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Quando ser um “indignado” seletivo “contra os corruptos” implica ser corrupto também
Ser exclusivamente contra "corruptos petralhas" também é uma forma de ser corrupto

Ser exclusivamente contra “corruptos petralhas” também é uma forma de ser corrupto

Virou uma espécie de “moda cívica” no Brasil se dizer “contra a corrupção” apenas de pessoas ligadas ao PT – mesmo quando não há denúncias comprovadas contra certos petistas –, enquanto protege gente de outros partidos coberta de denúncias até o pescoço. Não percebem que, por mais que se digam “revoltados contra os corruPTos (sic)”, essa postura seletiva também é uma atitude de corrupção.

 

Que conceito de corrupção é usado neste texto?

Vale esclarecer, a princípio: o termo “corrupção” aqui não é definido conforme o Código Penal, que caracteriza a corrupção ativa no Artigo 333 e a passiva no Art. 317. Uso aqui o conceito de Felipe Pires Morandini, que enfatiza, entre outros aspectos, a omissão como atitude corrupta:

Corrupção (do latim: Corruptus – “despedaçado”, ou em uma segunda acepção, “pútrido”) é o ato de se corromper, ou seja, obter vantagem indevida, seja por ação ou omissão, observando-se a satisfação de benefício próprio, a despeito do bem comum. Ao contrário do saber popular, a corrupção não é só política, e nem sempre envolve dinheiro. Existem três formas de se corromper: pelo abuso, pela omissão ou pelo desvio.

[…]

A omissão é, talvez, a forma de corrupção mais vista na nossa sociedade. Omitir-se é deixar de fazer ou dizer algo que deveria, deixando certo problema prosseguir ininterrupto. Todo brasileiro se omite. Deixamos de denunciar tudo o que vemos de errado, deixamos de ajudar aqueles que necessitam da nossa ajuda, deixamos de devolver aquilo que sabemos que não é nosso, e entre outras omissões comuns. Não só não denunciam, mas até votam naqueles que se corrompem “escrachadamente”.

 

Por que os “revoltados contra a corrupção” estão sendo eles mesmos corruptos

Quando alguém se diz “revoltado” apenas contra membros do PT e ignora ou relativiza denúncias contra pessoas do PMDB, PSDB, DEM, Solidariedade, PSC, PR, PP e outros partidos considerados conservadores ou liberal-conservadores, está protegendo e mantendo impune a grande maioria dos corruptos em atividade no Brasil. Isso já é o suficiente para se mostrar por que a postura “anti-corruPTos” é em si mesma corrupta, mas há outros aspectos muito importantes nisso.

Também é um ato corrupto votar nesses mesmos indivíduos acusados (com provas) de corrupção, sabendo que eles estão sendo denunciados com provas autênticas. Isso se deve principalmente pelo consentimento de que façam uso criminoso do poder para proveitos próprios.

Mas também pesa o fato de que, por muitos desses políticos delinquentes – talvez a maioria – serem conservadores, antipopulares, antidemocratas e violadores dos Direitos Humanos, há o propósito do eleitor de obter o benefício privado de preservar seus privilégios socioeconômicos e religiosos e manter o restante da população sob discriminação, dominação abusiva e injusta e restrição de direitos.

Ou seja, quando um evangélico fundamentalista vota num teocrata para deputado, sendo este frequentemente denunciado por desvio de verbas e violações à Constituição – em especial à laicidade do Estado brasileiro e aos direitos fundamentais alheios –, está visando ganhar privilégios como evangélico seguidor de uma igreja ultraconservadora. Sabe que seu candidato irá buscar, por meio de sua atuação legislativa, privilegiar a denominação religiosa de seus eleitores – inclusive com obras financiadas com verbas públicas – e fomentar a intolerância contra pessoas de outras religiões ou sem religião. Isso acaba sendo uma maneira de eleitor e político atuarem de maneira corrupta.

Outro exemplo é o típico antipetista fanático de classe média-alta, que quer a todo custo ver o PT sendo expulso da presidência e substituído por um partido e um presidente assumidamente de direita. Considerando que esse indivíduo não demonstra qualquer repúdio diante de escândalos de corrupção quando envolvem políticos opositores do governo federal petista – e às vezes relativiza as denúncias dizendo, por exemplo, que “o PT faz pior” –, ele está sendo corrupto também, por se omitir perante criminosos que deveriam estar sendo pesadamente pressionados pela população a deixar o poder ou serem cassados.

Além disso, quando esse mesmo antipetista de alto poder aquisitivo é adepto de ideias reacionárias que pregam a prevalência da falsa meritocracia capitalista, o ódio a minorias sociopolíticas e movimentos sociais, o repúdio a políticas públicas de inclusão social, ele está muitas vezes defendendo a manutenção de privilégios. Entre estes, estão o de ter acesso prioritário ou exclusivo a empregos de elite, às camadas mais altas da pirâmide social, a serviços de qualidade que deveriam ser públicos e a ambientes que ele gostaria de ver permanecer “higienizados”, inacessíveis a pessoas pobres.

Com isso, o reacionário que odeia o PT e a esquerda com todas as forças e vota sem pudor num corrupto condenado do PSDB ou da bancada ruralista, para fins de atender a demandas psicológicas individuais (o ódio ao PT e à esquerda) e impedir que a inclusão e ascensão social da maioria da população comprometa seu status de privilegiado, também está usando seu voto tanto para assegurar a perpetuação da corrupção no Brasil como para obter benefícios privados.

Está sendo, assim, duplamente corrupto. E o pior: está, por meio do pretexto de “combater a corrupção do PT”, assegurando que corruptos de outros partidos continuem em ação vilipendiando os cofres públicos e destruindo direitos alheios.

Fica muito claro, assim, que aqueles que vociferam nas redes sociais e portais de notícias “contra a corrupção”, mas só vislumbram as maracutaias (supostas ou comprovadas) cometidas por petistas, estão eles mesmos sendo corruptos. Estão promovendo, protegendo e perpetuando a corrupção no Brasil, fomentando o uso do poder e dinheiro públicos para benefícios privados prejudiciais à sociedade como um todo e usando o voto – que deveria ser orientado ao bem comum – para a conservação de privilégios pessoais.

Se realmente querem um Brasil livre de corruptos, que essas pessoas comecem por si mesmas. Que revejam sua postura político-ideológica e assumam que também faz parte do problema – um passo necessário para posteriormente se tornarem parte da (verdadeira) solução.

imagrs

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Ronaldo

dezembro 12 2015 Responder

Acho absurdamente improvável que os “contra corruPTos” façam em algum instante essa reflexão.

Mas quem sabe um dia né?

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