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nov15

Por que a crença de que “só a educação pode trazer mudanças” é falha
Precisamos ser céticos quando alguém vier dizendo que a educação é a "única" solução que virá independentemente da atuação do poder público e dos movimentos sociais

Precisamos ser céticos quando alguém vier dizendo que a educação é a “única” solução que virá independentemente da atuação do poder público e dos movimentos sociais

Costuma ser muito compartilhada e difundida a crença de “só a educação pode trazer mudanças na sociedade”. Tendo-se isso em conta, é preciso alertar: se essa crença não for tratada com senso crítico e ceticismo, ela vai se converter num gol contra de placa para quem tem o desejo de ver a sociedade se emancipar a partir da formação educacional de seus cidadãos.

Se realmente queremos que a educação redima milhões de pessoas, precisamos pensar em duas questões. Primeiro, ela realmente fará isso sozinha, ou precisará do auxílio de políticas públicas e da atuação de movimentos sociais? E segundo, é qualquer educação que pode promover mudanças – ao invés de conservar a ordem vigente –, ou é uma categoria específica de pedagogias que poderá trazer emancipação social coletiva?

Em primeiro lugar, colocar esperanças excessivas apenas na educação, considerando-a isoladamente sem o apoio de iniciativas do poder público e dos movimentos de emancipação social, é de um romantismo que no final das contas faz com que nada saia do lugar. Essa crença de que o ensino é uma solução universal messiânica é típica do pensamento neoliberal, e, assim sendo, atende a interesses de quem quer que o Estado intervenha menos na sociedade e na economia, os movimentos sociais percam força e o individualismo radical se torne a convicção moral-cultural dominante na sociedade.

Acreditar na educação como essa imaginária “grande heroína que não precisa de ninguém” é ignorar que, se não forem pessoas progressistas dentro do Estado e os movimentos sociais, quem irá ditar o que as escolas irão ensinar serão as grandes empresas, os think tanks pró-capitalistas e um Estado socialmente conservador. Nunca a educação escolar virá como se fosse uma entidade abstrata independente dos poderes públicos e privados.

Essa crença, além disso, desacredita no poder das políticas públicas, como a redistribuição de renda, a reforma agrária, a democratização da economia e dos meios de comunicação e o incentivo à geração de empregos que respeitem os Direitos Humanos (remuneração digna, jornada de trabalho módica, lazer, acesso ao saber cultural-intelectual, assistência qualificada à saúde, sustentabilidade ambiental etc.), de fazer a sociedade diminuir as injustiças sociais que a castigam.

Deixa a entender, perigosamente, que a sociedade “não precisa” de políticas sociais, mas sim meramente de “mais educação”. E isso cai como uma luva para os defensores do Estado Mínimo e do fundamentalismo de mercado, decisivos impedidores do desenvolvimento social e perpetuadores das desigualdades de renda, riqueza e poder.

Também é necessário frisar que um ensino que prescinda de pessoas e coletivos pensantes, dentro e fora do Estado, que querem promover a educação como instrumento emancipatório não virá com nenhuma proposta realmente focada em formar cidadãos politicamente ativos, socialmente críticos e intelectualmente engajados. E é daí que vem a segunda indagação deste artigo: qual educação pretende-se que venha transformar a sociedade?

Nessa questão, percebemos que há pedagogias que vêm para transformar a sociedade e formar pessoas aptas a serem sociopoliticamente atuantes e defensoras da democracia, mas também há aquelas que vêm para conservar o status quo e inibir a capacidade dos estudantes de pensar autonomamente e questionar o mundo. Nem toda educação é transformadora.

Um exemplo muito evidente de ensino conservador é o que vemos atualmente na maioria das escolas brasileiras, sejam públicas ou privadas. Foco na absorção de conteúdos teóricos; pouca associação entre teoria e prática – especialmente nas disciplinas de ciências humanas –; métodos didáticos monótonos que não despertam o interesse dos alunos pelos temas ensinados; hierarquias rígidas calcadas em dominação autoritária; gestão escolar e educacional não democrática; priorização da ordem e da disciplina em detrimento do pensamento crítico, autônomo e democrata… São diversos os obstáculos, inerentes aos modelos educacionais dominantes no Brasil, a uma educação transformadora.

Definitivamente não é essa educação que realmente pode trazer mudanças sociais positivas no país. Tampouco o é o modelo educacional que alguns conservadores defendem – militarista, focado em disciplinamento ainda mais pesado e rígido e na obediência, eliminador de liberdades individuais, esmagador de subjetividades culturais, punitivista, defensor da meritocracia (e da consequente crença de que apenas indivíduos específicos podem “melhorar de vida”, e não uma coletividade inteira) e da ordem capitalista, mero capacitador de trabalhadores submissos.

Fica muito claro que precisamos ter muita prudência ao elegermos a educação como “grande solução” para os problemas de nossa sociedade. Ela pode ser sim decisiva para a redenção de quem vive sob dominação e discriminação, mas nunca conseguirá promover essas mudanças sozinha, prescindindo de políticas sociais e da influência dos movimentos emancipacionistas. A educação pode mudar a ordem vigente, mas precisará do suporte da política pública pró-popular e da adoção de uma categoria libertária de pedagogias.

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