09

nov15

Reflexão sobre um texto defensor da Teoria das Janelas Quebradas e a falta de uma direita pensante no Brasil

janelas-quebradas

Uma leitura recente minha, de um texto que identifiquei como defensor de uma ideia liberal de direita, sobre a teoria criminológica das “janelas quebradas”, me fez pensar sobre o que é a direita política brasileira hoje. Percebo o quanto ela, por mais que diga basear-se em ideias, fatos, razão e lógica, está astronomicamente distante de algo que poderia ser realmente identificado como uma direita pensante e propositiva, que pensasse à sua maneira e fizesse sugestões plausíveis – mesmo que continuássemos discordando delas frontalmente – como melhorar a qualidade de vida das pessoas e promover a justiça no Brasil.

Vi no excelente site Boatos.org a refutação de uma imagem montada – e desonestamente propagada como verdadeira por páginas reacionárias – que mostrava um menino supostamente preparando-se para apedrejar um policial. Quando li o texto quebra-boato, lembrei de ter lido recentemente um artigo chamado Janelas quebradas: uma teoria do crime que merece reflexão, de autoria de Luis Pellegrini.

Ele descreve o que a Teoria das Janelas Quebradas afirma: que sinais de depredação e maus cuidados de conservação para com o patrimônio público atraem, em efeito cascata, mais depredações e podem provocar até uma escalada da criminalidade na região onde a primeira vandalização pontual ocorreu.

E defende que uma política de “tolerância zero ao crime” e “zelo do Estado pela ordem e pelo respeito às leis” baseado em investir em revitalização, manutenção e conservação de espaços públicos; evitar depredações e educar pessoas envolvidas com delinquência contra o patrimônio público (o texto não incluiu aqui participantes de protestos) para que não reincidam no delito. Mencionou o programa “Tolerância Zero” da prefeitura de Nova York na década de 90 como “exemplar” na redução do crime e no aperfeiçoamento da manutenção estética da cidade.

Diz o artigo, num dado parágrafo:

“Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito. Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.”

Essa importância prioritária dada à ordem pública, à disciplina, à moral e ao respeito às leis é claramente uma bandeira de direita, que mescla valores liberais e conservadores. O fato de ter sido inspirado numa ideia divulgada por think tanks também direitistas, como o estadunidense Manhattan Institute, defensor do livre mercado, confirma a identidade político-ideológica da ideia.

Talvez eu vá encontrar algumas problemáticas – e talvez descontextualizações geográficas que podem tornar o exemplo de Nova York inaplicável no Brasil –, daí precisarei reler o texto e “farejar” pontos problemáticos que eu posso criticar, caso decida expressar minha discordância no Consciencia.blog.br. Mas percebi que há pelo menos o mérito do autor Luis Pellegrini e dos divulgadores da Teoria das Janelas Quebradas de investir na proposição de medidas que, segundo o ponto de vista deles, poderiam melhorar a qualidade de vida e mesmo o bem-estar social da população e assim tornar o mundo um lugar melhor de se viver.

Quando eu li esse texto, pensei na hora o quanto fazem falta para o quadro político brasileiro pensadores de direita que realmente aceitem e promovam um debate saudável. Digo que “fazem falta” não porque eu acho que o Brasil precisa das ideias de direita para ter uma sociedade mais justa. Mas sim levando em conta que, comparando essa direita propositiva “ideal” com a hegemonia do reacionarismo autoritário no Brasil, a direita mainstream brasileira é uma vergonha para aquelas pessoas que se dizem de direita mas (sic) sabem pensar e trazer ideias novas e sabem também não ser preconceituosas e intolerantes.

(E preciso alertar: não estou concordando com as ideias do texto, nem defendendo que essa direita racional e reformada assuma a hegemonia dos três poderes no país.)

Nisso eu penso o quanto seria menos corrosivo para a política brasileira se a direita do país lembrasse realmente uma categoria de pessoas que simplesmente pensam diferente da esquerda e propõem um Brasil “melhor” à sua maneira. E não um aglomerado de orcs, trolls e dark lords tolkienianos que só sabem verbalizar ódio, intolerância, autoritarismo e sede de vingança e defender seus mais egoístas e antiempáticos interesses privados.

Em outras palavras, imagino como seria se o que é identificado como a direita no Brasil pensasse, elaborasse ideias racionais e propusesse um país melhor para todas e todos à sua própria maneira. E não vivesse de rosnar, declarar ódio, bater freneticamente no PT (pelos motivos errados), defender e promover abertamente a tirania e achar que dentes cerrados em fúria, punhos fechados para esmurrar e dedos em riste são cérebros pensantes.

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