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nov15

O desserviço dos defensores da “extinção humana voluntária” à causa ambientalista
'Movimento de Extinção Humana Voluntária: vivamos longamente e desapareçamos (como espécie)'

‘Movimento de Extinção Humana Voluntária: vivamos longamente e desapareçamos (como espécie)’ – um dos movimentos mais adversos e potencialmente desastrosos para o ambientalismo sério existentes

Existe em alguns países um movimento que defende a extinção voluntária da espécie humana, por meio da interrupção da natalidade. Ou seja, nenhuma criança nasceria mais, e assim a humanidade diminuiria pouco a pouco até o último ser humano falecer e sua espécie desaparecer para sempre da Terra. A proposta diz ter propósitos “ambientalistas” de parar os impactos ambientais das atividades humanas e deixar a Natureza revertê-los ao longo dos séculos, mas, quando analisada com o devido senso crítico político, notamos que ela nada é além de um desserviço e um desastre para o próprio ambientalismo no mundo.

Percebe-se, por meio de conteúdos como a entrevista do mentor do chamado Voluntary Human Extinction Movement (VHEMT, Movimento de Extinção Humana Voluntária) à equipe da revista brasileira Galileu, que a adesão ou simpatia à proposta da “extinção humana voluntária” tem dois fundamentos: a misantropia e o fatalismo político.

A misantropia é muito evidente, quando se defende que a humanidade desapareça por completo, ao invés de buscar sua redenção social, colocando-a como uma espécie “odiosa” perante a Natureza, considerando-a um “câncer” ou “vírus” a infectar a biosfera e ser eliminado e fomentando o total desamor pelos seres humanos enquanto espécie. E o fatalismo aparece quando os adeptos da ideia creem que a natureza humana é irremediavelmente destruidora, ambientalmente cruel em essência, e que não há “nenhuma” solução para os problemas ambientais, mesmo aqueles de claros alicerces sociais, políticos e econômicos, fora a aniquilação voluntária, pacífica e gradual dos seres humanos.

Comete-se também o grave erro de considerar o ser humano um ser “não natural”, um “corpo estranho” na Natureza. Traz a crença equivocada – e extremamente perigosa – de que os humanos não são seres da Natureza, filhos de Gaia. Separa violentamente sociedade/cultura e natureza. Trata-as como se fossem polos opostos e inimigos mútuos numa dicotomia maniqueísta. E nega categoricamente a possibilidade de convivência harmônica (na medida do possível) e sustentável entre ambas.

Curiosa e contraditoriamente, é a mesma crença sustentada por antropocêntricos envolvidos no cunhamento de ideologias antiecológicas – só que com sinal invertido, apontando para o preconceito misantrópico, que inferioriza o ser humano como ser sem dignidade e abaixo do merecimento de integrar a biosfera. E, nesse sentido, nega e tenta retirar dos seres humanos o direito à comunhão com a Natureza, cada vez mais reconhecido como um dos mais fundamentais Direitos Humanos.

O movimento e seus simpatizantes aparentam ter boas intenções. Mas estão promovendo um grave atentado aos princípios éticos e políticos do ambientalismo enquanto amálgama de movimentos sociais globais. O que estão fazendo, ao defender que “não há solução” para redimir ambientalmente a espécie humana, é mandar aos ambientalistas sérios uma mensagem, em alto e bom som, de que o trabalho deles – de transformar pouco a pouco a relação conflituosa entre as sociedades e a Natureza não humana – é “vão e inútil” e que a falta de ética ecológica é algo inerente ao ser humano, logo imutável e insolúvel.

Quem se beneficia com crenças fatalistas e antipolíticas como essa são, adivinhemos só, aquelas pessoas diretamente interessadas na degradação progressiva do meio ambiente por meio do capitalismo. Incluem-se nessa categoria grandes empresários, latifundiários, políticos apadrinhados por financiadores empresariais e indivíduos ultraconservadores que acreditam que o ambientalismo é uma forma de “marxismo cultural” e uma parte da “agenda esquerdista de destruição da civilização ocidental”.

É muito interessante para eles que um número cada vez maior de pessoas aceite como “parte da natureza humana” e “irreversível” o relacionamento não saudável com o meio ambiente, que “não tem jeito” para a humanidade fora cavar seu próprio desaparecimento. É assim que permanecem intocados costumes e atitudes como o consumismo, o racismo ambiental, o uso da política e do poder público para o atendimento a interesses privados, o desmantelamento da legislação ambiental etc.

Quando o indivíduo acredita que a humanidade, se me permitem a rima, “não tem solução fora a extinção”, ele está negando reconhecer a si mesmo como agente político, agente de mudanças, e também desacreditando na democracia. Afinal, se o ser humano é inerentemente cruel, egoísta, predatório e antiecológico, para que então lutar em prol de uma sociedade mais justa, sustentável, inclusiva e solidária? Então, para quê democracia?

Com tudo isso, o tiro sai pela culatra. Aquelas pessoas que acham que estão fazendo bem para o meio ambiente divulgando a ideia da “extinção humana voluntária” estão na verdade deslegitimando aquelas pessoas que o defendem com todas as forças. E também desrespeitando gravemente a memória de todos aqueles que morreram lutando por essa causa, como Chico Mendes, Dorothy Stang e as centenas de outros ambientalistas, indígenas, camponeses, quilombolas, ativistas sociais etc. que são assassinados por motivos políticos em todo o mundo todos os anos.

E daí, ao deslegitimar e (tentar) enfraquecer os ecologistas sérios, abrem as portas para aquelas pessoas que, já mencionadas, têm interesses políticos e econômicos fortes no enfraquecimento do ambientalismo. Daí o que acontece não é nenhuma redenção para a Natureza não humana, mas sim o recrudescimento da sua gradual degradação.

Se você simpatiza com a “extinção humana voluntária” e o movimento VHEMT, é hora de repensar isso. Ideologias sustentadas em misantropia e fatalismo nada têm de oferecer de construtivo para aquelas pessoas que realmente querem um meio ambiente restaurado, preservado e protegido e adotam esse desejo como uma bandeira política. Achar que o desaparecimento voluntário da espécie humana vai “dar uma chance à Natureza” é deslegitimar e desrespeitar quem luta por ela, despolitizar o amor ao meio ambiente e, assim, beneficiar ninguém além dos mais cruéis destruidores dos ecossistemas no mundo.

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