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O crime ambiental das barragens de Mariana/MG como sintoma de uma ordem política e econômica predatória sem futuro
Vila de Bento Rodrigues, destruída pela catástrofe ambiental criminosamente proporcionada por empresas de mineração. Foto: reprodução

Vila de Bento Rodrigues, destruída pela catástrofe ambiental criminosamente proporcionada por empresas de mineração. Foto: reprodução

Tem sido muito difundido que a tragédia do rompimento das barragens de rejeitos líquidos em Mariana/MG, que destruiu a comunidade de Bento Rodrigues, foi na verdade um crime ambiental cometido em conjunto pela Vale e pela australiana BHP, acionistas da empresa de mineração Samarco. E esse crime está sendo sistematicamente acobertado pelos políticos de situação e oposição (de direita em ambos os lados), eleitos graças a campanhas financiadas pela Vale. Esse desastre é um sintoma de uma economia predatória e cancerosa que, por mais que controle a política, não tem muito futuro pela frente.

O rompimento das barreiras, além de ter destruído Bento Rodrigues e enchido o Rio Doce de lama tóxica, ameaça ser piorado ainda mais com a possível iminência de uma terceira barragem também de rejeitos de mineração se romper. Matou incontáveis vidas, incluindo todo o ecossistema aquático e marginal (animais, plantas e algas) do rio mencionado e também seres humanos. E a lama vai desaguar no Oceano Atlântico do Espírito Santo, contaminando também o ecossistema marinho local e também praias do litoral capixaba.

O crime ambiental havia sido iniciado já há vários anos, com a atitude das empresas comandantes da Samarco de lançar detritos mineracionais em represas sem tratamento e purificação da água contaminada. A catástrofe propriamente dita estava prenunciada pelo menos desde 2013, quando foi constatado em um estudo que as barragens estavam sob risco de rompimento. E nada foi feito, tendo a criminosa mistura de poluição ambiental com negligência de segurança culminado no desastre.

O caso já é considerado a pior catástrofe ecológica instantânea da linha do tempo histórica do movimento ambientalista brasileiro. E tem sido comparado a outras catástrofes no mundo, como o grande vazamento de petróleo do navio Exxon Valdez no litoral do Alasca, EUA, em 1989, e o colapso da usina nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011. (Nota: falo de “catástrofe ecológica instantânea” por ter sido algo pontual, e não um processo histórico de criminalidade ambiental como a secular destruição de quase toda a Mata Atlântica e a Mata de Araucária, metade do Cerrado e cerca de 20% da extensão da Floresta Amazônica.)

A imperdoável irresponsabilidade ambiental de Vale e BHP se soma à cumplicidade de políticos desde o PT (vide a presidenta Dilma, que reluta em exigir punição às empresas, e o governador mineiro Pimentel, que chegou a dar declaração sobre a tragédia de dentro da sede da Samarco) até o PSDB (vide Aécio Neves dizendo que “a hora não é de procurar culpados”). É fácil diagnosticar o porquê de tanta tergiversação e “rabo preso”: ambos os partidos, assim como vários outros, receberam vultosas doações da Vale nas campanhas eleitorais do ano passado. E não querem “perder a boquinha” nas próximas eleições, caso o financiamento empresarial de partidos e candidaturas continue legal ou ilegalmente.

A combinação de delinquência ambiental com cumplicidade política representa um sintoma de um sistema doente. Esse sistema mescla uma economia predatória, orientada amoralmente pelo lucro, e não pelas necessidades e demandas éticas humanas, com um status quo político comprado por grandes empresas, e regido por governantes e parlamentares que atuam em causa própria sem representar genuinamente a população e seus interesses.

Pode-se dizer que essa economia sem ética não tem muito futuro pela frente. Cedo ou tarde, caso a sociedade não acorde e reaja a tempo, ela irá desmoronar em sua própria insustentabilidade. Sua dependência crescente de recursos naturais esgotáveis – incluindo também a água e a madeira, consideradas renováveis mas não inesgotáveis –, sua tendência ao agravamento da concentração de renda e riquezas, seus incentivos ao consumismo desenfreado, seu exercício de pleno controle sobre aqueles que deveriam criar e executar as leis ambientais, suas iniciativas de tornar a política no Brasil cada vez menos democrática, tudo isso se soma e está encaminhando a biosfera do território brasileiro e a própria economia a despencar na cachoeira do rio caudaloso da insustentabilidade.

Essa queda final quebrará não só as classes populares e médias, como também as próprias grandes empresas, que não podem criar dinheiro nem recursos naturais do nada. E, claro, promoverá uma escalada de mortes e mais mortes de seres humanos e não humanos, com novos desastres ambientais, epidemias, inundações, massificação da miséria, perseguição social e política pelo aparelho armado do Estado, violência civil urbana e rural etc.

O crime ambiental das empresas cabeças da Samarco em Mariana e suas consequências catastróficas parecem estar acordando a sociedade brasileira, em particular os ambientalistas, cujo movimento no Brasil aparenta ter perdido aquela força que tinha nas décadas de 80 e 90. Fica claro que a hora de reagir contra essa ordem política e econômica insustentável, fadada a explodir em ruínas e levar junto a população humana e não humana do Brasil e talvez do mundo como um todo.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

André

novembro 28 2015 Responder

Boa tarde, maior cantador do Vale do Rio Doce faz homenagem as vítimas de Mariana e a seca do Rio Doce em novo trabalho.

https://www.youtube.com/watch?v=0YyE_5yoQUg

https://www.youtube.com/watch?v=A4t4NbU0iNs

Claudia

novembro 27 2015 Responder

Concordo em gênero, número e grau!
Excelente texto e ponto de vista.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 27 2015 Responder

    Obrigado, Claudia =) Abs

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