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nov15

“Defesa da vida”: também pode chamar de manifestação de misoginia e indiferença a vidas humanas

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Aviso de conteúdo traumático: contém referências à opressão machista contra mulheres. O conteúdo do texto pode ser muito pesado para mulheres vítimas traumatizadas de violência, principalmente para sobreviventes de abortos clandestinos e violência sexual.

Muitos homens opõem-se fortemente ao direito das mulheres (e dos homens trans que não removeram o útero) de escolher entre abortar e continuar a gravidez. Dizem, como pretexto dessa oposição, que estão “defendendo a vida” e “impedindo o assassinato (sic) de crianças (sic)”. Sua alegação, porém, não tem nada de humanista. Pelo contrário, é uma manifestação de misoginia e esconde uma completa indiferença e falta de compaixão por vidas já nascidas e crescidas.

São muito fortes os indícios de que o homem cis que adere à oposição contra o reconhecimento legal desse direito é necessariamente um misógino. E seu “humanitarismo defensor do direito à vida” nada mais é do que uma farsa que, na verdade, mata vidas sencientes – de mulheres e de crianças filhas de mães que optaram por dar à luz ou mesmo desistiram de abortar – ou as larga para morrer na miséria.

Um dos aspectos misóginos mais evidentes na argumentação dos “pró-vida” é que eles, percebendo ou não, tratam a mulher gestante como se fosse um mero recipiente, um contêiner, de um embrião ou feto. Ela nada mais lhes é do que uma coisa utilitária, um vaso feito com músculos, ossos, gordura e órgãos e desprovido de vontade própria, razão e emoções, cuja “função” é carregar um nascituro até que os nove meses passem e este seja tirado de dentro dela.

Exemplo de imagem misógina feita por “defensores da vida”, tratando a mulher como se fosse um mero contêiner com um bebê dentro. Isso sem falar em outros graves problemas, como desumanizar a mulher (que aparece sem rosto) e usar a falácia do espantalho de que “as feministas querem matar bebês já desenvolvidos e prestes a nascer”.

Exemplo de imagem misógina feita por “defensores da vida”, tratando a mulher como se fosse um mero contêiner com um bebê dentro. Isso sem falar em outros graves problemas, como desumanizar a mulher (que aparece sem rosto) e usar a falácia do espantalho de que “as feministas querem matar bebês já desenvolvidos e prestes a nascer”.

Outro aspecto da “defesa da vida” que exibe um grave desprezo à mulher é a total falta de responsabilidade social por parte de seus adeptos. Seja as mulheres que, por pressão deles ou decisão realmente voluntária, desistiram de abortar, seja aquelas que desejam sim dar à luz e ter a criança e precisam de uma mão amiga, nenhuma recebe assistência social, moral, financeira ou mesmo espiritual dos antiaborto.

Eu desafio, por meio deste texto, que os opositores do direito da mulher à escolha mostrem, na caixa de comentários desta postagem, existir campanhas de acolhimento, mantidas pelos autodenominados “defensores da vida”, a mulheres que se enquadrem nas duas categorias acima mencionadas. Quero muito que eles mostrem, assim, que “defender a vida” implica apoiar – em todos os sentidos possíveis – mulheres que optaram por manter a gravidez e dar à luz. Em outras palavras, que provem que essa posição realmente resulta em defender a vida das gestantes que querem ter filhos e dos desejados e amados nascituros delas.

Faço esse desafio tendo em vista que os que se dizem “pró-vida” restringem sua militância a coagir – por meio de assédio moral – mulheres acometidas por gravidez indesejada, incluindo vítimas de estupro, a desistir de abortar. Não querem saber se a decisão forçada de manter a gestação e dar à luz resultará em indescritível sofrimento para elas e farão nascer crianças que não terão o mínimo de condição psicossocial familiar de ter uma vida digna.

Uma terceira característica inerentemente misógina dessa militância conservadora é negar tratar as mulheres como sujeitos de direito. Não só lhes negam a liberdade civil de escolher entre dar continuidade à gravidez e interrompê-la, como também rejeitam respeitar os próprios direitos das gestantes que querem gerar seus bebês.

Essa segunda forma de negação de direitos é percebida na já citada virada de costas às mulheres que querem de bom grado continuar a gestação e àquelas que desistiram de abortar. A depender dos “pró-vidas”, elas não contarão com nenhum direito social, nem mesmo com assistência filantrópica das igrejas que dizem “defender” os embriões e fetos – já que, salvo se o desafio feito acima for respondido, não se conhece nenhum trabalho eclesiástico que consista nisso.

A condução da gravidez até o fim e a dedicação de cuidado à criança “salva do aborto”, segundo os “pró-vidas”, nada mais são do que um dever imposto a elas. É algo que eles impõem que seja cumprido mesmo com insuportáveis sacrifícios que poderão, em última análise, custar a integridade psicológica ou mesmo a vida da mulher. E eles nada farão para tornar esse “dever” minimamente suportável – considerando-se que obrigar uma mulher que quer abortar a manter a gravidez e cuidar da criança é algo insuportavelmente doloroso para ela.

Daí chega-se no quarto aspecto misógino da falsa “defesa da vida” empreendida pelos conservadores. É a total falta de empatia pelo sofrimento das mulheres que são proibidas de abortar e coagidas a não recorrer ao aborto clandestino.

Não importa aos “defensores do direito (sic) à vida” que elas considerem psicológica, social e economicamente insuportável e muito dolorosa a possibilidade de levar adiante a gestação. Não lhes atiça a sensibilidade o desespero das vítimas de estupro que são forçadas a não abortar. Nem o das moças que foram “sorteadas” pela “loteria do azar” da falha dos métodos contraceptivos.

Nem o sofrimento das mulheres que estão com gravidez de alto risco e podem morrer – e “levar junto” o feto – se levarem a gravidez até o fim. Nem o drama das mulheres gestantes de fetos anencéfalos que, mesmo sabendo que o bebê morrerá logo depois de nascer, são coagidas a permanecer carregando no útero um ser condenado a não viver e por isso sofrem horrores por tal fardo. Nem qualquer outro caso de mulher cuja gravidez foi não uma “dádiva de Deus”, mas sim um motivo de sofrimento excruciante.

Mesmo com tudo isso, os “defensores da vida”, por serem misóginos sem empatia, não se sensibilizam. E querem forçar todas essas mulheres a levarem a gravidez adiante sob pena de prisão e/ou estigmatização moral pública, mesmo que morram em agonia por causa do nascituro.

Fazem isso tendo em mente a quinta característica da misoginia intrínseca dessa falsa “defesa da vida”: conceder aos homens, principalmente aqueles dotados de poder político e/ou religioso, a propriedade sobre os corpos das mulheres. Em outras palavras, submeter o útero delas à vontade de homens misóginos que querem mais é que elas sofram o inferno, para que obrigatoriamente (no caso das que não conseguiram escapar de ter uma gravidez indesejada) tragam mais seres humanos ao mundo – por mais que estes não tenham condições de viver com dignidade e integridade e sequer recebam, depois de nascidos, o apoio social dos “defensores da vida”.

Tendo seus corpos submetidos ao controle masculino, elas têm negado o direito de decidir se querem ou não ser mães naquele momento de suas vidas. Quem decide pelo seu útero não são elas próprias, mas sim homens machistas detentores de poder. E isso não pode ser outra coisa por parte desses homens, que não a mais cruel e opressora misoginia.

Ao tratar mulheres como se estivessem sob seu poder, os homens opositores do direito da mulher ao aborto incorrem na sexta característica que faz deles misóginos: tratar mulheres já nascidas e crescidas como seres moralmente inferiores a embriões que sequer são sencientes.

É muito escancarado o interesse deles, motivado por ódio às mulheres e fundamentalismo religioso, de conceder direitos a embriões que ainda são nada mais do que cachos de células fracamente diferenciadas (vide excrescências como o “Estatuto do Nascituro”) e eliminar para sempre qualquer possibilidade de a mulher interromper a gravidez – mesmo em casos que sejam para salvar a vida dela.

Ao colocarem as mulheres como legalmente inferiores a seres não sencientes – que, assim sendo, não vão sentir qualquer dor, nem sofrimento, nem emoção, caso sejam abortados –, os “pró-vidas” mostram o quanto as desconsideram moralmente e usam a falsa “defesa da vida” como um disfarce para seu ódio contra elas.

Esse ódio que inferioriza as mulheres tem como última consequência o sétimo aspecto da misoginia intrínseca à “defesa do direito (sic) à vida”: a indiferença perante a morte das mulheres vítimas de aborto clandestino. Em sua sanha odienta de reconhecer seres sem sistema nervoso formado como mais merecedores de direitos do que mulheres e meninas grávidas, eles fazem com que a perniciosa realidade das milhares de mortes por aborto clandestino permaneça e leve embora muitas vidas sencientes humanas que seriam salvas caso o direito ao aborto fosse integralmente reconhecido pela lei.

Insistem em manter de pé uma legislação arcaica que promove a morte tanto de mulheres quanto de nascituros sem senciência e crianças já nascidas condenadas a uma vida sem condições socioeconômicas e familiares mínimas de viver com dignidade. E curiosamente muitos dos mesmos homens que dizem, por meio da perseguição às mulheres, “defender a vida” irão pedir que a polícia mate a tiros muitos dos filhos “salvos do aborto” daquelas que um dia foram coagidas a não os abortar, caso eles sejam pegos, por exemplo, traficando drogas ilegais e dando tiros em viaturas policiais.

Ou seja, sua “defesa da vida” é causadora direta ou indireta de milhares de mortes de mulheres, meninas e jovens rapazes por ano. Entre optar por uma legislação atualizada que reconheça o aborto como um direito e resulte apenas no descarte de embriões não sencientes (que, segundo muitos argumentam, sequer podem ser considerados seres propriamente vivos) e uma obsoleta e não laica que provoque essas mencionadas milhares de mortes, os misóginos optaram pela segunda, sem nenhuma razão ética válida em vista.

Considerando essas sete características, mais outras que eu possa não ter lembrado ao escrever este artigo, é perfeitamente possível perceber que a “defesa da vida”, longe de defender vidas de mulheres, nascituros e crianças, é nada além de misoginia, do exercício do ódio às mulheres por parte de homens, principalmente daqueles que detêm o poder sobre a religião e as leis que regem o Estado. Portanto, se você é homem e acredita que as mulheres não devem ter o direito de decidir sobre seus próprios corpos e optar por interromper ou continuar a gestação, você não está defendendo vida nenhuma, mas sim simplesmente apoiando ou promovendo discurso de ódio, opressão e morte contra a mulher.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Alex

novembro 2 2015 Responder

“Eu desafio, por meio deste texto, que os opositores do direito da mulher à escolha mostrem, na caixa de comentários desta postagem, existir campanhas de acolhimento, mantidas pelos autodenominados “defensores da vida”, a mulheres que se enquadrem nas duas categorias acima mencionadas.”

A Igreja católica (e aposto que as outras) tem muitos centros de apoio psicológico e social para ajudar a mulher que está em risco de fazer aborto, vou deixar dois links abaixo de grupos desses.

http://www.semprefamilia.com.br/salvadores-de-bebes/

http://www.casadagestanteprovida.com.br/?page_id=29

Newton

novembro 1 2015 Responder

Por que as mulheres abortam?

Pró-escolha desesperado

novembro 1 2015 Responder

Realmente, se tem uma contradição enorme é ser a favor da pena de morte, da redução da maioridade penal, do que seja, e ser CONTRA o aborto.
Uma informação que você deve ter em conta: o autor do “Estatuto do Nascituro”, o qual, não só você, mas eu, também chamaríamos de “excrescência”, é espírita, não é evangélico. Creio que ele aparentemente não estaria tão preocupado assim em fazer o bem ao ter criado esta lei tosca, torpe e estúpida. Aliás, é uma pena que os espíritas não estejam tão interessados em fazer o bem quando aderem a uma monstruosidade como essa. Põem tudo na conta de Deus.
O que você acha disso?

Pró-Escolha Deseperado

    Robson Fernando de Souza

    novembro 1 2015 Responder

    Eu acho horrível que pessoas de religiões que se propõem a pregar a tolerância e o amor ao próximo serem tão misóginas a ponto de criar ou apoiar um projeto de lei desse que nada mais visa do que a cultura do ódio às mulheres, da dominação patriarcal e da maternidade compulsória.

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