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nov15

Danielle Bandeira: A violência simbólica em entrevista a uma mulher em rádio

 

Ariana Grande recebendo pergunta fútil de apresentadores em programa de rádio. O artigo abaixo fala sobre a violência simbólica de quando machistas entrevistam mulheres lhes dirigindo perguntas sobre futilidades, cortando-as o tempo todo e tentando reafirmar sua frágil masculinidade perante seus pares homens.

Cantora Ariana Grande recebendo pergunta fútil de apresentadores em programa de rádio. O artigo abaixo fala sobre a violência simbólica de quando machistas entrevistam mulheres lhes dirigindo perguntas infantilizadas, cortando-as o tempo todo e tentando reafirmar sua frágil masculinidade perante seus pares homens.

por Danielle Bandeira

Clique aqui e assista ao vídeo comentado por Danielle. Aviso: conteúdo machista.

Esse vídeo me deu vontade de escrever um ‘textão’. Então vamos lá.

Pela minha perspectiva, é mais a violência simbólica do cotidiano do que a violência física (sem diminuir sua relevância, ok?) que constitui, para aquelas que ainda são consideradas pessoas de segunda classe, a barreira mais difícil de transpor, porque é ela que vai manter as coisas como estão e que vai alimentar a farsa da igualdade social.

A violência simbólica é quase invisível, tamanha sua sutileza e naturalização, e está incorporada às performances que reproduzimos, naquilo que aprendemos e repetimos daqueles que admiramos e que gostaríamos de ser.

Ela está nos rituais sociais da cultura dominante que interiorizamos e que não nos percebemos como vítimas, porque os consideramos como naturais e inevitáveis: “são apenas coisas da vida que temos que aceitar”.

Mas também está naquela ridicularização ou naquela objetificação que reclamamos que nos incomoda, mas que o outro minimiza dizendo que é um exagero nosso ou que existem coisas mais importantes com as quais devemos nos preocupar. Porque, realmente, para ele, aquilo não é um problema que lhe afete e com o qual ele tem que lidar.

Quem pratica a violência simbólica pode enxergá-la como algo banal e ‘divertido’, algo que a outra pessoa deve “levar na esportiva”, a fim de que não lhe estrague seu momento de prazer, que é a única coisa que importa. Ele só enxerga sua própria perspectiva de diversão e parece incapaz de deslocar-se de si mesmo, porque se o fizesse constataria que grande fardo é ter que lidar com as pequenas violências que se repetem o tempo todo e ainda receber exigências de bom humor.

O prazer de um em troca do desprazer do outro é uma forma de poder que não se nomeia. É um poder que dissimula as relações de força, que é autoritário e conivente, já dizia Bourdieu.

No contexto do vídeo, considero que a violência simbólica aparece nas seguintes situações:

. Nas perguntas sobre amenidades (maquiagem ou celular? quais seus emojis favoritos?) direcionadas para uma atriz e cantora (e mesmo se fosse para qualquer outra mulher sem profissão formal o problema permanece). Pense em quantas coisas interessantes ela poderia falar sobre sua carreira, mas parece que essas coisas não interessam aos entrevistadores, que se preocupam mais em tratá-la da forma mais infantilizada possível. Será que esses tipos de perguntas também seriam feitas caso o entrevistado fosse um homem? Parece que as perguntas escolhidas dizem mais sobre os entrevistadores do que sobre a entrevistada, não é mesmo?

. Na interrupção constante da fala da moça por vários caras ao mesmo tempo, de forma que ela não consiga expor seu pensamento por completo e fique confusa pela quantidade de vozes atravessadas. Ela está reclamando do machismo dos entrevistadores, então é conveniente que não a deixem terminar de falar.

. Na afirmação constante da masculinidade e heterossexualidade dos homens do vídeo perante seus pares, sempre como negação do feminino (lembrando que esse feminino é um construto social) que vem representado pelos ‘emojis fofos’ e pela suposta dependência da moça por celulares e maquiagens (um estereótipo da mulher moderna), essas coisas de ‘mulherzinha’, sem valor para o homem hétero comum, que valoriza signos agressivos e que representem algum tipo de poder simbólico sobre o outro, como o emoji mostrando o ‘dedo do meio’.

. No tom descontraído e ‘bem humorado’ da entrevista, que quase implora para que minimizemos o conteúdo dos discursos e tratemos a situação como uma brincadeira sadia entre os envolvidos, naturalizando a relação assimétrica de poder que se impõe.

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