15

nov15

“Por quê?”: uma frase que, se usada mais vezes, poderia fazer deste mundo um lugar melhor

por-que

Uma simples frase, ou início de frase se retirar o circunflexo e a interrogação, tem feito falta na sociedade: “Por quê?”. As pessoas, presumivelmente em sua maioria, têm tido dúvidas, curiosidades e também senso de empatia de menos. É possível dizer que, se elas (se) perguntassem mais o porquê das coisas e dos acontecimentos, este mundo seria um lugar melhor de se viver.

É notável que muitas pessoas não se dão o trabalho de se perguntar, mesmo quando é relativamente fácil buscar a resposta, por que, por exemplo:
– existe tanta violência no Brasil;
– uma parcela tão grande da população sofre com a pobreza e a miséria;
– a corrupção assola tão tradicionalmente a política no país;
– existem desigualdades sociais no mundo;
– a grande maioria das vozes que opinam ou “jornalizam” (como diria Chaves) na mídia tradicional e nos grandes portais online de notícias são de direita e defensoras ou consentidoras do capitalismo;
– o PT é o único alvo de muitos que se dizem “indignados contra a corrupção” e gente de outros partidos é poupada dessa revolta;
– a esquerda insiste que a democracia no Brasil está em risco por conta de um Congresso que não leva a sério a Constituição;
– o prefeito de São Paulo Fernando Haddad está priorizando os usuários do transporte público e os ciclistas em suas políticas públicas de mobilidade;
– acredita-se tanto que o capitalismo é bom, apesar de relegar bilhões de pessoas ao redor do mundo à miséria e a meras sobrevidas precárias;
– algumas pessoas possuem tanto e outras têm tão pouco;
– etc.

Uma grande parcela delas, pelo contrário, prefere lidar com eventuais dúvidas que apareçam aceitando inquestionadamente (!) e reproduzindo respostas prontas fáceis e simples. Fazem isso mesmo que estas muitas vezes sejam absurdas, preconceituosas e fantasiosas.

É quando, por exemplo, um conservador assumido traz como “resposta” à pergunta “Por que existe tanta violência no Brasil?” a crença de que “é porque existem pessoas que nascem ruins e propensas ao crime” ou “porque criminosos não têm Deus no coração”. Ou então quando um meritocrata, diante da pergunta “Por que existe tanta pobreza e desigualdade social no Brasil?”, responde que “é porque a maioria da população tem preguiça e não se esforça o suficiente para ganhar muito dinheiro”.

O problema da carência de “por quês” também assola a vida privada das pessoas. Por exemplo, um homem machista e ciumento não pergunta com real curiosidade, nem tenta cogitar, por que a namorada chegou mais tarde em casa, que problemas ela enfrentou no caminho para casa, o que aconteceu no trabalho ou na faculdade para ela ter largado tarde. Nem mesmo (se) pergunta se ela está bem.

O que ele faz, ao invés, é plantar em si mesmo uma certeza precipitada – que faz dupla com o boicote aos “por quês” e, junto com ele, torna o mundo um lugar mais violento e insalubre –, a de que “tudo indica que ela estava paquerando e ficando com outro homem”. E o resultado disso é uma briga feia que, se não fosse o machismo e a preguiça dele de pensar e procurar saber empaticamente “por quê”, teria sido perfeitamente evitada.

Perguntar “por quê”, seja a si mesmo, seja a uma ou mais outras pessoas, é um exercício extremamente importante de empatia e sabedoria. É procurar entender o outro para saber suas razões e motivos. É buscar mais conhecimento sobre o mundo e quebrar crenças precipitadas e preconceitos. É ter e manifestar sede de sair da bolha social em que vivia (no caso das pessoas de classe média a alta que se acham referência universal de seres humanos), conhecer o mundo como ele realmente é e adquirir a consciência de por que ele ser aquilo que é.

Se as pessoas em geral tivessem – ou melhor, fossem ensinadas via escola e família a ter – esse apego carinhoso e ético à pergunta “Por quê?”, certamente o mundo seria um lugar muito menos cruel e desigual, e seria muito mais abençoado pelas virtudes da empatia, da compreensão e também do amor. Então, o que esperamos para abandonar as certezas precipitadas e as verdades pré-fabricadas e começar a criar o hábito de perguntar mais por quê? Teremos muito a ganhar com isso, principalmente uma vida mais feliz e harmônica e um planeta e humanidade melhores.

imagrs

Seja a primeira pessoa a comentar

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo