30

dez15

Minha posição sobre a ameaça de impeachment de Dilma Rousseff

dilma-presidenta

Muito tem sido falado na possibilidade de Dilma Rousseff ser deposta da presidência da república pela vontade de parte de seus opositores. Sinto que é necessário deixar exposto o que eu penso sobre tudo isso: sou a favor ou contra o impeachment? Que interesses estão por trás do processo? A derrubada de Dilma por esse meio vai fazer bem para o Brasil? Isso é realmente uma medida de “combate à corrupção”? É verdade que “o povo brasileiro exige o impeachment”, como foi dito nos protestos-folia de 15/03, 12/04, 16/08 e 13/12?

A princípio, declaro que sou contra o possível impeachment de Dilma, e sei que esse processo não está justificado com propósitos democráticos, de justiça e pró-transparência política. Eu quero que o governo Dilma acabe e dê lugar a um governo realmente de esquerda. Mas desejo que isso aconteça por meios realmente democráticos, como as próximas eleições presidenciais ou um levante popular em grande escala que seja realmente uma manifestação indignada do povo, e não um “carnaval” de classe média desprovido de motivos racionais.

Eu não estou nem um pouco contente com o governo Dilma, desde seu primeiro mandato. Ela tem promovido uma administração claramente de direita, com privatizações, repressão, desenvolvimentismo público-privado socioambientalmente predatório, privilegiamento do grande empresariado nas políticas públicas, rejeição a reformas de base, militarismo nas favelas do Rio de Janeiro, gestão antidemocrática que nos empurra excrescências como Belo Monte e uma base “aliada” ultrarreacionária, ausência de uma política de combate sistemático e estrutural à corrupção, política habitacional cujas residências construídas mais parecem campos de concentração etc. E mesmo a política considerada a mais próxima a algo “de esquerda” no governo de Dilma, o Bolsa Família, é inspirada nas ideias do neoliberal Milton Friedman sobre imposto de renda negativo.

Mas nem por isso eu desejo que um impeachment seja imposto por meio de motivos forjados e sem o apoio ativo dos trabalhadores. Ou seja, se dependesse de mim, Dilma seria absolvida no processo patrocinado pelo infame do Eduardo Cunha.

Eu só apoiaria um impeachment contra ela se houvesse provas formais confirmadas de envolvimento dela com corrupção ou algum crime de responsabilidade. E as pedaladas fiscais não são suficientes hoje para categorizar esse tipo de crime – só passariam a ser consideradas assim com uma lei ilegalizando-as. E em se tratando das pedaladas, sou adepto da ideia de que, se Dilma sofrer impeachment por causa disso, que todos os governadores cujas equipes as tenham promovido também sejam cassados, como Geraldo Alckmin em São Paulo, Pezão no Rio de Janeiro e Beto Richa no Paraná, e seus antecessores que também tenham incidido nisso sejam tornados inelegíveis.

Sei também que não é respeito às leis, nem o combate à corrupção, que “justifica” a atitude do PSDB, de Eduardo Cunha e de outros nomes famigerados de tentar derrubar Dilma muito antes do final de 2018. Mas sim um misto de espírito de mau perdedor, por parte de Aécio Neves, e uso do poder político para fins de vingança privada por parte de Cunha. Em outras palavras, o dispositivo legal do impedimento está servindo de instrumento de gente que usa o mandato para projetos pessoais de poder, nunca para o bem da sociedade brasileira.

Outro ponto a ser realçado é que, ao contrário do que os manifestantes vestidos de torcedores canarinhos vivem dizendo, não é “o povo” que quer com tanto êxtase ver Dilma ser impichada, mas sim uma parcela bem restrita da população do país (a não ser que pesquisas confiáveis refutem minha alegação). E esse desejo dessa parte dos brasileiros também não é fundamentado na sincera e legítima demanda por transparência política, visto que eles próprios, do alto de sua “indignação” seletiva e interesseira, estão incidindo em atitude corrupta.

Fica evidente que o propósito deles não é o “Abaixo a corrupção, doa a quem doer”, mas simplesmente o “Fora PT”. Esse segundo é muito mais adequado ao interesse de quem quer ver políticos assumidamente de direita governarem o Brasil e preservarem os privilégios das classes média-alta e de elite que defendem a perpetuação das desigualdades sociais e do governo para poucos. É o interesse de quem está à direita até de Milton Friedman e de quem defende o suposto propósito do livre mercado e do enxugamento do Estado de promover prosperidade, iguais oportunidades, liberdade individual e ascensão social em massa.

E vale perceber também que o processo de impeachment contra Dilma de forma nenhuma vem “mudar o Brasil” e “combater a corrupção”. Nada tem a ver com a promoção da transparência política algo que está sendo promovido por corruptos e aliados de corruptos contra uma presidenta que não tem contra si acusações formais de corrupção. Isso tampouco é parte de uma operação sistemática para “limpar Brasília” de cometedores de crimes e promover a política moralizada e justa, visto que isso está consistindo basicamente em imorais se mascararem de defensores da moral para atender a propósitos imorais particulares.

É de se vislumbrar, inclusive, que a própria campanha contra Dilma pode, no final das contas, abortar a “onda de combate à corrupção” que a Operação Lava-Jato tem alegadamente promovido. Depois que o PT for expulso à força do poder presidencial, os corruptos que apontam o dedo acusatório contra a presidenta e seu partido não terão mais interesse de levar adiante a Lava-Jato, já que o grande objetivo deles foi atendido. E novamente a impunidade irá imperar, apoiada e consentida pelos “manifestantes canarinhos” que irão se calar diante dos abusos de gente do PMDB, PSDB, PR, PSC, PP, PSD etc.

Isso já é o suficiente, creio eu, para mostrar que o impeachment de Dilma nada trará de benéfico para o Brasil. Só irá promover o triunfo da impunidade e do interesse privado sobre as necessidades públicas. Não gosto do governo de Dilma, mas defendo que ele seja encerrado de maneira realmente democrática e justa. E isso jamais acontecerá com um processo de impedimento patrocinado por corruptos – os políticos sujos e os “indignados” seletivos.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Newton

janeiro 1 2016 Responder

O impeachment está previsto na Constituição, não é uma simples “vontade” de seus adversários. Particularmente, não sou contra e nem a favor, apenas desejo que a Constituição seja cumprida…se isso resultar em impeachment, que assim seja, ou vice versa.

Realmente a Dilma, não faz um governo nem de esquerda e nem de direita, justamente porque o chamado esquerdismo já não existe mais; foi substituído pelo progressismo. Tal ideologia é uma engenharia social que, através da manipulação da mídia e do meio artístico, vai formatando mentes das pessoas. O comunismo está cada dia mais forte por conta disso. Na época da Guerra fria, existia uma polarização comunista-capitalista; nos dias de hoje, existe a imagem de que o Capitalismo domina e sufoca o Comunismo, mas na verdade o Capitalismo domina o campo econômico e o Comunismo domina o campo humano.

HELOISA HELENA

dezembro 30 2015 Responder

Brilhante o texto, Robson! Assino embaixo.

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 3 2016 Responder

    Obrigado, Heloisa =) Abs!

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo