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Músicas da Jovem Pan e um convite de exercício de empatia a quem tem muitos privilégios

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Editado em 29/11/2015 às 20h00

Meu pai gosta de ouvir músicas da Jovem Pan no rádio do celular dele, e inevitavelmente acabo ouvindo as canções transmitidas pela emissora também. Ao ouvi-las, às vezes me pego imaginando como é a vida de jovens da classe média-alta urbana, e desejando participar dessa camada social, e então essa imaginação me faz relembrar que tenho muitos privilégios sociais. A partir disso, trago uma reflexão pela qual pretendo convidar você, caso tenha esses ou mais benefícios não meritórios, a pensar junto comigo como é necessário reconhecer-se como privilegiado e daí ter mais empatia com quem não compartilha da mesma condição.

A Jovem Pan é hoje a rádio mais de direita no Brasil e tem como público-alvo de suas músicas pop jovens nessas faixas de renda familiar e de cultura eurocêntrica. E quando ouço as músicas da rádio – muitas das quais acho muito bacanas apesar da emissora que as transmite -, me lembro de “playboys” conservadores, entre a adolescência e a beira dos 30 anos, que, do alto de uma visão egocêntrica de mundo e de ser humano, vivem incidindo em comportamentos marcantes pelo ódio reacionário.

Ao longo de uma vida de regalias (mesadas altas, escolas e pré-vestibular caros, carro como presente dos pais etc.), contato intensivo com uma imprensa manifestamente conservadora e pouco ou nenhum com meios de comunicação alternativos (como blogs de esquerda), tornaram-se convictamente de direita, passaram a reagir com ódio às lutas sociais e hostilizar qualquer pessoa que viesse com opiniões de esquerda. E foram induzidos a acreditar que o capitalismo é meritocrático, que o Brasil é um país onde quem “vence na vida” é quem se esforçou com justeza no empreendedorismo, e que racismo, machismo, heterossexismo, transfobia, elitismo etc. são meras opiniões individuais que deveriam ser aceitas ou toleradas, e não problemas estruturais de cunho social e ético.

O que eu tenho a ver com esses jovens? A resposta é que eu me lembro que, por também ser homem, branco, cisgênero, heterossexual e dotado de diversos outros privilégios – embora não todos os que os jovens hipotéticos descritos acima têm -, eu tenho chances muito mais elevadas de “subir na vida” do que, por exemplo, uma travesti negra que mora numa favela, foi expulsa de casa na adolescência, tem passado por discriminações transfóbicas a vida inteira, teve a contratação negada por muitas empresas também por discriminação e teve que ralar muito sozinha para conseguir o mínimo de condições para uma precária sobrevivência.

Nisso eu reflito que, apesar de ser assim privilegiado e ter sólidas chances de “vencer na vida” a longo prazo, consegui, por meio de minha trajetória de vida individual e graças à internet, que gradualmente me fomentou o senso crítico político, ser uma pessoa empática e consciente tanto de meus privilégios quanto das condições adversas que muitas pessoas de minorias políticas vivem.

Lembro que, pouco a pouco, fui me conscientizando de que muitas das crenças de senso comum que eu reproduzia eram falsas, nada baseadas na realidade. Tive a oportunidade, por meio da internet (redes sociais, sites e blogs de esquerda, amigos e colegas virtuais etc.) e também do curso de Ciências Sociais e dos amigos e colegas de universidade, reconhecer, rever e quebrar posições machistas, racistas, heterossexistas, transfóbicas, elitistas etc., que eu antes tinha sem que tivesse consciência do quão discriminatório eu estava sendo.

Eu poderia estar sendo um reacionário assumido hoje, se não tivesse aceitado passar a duvidar das certezas e convicções precipitadas que eu tinha e pô-las em prova. Consegui me livrar da sina de virar, por exemplo, um antipetista fanático, um misógino, um racista adepto do “Não sou racista, mas…”, um pauperofóbico de carteirinha, um odiador pseudomoralista de funk carioca e pagode, um crente convicto de que as heranças europeias na cultura brasileira são “melhores” do que as africanas, indígenas e asiáticas.

Acredito, assim, que aquelas pessoas privilegiadas que estão reproduzindo essas crenças preconceituosas e tendenciosas à direita sem refletir, mas têm um mínimo que seja de mente aberta, como você que veio ler o Consciencia.blog.br, também podem se deixar entregar à dúvida sobre suas certezas, à curiosidade sobre se o mundo realmente funciona do jeito que acreditam funcionar.

Isso pode acontecer, por exemplo, num instante de autoepifania, ao ouvir, por exemplo, as próprias músicas da Jovem Pan. É um momento no qual você pode perceber que tem muito mais chances hoje de assumir profissões prósperas de ótima remuneração e alçar condições ainda mais confortáveis de vida não por essencialmente ser um indivíduo esforçado que conseguiu tudo com sangue, suor e lágrimas, mas sim por viver abençoado e confortado por uma rede de privilégios.

É um momento de lembrar que, enquanto você tem essas chances elevadas e muito acesso a oportunidades de enriquecimento, a grande maioria das mulheres, pessoas negras, imigrantes de países pobres e pessoas trans padecem em condições muito mais pobres e bem mais dificuldades de encontrarem e aproveitarem oportunidades de uma ascensão social que seja.

A partir daí, poderá vir a deixa para você adquirir a curiosidade de buscar respostas decentes – que não sejam fáceis, prontas, simples, rápidas e mágicas – sobre por que essas desigualdades sociais existem, e por que as minorias políticas na sociedade brasileira são tão castigadas pelo preconceito, pela discriminação e pela crueldade da hierarquização social.

Esse é um convite à reflexão que faço a você, caso se enquadre nesses privilégios que mencionei. Poderá ser doloroso na hora por demolir crenças tão “certas” que você teve durante tantos anos. Mas a dor se converterá, em não muito tempo, na delícia de se sentir liberto do senso comum cheio de certezas precipitadas, da influência interesseiramente conservadora da mídia tradicional.

Experimente fazer esse exercício: ouça as músicas da Jovem Pan, relembre do público-alvo e da posição direitista pró-status quo da rádio e o quanto milhões de seres humanos sofrem por causa de tal ideologia. E visualize que a facilidade de seus sonhos se deve mais aos seus privilégios sociais do que pela determinação individual. Fará muito bem para você e, a partir do momento em que você se tornar um agente de mudanças sociais, também será benéfico para a humanidade como um todo.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Filho do Luís

agosto 31 2016 Responder

Muito bom. Não sou branco, mas sou homem, cisgênero, heterossexual e classe média alta e reconheço os privilégios que tenho por causa dessas características.

Tiago

novembro 19 2015 Responder

Ótimo artigo. Me sinto muito mais humano por ter pensado como é estar no lugar dos outros. Não sou privilegiado, mas também nunca tive as melhores oportunidades. Só me sinto pequeno diante de tanta ignorância e obsolência da sociedade sobre ela mesma

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