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nov15

As falácias da frase “Nem de esquerda, nem de direita, eu quero que o Brasil vá para frente”
Exemplo do uso da falaciosa frase "Nem de esquerda, nem de direita, eu quero que o Brasil vá para frente"

Exemplo do uso da falaciosa frase “Nem de esquerda, nem de direita, eu quero que o Brasil vá para frente”

O senso comum de muitas pessoas acredita que seria melhor o Brasil não ir “nem à esquerda nem à direita, mas sim para frente”, acreditando presumivelmente que defender ideologias políticas em geral acarretariam “um atraso” e discuti-las seria “perda de tempo”. Mas não sabem que essa crença é multiplamente falaciosa e parte de vários pressupostos falsos.

Ela cai nas seguintes falácias:
a) falácia do espantalho (atribuir ao ponto de vista opositor um ponto fraco que na verdade não existe nele), ao argumentar que pessoas de esquerda e de direita defenderiam um “desvio” do país do caminho do progresso;
b) equívoco (manipular o significado e o contexto de uso de uma palavra, quando ela no dicionário significa A e B e naquele contexto específico ela significa B, mas o argumentador falacioso trata-a como se estivesse representando A), ao atribuir às palavras “esquerda” e “direita” um sentido de direção espacial – mesmo metaforicamente falando. Descarta o sentido oriundo da origem do uso político dos termos – na França pré-revolucionária do século 18, quando os progressistas na assembleia se sentavam à esquerda do rei e os conservadores, à direita dele;
c) petição de princípio (partir de um pressuposto falso ou duvidoso como se ele fosse obviamente verdadeiro), por causa de suas várias pressuposições falsas descritas a seguir.

O primeiro falso pressuposto é crer que as ideologias dos dois lados seriam contra toda e qualquer forma de progresso (social, político-democrático, econômico, ambiental, ético-moral etc.), por serem “desvios lineares” à esquerda ou à direita. O segundo é que o sentido do termo “progresso” não dependeria de orientação ideológica, seja lá em que contexto esteja sendo usado. É como se dispensasse ser defendido por, por exemplo, liberais econômicos, liberal-conservadores, socialdemocratas ou socialistas, à maneira de cada um.

Ignora que a maioria das ideologias de ambos os lados do espectro político, das mais autoritárias às mais libertárias, defendem alguma forma de progresso. Por exemplo:
– o liberalismo, situado entre o centro e a direita no Brasil, defende o progresso econômico (e também social, no caso da vertente liberal contemporânea estadunidense);
– a socialdemocracia, de centro-esquerda, advogam por um desenvolvimento social e econômico em harmonia;
– as correntes políticas imbuídas de valores ambientalistas, desde o “capitalismo verde” de direita até o ecossocialismo de esquerda, pregam um progresso harmônico que concilie o ambiental, o social e o econômico;
– a ideologia desenvolvimentista autoritária da ditadura militar brasileira de 1964 a 85, claramente de direita, impunha um progresso econômico socioambientalmente predatório e proibia o questionamento político do mesmo;
entre outros exemplos.

É aqui que percebemos a terceira e principal pressuposição falsa na crença do “nem esquerda, nem direita, mas sim para frente”, a de que esse “para frente” é neutro e “não ideológico”. Ignora que o desejo do senso comum de ver o Brasil ir “para frente” tem um forte teor nacionalista de direita, tendo sido usado exaustivamente pela ditadura militar para deixar clara a ideologia oficial do Estado na época, vide expressões como “Brasil potência”, “O Brasil é o país do futuro”, “Pra frente, Brasil!” e “Ninguém segura esse país”.

Também não leva em conta que isso era oportunamente benéfico aos interesses das grandes empresas, consideradas “promotoras do desenvolvimento nacional” pelos ditadores militares. Em outras palavras, o “nem esquerda, nem direita, mas sim para frente” é uma manifestação de um senso comum de direita e tendente ao autoritarismo antissocial e antiecológico, por mais que negue.

Não faz nenhum sentido, então, achar que o progresso é algo ideologicamente neutro e, no seu uso mais comum no Brasil, não tem um viés direitista, defensor do capitalismo e negligente perante o social e o meio ambiente. Deixemos claro, portanto, toda vez que alguém vier com esse tipo de frase de efeito pró-progresso e supostamente “contra ideologias”, que essa postura não só é multifalaciosa, como também é ela própria fortemente ideológica.

imagrs

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Gustavo, anarquista bizarro

novembro 15 2015 Responder

Eu realmente não sabia a origem do termo. Na realidade nunca havia pensado muito nisso.

De fato já considerava o uso dele completamente anacrônico, a descoberta da origem só reforça esta convicção.

Eu concordo 100% que devemos ir é para a frente.

Newton

novembro 15 2015 Responder

Essa afirmação é em sentido figurado.

Na situação atual e vergonhosa de nossa política, tanto de esquerda como de direita, ambos os lados concorrem para ver quem atrasa mais o país.

Com certeza, se o Estado se metesse menos na vida dos cidadãos, as coisas por si só iriam se acomodar. Não precisamos de um Estado para fazer papel de babá.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 16 2015 Responder

    “Com certeza, se o Estado se metesse menos na vida dos cidadãos, as coisas por si só iriam se acomodar. Não precisamos de um Estado para fazer papel de babá.” – Ou seja, se a ideologia do Estado fosse de direita.

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