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nov15

Por que considero o #OcupeEstelita um movimento essencial para o ambientalismo do século 21

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O movimento #OcupeEstelita, que luta pela democracia urbana no Recife, é um típico “novo movimento social” do século 21, com diversas características que o distinguem daqueles movimentos tradicionais vindos do século 20, como os sindicais. Outro aspecto importante dele é que ele traz perspectivas de renovação para o ambientalismo, sendo ele, creio eu, essencial para influenciar e mesmo identificar o movimento ecologista dos novos tempos.

Para muitas pessoas não ficou tão claro assim ainda que o Ocupe recifense é um movimento de tendências ambientalistas. Afinal, não foca diretamente o manguezal da cidade, a flora e os animais dos ecossistemas urbanos, os parques existentes. Mas mesmo assim ele é decisivo para a causa ambiental na cidade, quiçá no Nordeste inteiro ou mesmo no Brasil como um todo.

Digo isso com segurança porque ele reivindica algo que estava relativamente escasso no ambientalismo do século 20: a exigência enérgica, por parte do povo atuante, de respeito à democracia, no que concerne ao poder popular de tomar ou influenciar decisões referentes ao ambiente urbano. Também afronta o poder do capital, que tem tomado de assalto, com mais força nesse começo de século, a gestão urbana e a comandado como uma marionete de interesses privados – e peitar o capitalismo é sempre fundamental na luta ecológica.

E esses interesses literalmente passam por cima de árvores e áreas verdes que deveriam ser protegidas, terrenos que mereciam uma destinação democraticamente decidida (como o Cais José Estelita, leiloado sem consulta popular a um consórcio de empreiteiras e imobiliárias e ameaçado de se tornar uma muralha de prédios altos) e até mesmo vilas ou bairros inteiros (como a Vila Naval, que também está para ser entregue às imobiliárias, e Brasília Teimosa, ameaçada de perder o estatuto de Zona Especial de Interesse Social).

E nada é pior para o meio ambiente urbano do que uma cidade ter como “poder atrás do trono” o empresariado imobiliário e as empreiteiras. Isso tem representado para o Recife uma progressiva degradação da paisagem, com cada vez menos árvores e prédios antigos – inaceitavelmente demolidos, como a antiga Padaria Capela, nos Aflitos, e o Edifício Caiçara, na praia de Boa Viagem, que só não foi totalmente reduzido a escombros porque a população interveio e conseguiu o embargo da demolição – e mais prédios a sufocar o microclima urbano, e nenhuma política ambiental que faça jus ao nome.

É para impedir essa distopia privatista cheia de prédios feios, sufocantes e destruidores da paisagem histórica e vazia de vida verde que as ações do #OcupeEstelita têm sido decisivas. Graças ao movimento, o Projeto “Novo Recife” – o da muralha de edifícios no lugar do Cais José Estelita – não foi erguido ainda, e há investigações por parte da Polícia Federal em relação ao leilão daquele terreno. A consumação e conclusão dessa obra poderia ser o precedente para muitos outros abusos de destruição ambiental e elitização de bairros e comunidades até então de moradores de baixa renda e sem prédios altos. E foi graças ao Ocupe que isso não aconteceu, pelo menos até o momento.

Essa atuação democrata em nome do meio ambiente urbano é uma vertente importante do ambientalismo do século 21, e por isso o #OcupeEstelita assume esse papel de vanguarda, ao lado de movimentos como o defensor do Parque Augusta em São Paulo e o Ocupa Golfe do Rio. É um ecologismo que traz algumas novidades e pode, tomara, ressuscitar o movimento ambientalista brasileiro, que tem estado enfraquecido neste século. Por isso o Ocupe recifense merece essa consideração e o apoio dos ambientalistas mais tradicionais.

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