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nov15

Pensemos o quanto antes em como superar o representativismo, ou então em voltar a lutar por mais mandatos de esquerda
Protestos de junho de 2013, momento em que milhões de pessoas declararam sua rejeição perante a ordem representativa vigente, mas não conseguiram sugerir nada no lugar

Protestos de junho de 2013, momento em que milhões de pessoas declararam sua rejeição perante a ordem representativa vigente, mas não conseguiram sugerir nada no lugar

Em junho de 2013, explodiu entre a juventude brasileira o desejo de que o sistema político representativo baseado em partidos e eleições seja superado no Brasil e substituído, mesmo que gradualmente, por uma democracia muito mais direta e popular. Mas de lá para cá nada foi feito nem para se buscar implantar essa nova ordem, nem sequer para se sugerir no que ela consistirá e como ela surgirá no país. Nessas horas, eu penso: comecemos logo a pensar essa mudança – e como aplicá-la num Brasil que recrudesceu na representatividade conservadora –, ou então recuemos nesse sonho, mesmo que temporariamente, e pensemos pragmaticamente em buscar eleger mais candidatos de esquerda no representativismo tradicional.

No calor daquele sentimento político que mesclava desilusão (no sentido de fim da ilusão) com a ordem partidária eleitoral com desejo efervescente por um novo e mais democrático sistema, não apareceu nenhuma proposta nova. Ou, se apareceu, ela veio apenas localizada, de algumas cabeças, e não foi larga e nacionalmente difundida.

Criticou-se muito o sistema, mas nada se sugeriu que se implantasse no lugar. Tudo bem se essa postura fosse apenas de alguns indivíduos sonhadores, que ainda precisam e querem estudar mais para poderem fazer seus planos e sugestões. Mas quando vem de uma coletividade inteira, ela se torna nociva. E como vimos da época para cá, foi um tiro de fuzil no pé dos defensores da superação do modelo político vigente.

Dito e feito. Na ânsia de generalizadamente criticar sem propor soluções solidamente, a esquerda, exceto quem continuou acreditando no potencial de partidos como o PSOL e o PSTU, boicotou a criação de novos partidos progressistas sociais e a designação de candidatos competitivos para as eleições de 2014. O resultado foi desastroso: o Brasil elegeu, naquele ano, o Congresso mais conservador e adepto do retrocesso desde 1964. E ficamos todos à mercê do estelionato eleitoral cometido pela presidenta reeleita Dilma Rousseff.

Em outras palavras, a ansiedade – que se mostrou irracional – por mais democracia deu à luz uma ordem ainda menos democrática do que já era. E o pior, diversos parlamentares beneficiados por esse boicote eleitoral da esquerda estão lutando para que mesmo as regras básicas da democracia representativa sejam violadas em nome de interesses particulares. É o caso de quem quer que a Dilma e o vice Michel Temer sofram impeachment mesmo sem terem sido indiciados em nenhum crime.

Devido a essa postura de aversão ao partidarismo tradicional, apenas um partido de esquerda começou a nascer: o partido Raiz Movimento Cidadanista, ainda não oficializado pelo Tribunal Superior Eleitoral. E mesmo nesse único caso fica claro o estado de fraqueza da esquerda: a Raiz só veio à existência porque seus fundadores são dissidentes da Rede Sustentabilidade, que propõe ideias e programas progressistas mas teve sua reputação arranhada pela postura centrista e flexível à direita de nomes centrais do partido, como Marina Silva.

Viu-se que o idealismo da esquerda opositora do sistema representativo vigente reduziu-a a uma situação de letargia. Hoje os outrora ativistas desse lado do espectro político estão de mãos atadas, geralmente presos a atitudes que têm tido efeito de menos, como manifestar momentos de indignação no Facebook e participar de palestras em universidades. Há nobres exceções, porém, como as Mulheres Contra Eduardo Cunha e os estudantes que ocuparam escolas públicas ameaçadas de fechamento no estado de São Paulo.

Então é imperativa a demanda da situação vigente: a esquerda precisa voltar a pensar, em termos de planos, diretrizes e estratégias, como poderá construir, mesmo aos poucos, uma nova ordem que traga muito mais participação popular e respeito dos tomadores de decisões políticas aos Direitos Humanos e demandas sociais e supere a tradição representativa de contribuição cidadã restrita. E também fazer isso antes que o representativismo atual degenere ainda mais por causa do boicote esquerdista ao lançamento de novos partidos e candidatos.

Ou então precisará fazer aquilo que inicialmente lhe será doloroso: recuar estrategicamente e voltar aos velhos esforços, da época da redemocratização, de criar novos partidos e lançar cada vez mais candidaturas a mandatos legislativos e executivos. Assim, quem sabe, quando a sociedade perceber o quanto foi uma cilada apelar para o conservadorismo político, ela virá a dar um ou mais votos de confiança, literalmente falando, para quem defende mudanças sólidas e estruturais no Brasil. E se isso acontecer, que aconteça logo, de modo que dê tempo para lançar candidatos com chances razoáveis de eleição em 2016 e 2018.

A hora é agora de se tomar decisões, coletivamente falando, nesse âmbito. Algo precisa ser feito na esquerda o quanto antes. Ela precisa superar o trauma do estelionato eleitoral de Dilma e do PT, romper com o partido e começar a montar suas próprias alternativas confiáveis. Isso passará por optar ou pela retomada da luta, agora sendo fundamentada por uma proposta sólida e palpável, por uma democracia pós-representativa mais avançada do que o modelo hoje vigente, ou pela volta dos esforços em fortalecer a representação esquerdista nas casas legislativas brasileiras e nas prefeituras, nos governos estaduais e na presidência da república. Do jeito que está, na situação de indignação impotente e falta de propostas e de projeto de país, é que não pode ficar.

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