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O paradoxo do tratamento dedicado pela direita brasileira aos “cidadãos de bem”

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Atualizado em 05/12/2015 às 13h20

Aviso de conteúdo traumático: há menções a crimes racistas e de violência contra a mulher

Um dos costumes mais comuns na direita brasileira, em especial a conservadora, é sair numa suposta defesa daqueles que ela chama de “cidadãos de bem”. Mas se formos pensar bem na definição de “cidadão de bem” e na postura de direitistas diante de crimes cometidos ora por criminosos civis, ora por policiais, perceberemos que essa defesa é paradoxal por ser seletiva, não protege todos eles, e ao mesmo tempo acoberta pessoas que não são realmente “de bem”.

Pode-se inferir que o conceito de cidadão de bem é, teoricamente: uma pessoa trabalhadora, honesta, respeitadora das leis, obediente às autoridades, pagadora de impostos, avessa ao cometimento de crimes contra a vida e a propriedade, muitas vezes mãe ou pai de família. Mas se observarmos bem, nem todo mundo que corresponde a essa definição tem seus direitos à vida, à propriedade e à segurança defendidos pela direita.

Essa seletividade pôde ser vista em seu extremo depois que cinco jovens que estavam num carro foram chacinados pela PM do Rio de Janeiro, no final de novembro deste ano, simplesmente por serem jovens e negros. Não haviam cometido nenhum crime – e mesmo se tivessem cometido, nesse caso deveriam ter sido presos e submetidos a julgamento, e não sumariamente executados. Mas a direita brasileira se silenciou.

Não houve nenhuma comoção generalizada por esse cruel assassinato de pessoas consideráveis como cidadãos de bem. Nenhuma campanha, por exemplo, em defesa do direito do cidadão de portar armas para se defender de policiais abusivos, ou do disciplinamento da polícia militar em todo o Brasil, ou mesmo da apuração de crimes cometidos por policiais contra os Direitos Humanos de “humanos direitos”.

O mesmo silêncio é visto diante de todos os demais crimes cometidos pela PM contra cidadãos jovens negros na periferia das cidades, com destaque ao Rio de Janeiro e a São Paulo, que padecem com a polícia mais violenta de todo o planeta. Nenhum pio é ouvido na direita “defensora dos cidadãos de bem que respeitam as leis e pagam seus impostos”.

Às vezes é até o contrário. Em diversas ocasiões tornadas públicas, reacionários assumidos relativizam o assassinato de pessoas inocentes, acusando que “alguma coisa ruim cometeram”, “gente boa não era”, entre outras insinuações ou mesmo afirmações não provadas, portanto caluniosas, de que as vítimas eram criminosas.

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E um segundo exemplo é o de mulheres vítimas de violência doméstica, assédio sexual, discriminação machista e estupros não correspondentes ao estereótipo do bandido que ataca de noite em ruas esquisitas. O Brasil padece com em torno de 50 mil estupros por ano e violência misógina ocorrendo a cada minuto, mas isso não sensibiliza a direita nacional a se posicionar em defesa das cidadãs de bem.

Em muitos casos, aliás, supostos “defensores do cidadão de bem” vêm em defesa do criminoso – o estuprador, o assediador, o misógino, o abusador, o algoz do relacionamento abusivo. Atacam e culpabilizam a mulher vítima de violência – afinal, ela estava bêbada, ou usava roupas curtas, ou tinha uma vida sexual livre, ou algum outro motivo que faz misóginos legitimarem esse tipo de violência -, e isso, para eles, diminui a culpa do violentador e acarreta responsabilização à própria vítima.

E contra isso a direita brasileira quase nunca se posiciona. Só em raros casos há um posicionamento direitista contra esse tipo de violência, como quando alguém defende a revogação do Estatuto do Desarmamento para que as mulheres andem armadas. Mas nunca ousam enfrentar o problema que origina toda essa categoria de crimes: o machismo e a cultura de misoginia e de estupro. Nem peitar os defensores de misóginos – curiosamente autointitulados “defensores de cidadãos de bem” mas que, em ocasiões como essa, não perdem tempo em defender e desresponsabilizar criminosos perigosos.

Diante desse silêncio sepulcral da direita brasileira diante do genocídio da juventude negra e da disseminação da violência contra a mulher, é bem possível concluir que a “defesa dos cidadãos de bem” é um paradoxo. Nem toda pessoa que corresponde ao conceito exposto acima de “cidadão de bem” é considerado e respeitado por ela como pertencente a essa categoria. Por outro lado, a direita considera e respeita como “cidadãos de bem” algumas pessoas que nem de longe são realmente “de bem”.

É o caso de homens brancos de classe média ou alta que agridem e abusam suas companheiras, estupram mulheres embriagadas ou dopadas em festas universitárias, promovem corrupção empresarial e/ou política sem ser do PT, incidem em crimes ambientais, fazem apologia a crimes cometidos por policiais em serviço, sonegam impostos, promovem discursos de ódio contra minorias políticas (machismo e misoginia, racismo, xenofobia, intolerância religiosa, homo-lesbofobia, transfobia, capacitismo etc.), promovem estelionato e extorsão em igrejas, entre outros delitos.

Em grande parte desses casos, aparecem poucos ou nenhum cidadão de direita para chamá-los de “vagabundos” e exortar que a polícia os mate ou os prenda em cadeias apodrecidas. Em diversos desses casos, aliás, o criminoso é até defendido, como nos casos em que machistas assumidos defendem o “direito” do homem de matar sua namorada, noiva ou esposa para “lavar a honra”, ou se diz que estupro de mulheres não sóbrias é uma forma válida de “fazer sexo”, ou se relativiza a sonegação de impostos por grandes empresas, ou se coloca a corrupção do não petista (como o caso do famigerado Eduardo Cunha) como menos prioritária de se repudiar do que o “desgoverno do PT”, ou se acusa de “vitimista” a pessoa negra que denuncia um crime de racismo.

Com esse contraste entre o assassinato de pessoas negras inocentes e o acobertamento de crimes de homens brancos, é possível perceber que “cidadão de bem” para grande parte da direita brasileira não se define como a descrição no começo deste texto – “uma pessoa trabalhadora, honesta, respeitadora das leis, obediente às autoridades, pagadora de impostos, avessa ao cometimento de crimes contra a vida e a propriedade, muitas vezes mãe ou pai de família”. Mas sim como homem branco cisgênero heterossexual com dinheiro e um mínimo de prestígio social entre seus iguais, independentemente de ter ou não cometido crimes.

Ou seja, a “defesa dos cidadãos de bem” tão arrogada pela direita no Brasil não é uma bandeira genuína. Ela exclui pessoas que realmente são de bem e, por outro lado, ampara criminosos perigosos. É uma “defesa” cujos critérios não são o zelo à moralidade, ao trabalho honesto e ao cumprimento da lei, mas sim racismo, machismo, homofobia, transfobia e discriminação de classe. Portanto, questione quem são os cidadãos de bem que aquele seu colega de direita diz defender, e por que ele não defende muitas pessoas que realmente são “do bem” e se omite ou mesmo presta defesa a alguns que podem ser considerados “de mal”.

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Newton

dezembro 6 2015 Responder

Pessoa de bem = pessoa que é inofensiva aos seus semelhantes, honesta, enfim, pessoa cuja presença na sociedade é benéfica.

Pessoa do mal = pessoa cuja presença na sociedade é nefasta.

Simples, não? Pra que complicar tanto? Quase todos nós temos imbuídos em nossa consciência o conceito de bom e ruim. Essas coisas não pertencem ao ramo de ideologias políticas. Qualquer tentativa de enfiar política nesses assuntos nada mais é do que oportunismo e tentativa de doutrinação.

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 6 2015 Responder

    Infelizmente não é essa a forma como a direita vê ~todos~ os cidadãos que podem realmente ser considerados “de bem”.

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