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dez15

Sobre o costume de admirar a cultura de disciplina do Japão mas ser mal-educado no Brasil
Em cruzamentos com semáforos quebrados ou desligados, muitos "amantes da educação japonesa" partem para o "cada um por si" e mostram que não estão interessados em ver o Brasil abraçar o senso de respeito ao próximo como tradição moral-cultural

Em cruzamentos com semáforos quebrados ou desligados, muitos “amantes da educação japonesa” partem para o “cada um por si” e mostram que não estão interessados em ver o Brasil abraçar o senso de respeito ao próximo como tradição moral-cultural

Às vezes, nas redes sociais, compartilhamos imagens e vídeos que se rasgam de elogios ao povo japonês, por ter uma tradição moral de disciplina e bons modos muito forte. O problema é que, ao mesmo tempo em que tanto admiramos os japoneses, nós mesmos promovemos no Brasil os mais bizarros atos de má educação e falta de respeito.

Um exemplo que talvez seja comum dessa postura é adorar assistir a vídeos em que japoneses se organizam em impecáveis filas em algum metrô – desconhecendo que tal ordem nem sempre acontece por lá -, mas não hesitar em furar fila e promover tumulto ao entrar no ônibus ou no trem em nossa própria cidade. Também é exemplar aquele momento em que acabamos acreditando na lenda urbana de que os professores não são obrigados a se curvar perante o imperador do Japão e relembramos de quando, em nossa época de ensino médio, pré-vestibular e universidade, não nos importávamos em xingar e desrespeitar nossos mestres não abusivos.

E de vez em quando enchemos os pulmões para declarar nossa admiração ao patriotismo dos japoneses que reconstroem quase inteiramente a infraestrutura de cidades arrasadas por terremotos em poucos meses. Mas em nosso próprio país, não hesitamos em depredar patrimônio público, entupir com lixo as galerias de água pluvial – contribuindo para a cidade se degradar a cada chuva – e desrespeitar nosso próprio povo ao dizermos que os brasileiros que votaram no(a) outro(a) candidato(a) são um “povinho de merda”.

Essa nossa hipócrita postura evidencia o costume viciado de temos de achar que o problema são sempre os outros. Segundo essa mentalidade, são só “eles” que sempre “brincam” de “cada um por si e o resto que se dane” no cruzamento quando o semáforo está quebrado, jogam lixo no chão ou no canal, tratam a democracia como um campeonato de UFC, votam em corruptos, desrespeitam filas, perturbam os outros em ambientes públicos etc. Nessa falsa dicotomia entre “nós” e “eles”, todos erram, todos reclamam e ninguém admite ser parte dos problemas relativos à má educação e à falta de senso de coletividade e solidariedade.

Desejamos muito a ordem moral do Japão – ou pelo menos aquela ordem idealizada e romantizada que na verdade nem aquele país tem em tal plenitude. Mas não admitimos que cabe a cada um de nós tornar a sociedade brasileira valorizadora do respeito ao próximo, e fazê-la dispensar regramentos autoritários. No final das contas, aliás, por mais que admiremos a disciplina japonesa, não percebemos estar impedindo que passe a existir uma disciplina brasileira naturalizada, ética e não autoritária.

Vale refletir, então, até que ponto estamos dedicando tempo demais à postura de desejar e de menos à de tornar real a transição de nossa sociedade à tradição do pleno respeito ao próximo e da solidariedade ética. E também por que costumamos apontar o dedo ao cisco do olho do outro e negligenciando a trave que está no nosso próprio. Só quando reconhecermos que nós próprios estamos impedindo o Brasil de ser um país onde a boa educação moral reine é que a idealização da disciplina japonesa vai deixar de ser algo passivo e sua concretização adaptada à cultura brasileira passará a ser um objetivo de nossa constante (re)construção como sociedade.

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Newton

janeiro 1 2016 Responder

Concordo. Numa roda de amigos, o sujeito não consa de elogiar o comportamento de outros povos, mas ao sair, não hesita em desrespeitar a sinalização, não devolver o troco dado a mais pelo caixa, quando acha um celular perdido já vai logo retirando o chip, enfim, outras coisas mais que estamos cansados de ver…ser honesto na frente dos outros é fácil, quero ver ser honesto quando ninguém está olhando.

Em relação ao Japão, não existe exagero em muitos relatos, lá a coisa é assim mesmo (claro que desonestos existem em todo lugar, mas lá são uma minoria ínfima). Só pra dar um exemplo: lá existem muitas máquinas automáticas de venda, praticamente em toda esquina encontram-se máquinas que vendem desde refrigerantes até celulares descartáveis. Eventualmente, o equipamento apresenta problemas, e “engole” o dinheiro do sujeito. Mas junto a cada uma das máquinas, existem saquinhos plásticos, papel e caneta, e quando acontece uma eventualidade dessas, basta escrever um bilhete relatando o ococrrido, colocar dentro de um saquinho e depositar em uma caixinha. Pode ir lá no dia seguinte que seu dinheiro vai estar dentro do saco plástico, E NINGUÉM PEGA!!!! Essas máquinas ficam na rua mesmo, e não dentro de shoppings ou galerias. Agora, imagina uma coisa dessas no Brasil…a má fama do brasileiro no exterior não é à toa não.
Isto é só um exemplo dentre milhares.

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