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Educação Ambiental que se preze promove apologia e incentivo à atuação política

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Um dos princípios mais fundamentais da Educação Ambiental é sua natureza política, que visa intervir no mundo para acabar com injustiças, defender o bem público, fazer valer a democracia e afrontar interesses privados egoístas. É muito evidente, portanto, que EA que se preze promove também politização.

Um ensino ecológico que se restrinja a incentivar ou recomendar ações individuais domésticas, como a separação do lixo, a moderação do consumo de água e eletricidade e o boicote a produtos de impacto ambiental muito alto, não promove tanto essa conscientização política. Seu princípio de que as atitudes dos indivíduos se somam para resultar em benefícios globais é limitado em termos de impacto sociopolítico.

Não é simplesmente porque indivíduos estão comendo menos carne (sem adotar e disseminar o veganismo) que os ruralistas irão desistir de promover o desmantelamento da legislação ambiental e a exploração animal. Nem é o uso individual de bicicletas por si só que induzirá prefeituras a disseminar ciclovias e ciclofaixas na cidade e montadoras automobilísticas a parar de promover publicidade fetichizadora da posse e uso do carro. Nem os atos de desligar a torneira enquanto escova os dentes e tomar banhos curtos irão influenciar governos a sancionar leis que exijam a otimização do consumo de água por fazendas e indústrias com grande demanda hídrica.

O impacto do consumidor doméstico-residencial, quando não se considera sua interligação com as práticas dos grandes detentores dos meios de produção e serviço e do Estado, é muito menor do que o das atividades industriais, agropecuárias latifundiárias, megaextrativistas (madeireiras, mineradoras, petrolíferas etc.). E mesmo esse consumo individual muitas vezes é induzido ao desperdício e à irresponsabilidade por influência da publicidade, da socialização capitalista, da idealização do padrão de vida de classe média e do incentivo vindo do próprio governo ao consumo imoderado. Educar as pessoas ignorando isso é promover uma conscientização extremamente limitada, muito parcial e de efeitos positivos apenas marginais. É incidir numa educação ambiental minúscula.

Essas mudanças desejadas só serão conseguidas com ativismo político em frentes diversas. Ciclistas e “ferrofãs” só conseguirão induzir políticas que derrubem o império automobilístico e rodoviarista com muita luta em defesa de meios de transporte de massa e dos não motorizados. Os críticos do consumismo só terão êxito quando empreenderem e vencerem lutas políticas para que o Estado restrinja por meio da lei as apologias publicitárias ao consumo irresponsável e puna pesadamente indústrias que promovam obsolescência programada.

Similarmente, o titânico impacto ambiental da pecuária e da pesca só será diminuído drasticamente com a difusão do veganismo, a defesa convicta dos Direitos Animais e a propagação das ecovilas e fazendas veganas e não latifundiárias de permacultura e agroecologia. E a diminuição do consumo de recursos hídricos só será suficiente para salvar mananciais hídricos do colapso a partir do momento em que as lutas ambientalistas forçarem os governos estaduais e o federal a penalizarem fortemente empresas rurais e industriais que não otimizarem o consumo e o reuso de água.

Ou seja, só há transformações que orientem a sociedade a uma tendência sólida de sustentabilidade quando houver a disseminação da luta ambientalista aliada com bandeiras anticapitalistas, vegano-abolicionistas, defensoras do aprofundamento da democracia, pró-transporte público etc. E os educadores ambientais precisam ter isso em mente.

Fica muito clara a importância de incorporar a conscientização política, com incentivo ao ativismo, nas práticas de Educação Ambiental. Afinal, quando não se peita os interesses e práticas de quem lucra com o gasto imoderado de recursos naturais, a exploração de seres sencientes, a degradação dos biomas e a inviabilização do direito constitucional ao meio ambiente equilibrado, e restringe-se a aconselhar medidas individuais de racionalização do consumo, a diminuição da pegada ecológica das atividades humanas é meramente cosmética.

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Eliane

junho 10 2016 Responder

Gostei muito do artigo e considero importantíssimo cobrar ação política, porém não podemos deixar de lado as atividades cotidianas, acredito no trabalho de sala de aula e atitudes, mesmo que pequenas, geram conscientização ecológica e, consequentemente, política.
Tenho uma frase que gosto e publico no meu site, pois defendo que devemos iniciar com as crianças essa tomada de decisão por um melhor lugar para viver, com qualidade:
“Incorporar um olhar ecológico no cotidiano de nossas escolas pode ser a saída para o mundo melhor que queremos para as próximas gerações. Conhecer para saber cuidar!”

http://www.elianecunha1.wix.com / consultoria

    Robson Fernando de Souza

    junho 10 2016 Responder

    Obrigado pelo comentário, Eliane. Mas o texto não faz dicotomia entre a ação política direta e as atividades cotidianas. Pelo contrário, ele critica as ações de educação ambiental que focam apenas na atitude individual e ignoram o lado político da questão ecológica. Abs

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