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jan16

Desenvolvimentismo: a contradição de uma ideologia ao mesmo tempo defensora do progresso e reacionária
Charge escrita por defensor do desenvolvimentismo. Perceba-se a carga de aversão reacionária contra ambientalistas contida no desenho

Charge desenhada por defensor do desenvolvimentismo – e divulgada no blog de um jornalista que também é desenvolvimentista. Perceba-se a carga de aversão reacionária contra ambientalistas contida no desenho

Tentando parecer “não neoliberais” e desvencilhados da “herança maldita tucana”, os governos Lula e Dilma (esta no primeiro mandato) promoveram uma política desenvolvimentista, que jogou um “dane-se” aos propositores do “desenvolvimento sustentável” e passou por cima literalmente do meio ambiente e da dignidade humana. Obras (ou obradas mesmo) como a Usina de Belo Monte e a transposição do Rio São Francisco, a permissividade do poder público perante crimes ambientais como o da Samarco/Vale/BHP no Rio Doce e a promoção, no governo Dilma, da “política ambiental” menos ambiental desde a ditadura militar nos fazem retomar velhas críticas ao desenvolvimentismo, cabendo a nós apontar as contradições deste, que é uma ideologia ao mesmo tempo defensora do progresso e reacionária.

Desde o século 19 exalta-se o “desenvolvimento” ou o “progresso” como carro-chefe da construção e consolidação da felicidade individual e coletiva humana. Afinal, nada “melhor” para representar o ápice das capacidades racionais humanas do que grandes cidades repletas de tecnologia e máquinas, muito dinheiro circulando e enriquecendo os sonhadores, edifícios altos e sofisticados com uma classe média feliz e satisfeita morando ou trabalhando nelas, trabalhadores dos empregos mais baixos da hierarquia capitalista tornando-se empresários de sucesso e a possibilidade de abandonar a tristeza e voltar a sorrir bastando comprar alguma coisa no mercado da esquina.

Mas tem ficado muito evidente, praticamente óbvio, que isso não deu lá muito certo, mesmo lá no século 20, no auge do desenvolvimentismo. Não só a miséria e a violência continuaram fortes na maioria dos países do mundo e a riqueza foi ficando cada vez mais concentrada, como o próprio paradigma defensor do desenvolvimento econômico infligiu suas próprias crueldades.

Poluição generalizada, corrosivas alterações climáticas, desmatamento implacável, destruição genocida e ecocida de povos nativos e outras comunidades tradicionais e seus habitats milenares, ditaduras e “governos democráticos” impondo o desenvolvimento capitalista pela força das armas e de ideologias políticas sutilmente tirânicas, extinção em massa de espécies animais e vegetais, coisificação e matança de animais aos bilhões pela pecuária e pesca, cidades com péssima qualidade de vida, gasto de recursos naturais à exaustão, cancerização da economia (que adotou o crescimento ilimitado como fim em si mesmo, mesmo que para isso consumindo a biosfera)… Não param de aparecer as consequências perniciosas da ideologia do progresso, que evidenciam seu fracasso como promessa de trazer felicidade, liberdade e bem-estar aos seres humanos.

Quando se expõe esse alerta – e, por tabela, o capitalismo e suas hierarquias, o culto ao lucro, o fundamentalismo de mercado etc. são criticados -, aparecem defensores do desenvolvimentismo reagindo com desdém, descrença e, muitas vezes, ódio. Lembro que, em 2010, quando o governo Lula estava em seus últimos meses e Dilma Rousseff era candidata a presidenta, Marina Silva, concorrente de Dilma na ocasião, era comumente depreciada por muitos membros e simpatizntes do PT por causa de suas críticas ambientalistas às políticas pró-desenvolvimento econômico lideradas por Lula e puxadas pelo PAC – Programa de Aceleração do Crescimento.

Continuando nos anos seguintes, governistas vêm promovendo toda sorte de críticas destrutivas e menosprezantes aos críticos do desenvolvimentismo. Termos zombeteiros como “verdentreguistas” e “os verdes”, pejorações de que a oposição a hidrelétricas de impacto ambiental inaceitável acontece “por causa do acasalamento dos bagres”, alusões às críticas anticonsumistas de “miopia ambiental” e “achismo”, alegações de que “os verdes (sic) atrapalham a agricultura brasileira” e “querem entregar o Brasil às ONGs estrangeiras”… São muitas as maneiras como desenvolvimentistas convictos atacam ambientalistas, com a intenção de manter intocados os projetos econômicos que não se conciliam com a sustentabilidade.

Isso tem um nome: chama-se reacionarismo. É tentativa de, como dizem Marx e Engels, girar para trás a roda da História, reagindo com ódio e baixaria àquilo que avançou e tentando impor pela agressão retrocessos ao que mudou.

Isso deixa claro que, muitas vezes, propostas em prol do progresso econômico são defendidas por “capangas ideológicos”. E estes dedicam uma verbalmente violenta aversão a paradigmas social-econômico-ambientais vanguardistas que as superem e tragam, realmente, bem-estar, liberdade e redenção social aos seres humanos e também aos não humanos.

Em outras palavras, o desenvolvimentismo é ao mesmo tempo “progressista”, no sentido literal e original da palavra, e reacionário. Defende o progresso da economia, e ao mesmo tempo tenta sufocar quem questiona essa ordem ao mesmo tempo móvel como um carro veloz e estanque como uma pedra fincada no chão.

Também goza desses dois atributos ao mesmo tempo mutuamente excludentes e complementares por outro meio: o conflito entre a economia e a vida. Por um lado, faz Produtos Internos Brutos nacionais crescerem como bolo com fermento no forno, enriquece executivos e burocratas e promove um duvidoso avanço tecnológico. Pelo outro, causa retrocessos cruéis na qualidade de vida humana, no apego das culturas aos valores ético-morais de solidariedade e comunhão, na integridade das culturas indígenas, nas condições de sobrevivência de incontáveis seres sencientes e até nas chances de a espécie humana e milhares de outras continuarem existindo sem sofrer graves prejuízos.

Diante dessa realidade causada pelo desenvolvimentismo, é necessário que nos posicionemos criticamente diante de ideologias que, como essa, se dizem “progressistas” mas resguardam as mais violentas características do reacionarismo social e político. Essa postura de repulsa a “progressismos conservadores” é necessária até por ser uma questão de sobrevivência e integridade física e mental. Se assumirmos essa luta com a força que ela merece ter, nenhum governista, nem nenhum direitista assumido, poderá nos parar.

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