicídio de mulheres cis e feminicídio transfóbico de mulheres trans, como também impulsionar crimes motivados por intolerâncias diversas, como heterossexismo, intolerância religiosa, racismo, ódio aos pobres e também fanatismo político.

Em relação a esse último caso de intolerância, vale lembrar que têm aparecido muitos “cidadãos de bem” dispostos a assassinar pessoas identificáveis como de esquerda ou filiadas ao PT. Daí não é absurdo crer que muitas discussões sobre política (direita antipetista vs. PT; direita vs. esquerda; conservadores vs. progressistas etc.) resultarão em mortes, por parte do lado mais fanático. E a tradição brasileira de apologia à violência como meio de “solucionar” problemas influencia decisivamente na probabilidade desses crimes serem cometidos.

Se os defensores da liberação do armamento civil querem encontrar evidências de que sua reivindicação é perigosa e nada favorecedora da segurança e da paz, que então assistam, com mais atenção, aos programas que muitos deles próprios admiram. Perceberão inclusive que não existe nenhuma dicotomia, na sociedade, entre “pessoas de bem” incorruptíveis e bandidos “nascidos para o mal”.

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