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dez15

A tal da “herança maldita tucana” que os governos petistas relutam em “curar” por completo

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Algo muito falado entre petistas é que o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) deixou de legado uma “herança maldita”, e que coube ao PT “salvar” o Brasil dela. Mas no final das contas, realmente o país se livrou de tal “herança” ou os governos petistas a mantiveram em grande parte?

Pressupõe-se, pela lógica, que um Brasil livre desse legado negativo tucano teria encontrado, graças a Lula, Dilma e suas equipes, o caminho do desenvolvimento sustentável (no que pese aqui eu ter um olhar torto a ideologias de desenvolvimento, mesmo aquelas mascaradas de ambientalmente amigáveis), a resolução de crises econômicas por meio de investimentos e oneração de quem realmente pode pagar mais, a valorização legítima e permanente da educação como maneira de formar cidadãos prontos para buscar e exercer seus direitos, as reformas estruturais de base – agrária, tributária, política etc. –, a ampla diminuição das desigualdades de renda e riqueza, a reestatização do que foi tomado de assalto do patrimônio público brasileiro pelos privatizadores etc. Mas não foi nada disso que aconteceu.

O Brasil, que está num momento de crise, até o momento não tem precisado recorrer ao Fundo Monetário Internacional e se submeter suas imposições draconianas, e conseguiu com o Bolsa-Família interromper aquela trajetória de aumento da concentração de renda. Mas parou por aí.

Do restante, nada de tão significativo aconteceu em termos de rompimento com a época de FHC. A política econômica de austeridade continuou – e o próprio Lula havia prometido isso na famigerada Carta ao Povo Brasileiro –, o país não se afastou um centímetro sequer do capitalismo, as reformas de que o Brasil precisava para se tornar mais justo nunca aconteceram, as riquezas do 1% mais endinheirado permanecem intocadas e submetidas a muito menos imposto do que o patrimônio e a renda dos 99% restantes, a violência continua forte no campo graças aos ruralistas, os interesses de criminosos que vão ao Congresso defender seus interesses pessoais e de suas empresas aliadas não foram afrontados com solidez e tenacidade, o país não recebeu investimentos decentes em infraestrutura, grande parte dos empregos gerados entre 2003 e 2014 foram de baixas remuneração e salubridade, as privatizações só avançaram – portos, rodovias, ferrovias, usinas, aeroportos, poços de petróleo etc. –, o país continua muito vulnerável a crises, não houve campanhas de combate intensivo à corrupção, nem houve a democratização da mídia e a valorização dos Direitos Humanos…

Ou seja, a maior parte da tal “herança maldita dos tucanos” continua amaldiçoando o país. E nada garante que o pouco que havia sido diminuído dela não retornará sob Dilma, como a capitulação ao FMI e a reversão da tímida redistribuição de renda vivenciada na década de 2000.

Com isso eu fico pensando: por que os governistas continuam insistindo em colocar uma diferenciação tão grande entre a era FHC e a era petista? Não houve nenhuma revolução, nem mesmo uma política de reformismo que tentasse diminuir o poder do capital. E com a crise atual, o estelionato eleitoral de Dilma e a possível candidatura de Lula ao retorno à presidência em 2018, nada indica que o PT irá sair da centro-direita e “esquerdar”.

PT e PSDB são e continuarão sendo quase gêmeos. Não será com o PT, nem com os demais partidos (exceto o PSOL e talvez a Rede), que teremos um mandato que possa ser chamado, com gosto, de governo de esquerda e realmente acabe com a tal herança maldita dos anos 90.

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5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Nathalie

dezembro 28 2015 Responder

É extremamente preocupante pessoas que provavelmente frequentaram a escola e a faculdade acharem que o PT é um partido d esquerda, ou ainda, comunista, principalmente após lerem o texto acima, em q se mostra q a única marca do governo petista é o bolsa família, um programa fraquíssimo para apoiar os pobres. de onde se tirou q o PT é comunista ou d esquerda?

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 29 2015 Responder

    E tem mais, Nathalie: o próprio Bolsa Família é inspirado no “imposto de renda negativo” de Milton Friedman, alguém que pode ser qualquer coisa, menos de esquerda.

Luciano Silva

dezembro 25 2015 Responder

A meu ver, a tal “herança maldita” nada mais é/foi do que uma frase de efeito, de marketing, tenra demonstração da hipocrisia do partido.

Na realidade, a tal “herança” era bendita, e exatamente por causa dela o País teve condições de crescer e melhorar tanto nos anos Lula.

Perceba que no 1º mandato de Lula, a política econômica de Palloci-Meirelles simplesmente deu continuidade à de FHC. Lula se comprometeu e entregou superávit fiscal de 3% do PIB, a inflação se manteve controlada, houve a reforma da previdência…

A coisa só começou a degringolar quanto o PT, na metade do 2º Governo Lula, decidiu, em razão da crise internacional, tirar da cachola a ideologia esquerdista-desenvolvimentista “standard”, aprofundada em Dilma I.

Aí a vaca foi para o brejo. No 2º tri de 2014 entramos em recessão (perceba-se: meses antes de Levy assumir) conforme o CODACE (http://www.opotiguar.com.br/tag/codece/).

Feliz 2016!

Newton

dezembro 22 2015 Responder

O PT não encara o Brasil como um país independente.

O objetivo é transformar a América do Sul em um grande bloco comunista, por esse motivo, os empréstimos para Cuba, de acordo com esse plano, foi considerado um investimento no futuro “bloco comunista sul americano”. Até a cara do passaporte brasileiro mudaram, não está mais escrito “Passaporte – Brasil” mas sim, “Mercosul”. Alguém conhece algum país chamado “Mercosul”?

Marcos Souza

dezembro 20 2015 Responder

Penso de forma semelhante, mas sou discreto em expor minha opinião por conta da agressividade dos simpatizantes do PT com os que ousam apontar os deslizes desses últimos 13 anos de governo. Muitos insistem na ideia de que esse partido tem um “projeto” para o País. Até agora, só consegui enxergar um projeto de perpetuação no poder com base em conivência com a prática de crimes, em associações políticas espúrias e na manutenção des cabides de emprego. E o retrocesso maior ocorrerá se Lula voltar em 2018.

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