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É tão fácil assim “arranjar uma vida da qual você não precise fugir”?

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Aviso de conteúdo: contém menções a machismo e racismo.

Uma frase tem circulado há alguns anos nas redes sociais: “Em vez de ficar torcendo para chegar o feriado ou um final de semana, por que você não arranja uma vida da qual você não precise fugir?”. É aplaudida, curtida e compartilhada com gosto por muitos, mas será que é compatível com a realidade social em que a maioria de nós vive?

A questão é que optar entre continuar vivendo uma vida cheia de sufoco e uma mais liberta é um privilégio para poucos. Somente pessoas com dinheiro suficiente – geralmente entre as classes média e alta – e submetidas ao mínimo possível de dominações têm essa capacidade de, a partir de uma decisão própria e a subsequente elaboração de um novo projeto de vida e trabalho, sair de um estado de coisas indesejado e limitante e mudar de vida.

Isso definitivamente não é algo viável, por exemplo, para aquela mulher que trabalha de vendedora numa loja de médio porte dez horas por dia, perde outras quatro em ônibus lotados, ganha pouco mais que o salário mínimo e, ao chegar em casa, precisa fazer diversas tarefas domésticas e cuidar de três crianças, além de ser sufocada por um marido machista que não lhe divide as tarefas da casa e ainda vive pressionando-a a fazer coisas que ele quer vê-la fazer mas ela não gosta.

Nem é opção para aquele jovem negro órfão de 20 anos que vive na favela, divide o dia em trabalho e estudo, também ganha uma remuneração medíocre, é fustigado quase todo dia com o racismo da sociedade e vive com medo de ser morto a qualquer momento por policiais ou traficantes.

Em nenhum desses dois casos, nem de bilhões de outros, as pessoas têm dinheiro e poder de escolha suficientes para se libertar de uma vida na qual são subordinadas a poderes diversos – patrões, polícia opressora, Estado que governa para poucos, instituição escolar ou universitária, igrejas conservadoras, pais tirânicos e intolerantes, mídia que estigmatiza as minorias políticas etc.

Não têm o mínimo de condições para, apenas com as próprias forças, sair desse estado de coisas para uma vida maravilhosa, na qual estarão livres dessas submissões e das maiorias das obrigações socioeconômicas, poderão trabalhar apenas no que gostam muito, terão muito mais lazer e descanso, desfrutarão ocasionalmente de anos sabáticos, não estarão mais sujeitas a relacionamentos abusivos e cobranças de uma sociedade multipreconceituosa etc.

O problema, na verdade, não é a pessoa, como indivíduo, não optar – por suposta preguiça – por começar a viver uma vida prazerosa da qual não precise fugir. É, ao invés, a opressiva ordem das coisas que vigora e recai pesadamente sobre a grande maioria das pessoas. Uma ordem capitalista, fortemente hierarquista, machista, racista, transfóbica, heterossexista, capacitista, xenofóbica contra imigrantes e turistas dos países do outrora chamado “Terceiro Mundo”, intolerante contra a maioria dos não cristãos etc.

Acreditar que quem deve ser criticado é o sujeito que reclama da vida e aguarda ansiosamente o próximo fim de semana, e não o status quo que torna a vida dele cheia de privações e obrigações escusas, é cair na falácia da meritocracia. É acreditar ilusoriamente que todo mundo tem as mesmas condições e oportunidades de, a qualquer momento, dar um basta à sua vida de muitos deveres e poucos direitos, criar um plano de carreira sensacional e construir um futuro repleto de liberdades.

É ingênuo crer que a ordem social e econômica permitirá que todas as pessoas tenham esse direito de superar dificuldades, “vencer na vida” e alcançar a utopia individual da felicidade permanente. E é uma nítida falta de empatia e de noção sobre questões sociais achar que o que há por trás dessa “não preferência” por mudar de vida ao invés de esperar pelo dia de folga é uma mera preguiça da pessoa, e não ela estar atada a uma sociedade e economia injusta que a prende em grilhões invisíveis de trabalho opressivo e discriminações.

Se o que você, caso tenha compartilhado a imagem aqui comentada, deseja ao propagá-la é fazer as pessoas se rebelarem contra a vida “prisional” que lhes é imposta, preciso lhe dizer que você necessita focar o sistema que acorrenta, e não as pessoas que não conseguem romper seus grilhões e ficam obrigadas a desejar um curto instante de diversão e repouso que seja. Nós como sociedade só conseguiremos fazer com que aquele desejo sedento por fins de semana e feriados se tornem obsoletos se as diversas dominações que nos sufocam e nos fazem desejá-los forem quebradas. Só assim é que poderemos viver gostosamente uma vida da qual não precisemos fugir, com liberdade e sem amarras e obrigações arbitrárias.

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8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Newton

janeiro 8 2016 Responder

Pelo que eu entendi, corrija-me se eu estiver errado, o post trata de igualdade de oportunidades, certo? Se assim for, permita-me colocar uma situação hipotética.

Suponhamos que em 01/01/2017 todas contas bancárias de todos os habitantes serão zeradas, isto é, todos terão, por exemplo, R$5000,00. Tanto o Abílio Diniz quanto eu teremos a mesma quantia no banco.
No dia seguinte, um grupo musical anuncia um show, e muitas pessoas irão pagar ingresso para vê-los, de livre e espontânea vontade. Depois de um mês de shows, o grupo estará muitos “dinheiros” mais ricos, e nós estaremos um pouquinho mais pobres. Os membros de tal grupo terão então condições melhores do que nós de realizarem seus sonhos.

É justo?

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 8 2016 Responder

    O post fala de acreditar que qualquer pessoa pode mudar grandemente de vida se simplesmente quiser.

    Sobre o dilema, ele parte da premissa de que igualdade social é simplesmente igualdade de renda e riqueza, o que não condiz com as ideologias socialistas e as anarquistas – que defendem que igualdade social é muito mais do que isso e que o dinheiro deixe de ser o “sangue” que move a sociedade.

      Newton

      janeiro 9 2016 Responder

      Mas o dinheiro é o sangue que move a sociedade!

      O seu mau uso desde as origens é que causa os males da civilização. Justamente por ser um meio de troca livre da premência do tempo, sua utilidade deve ser feita com justiça e bom senso, não devemos guardá-lo e especular com ele, dinheiro não é mercadoria.

        Robson Fernando de Souza

        janeiro 10 2016 Responder

        O dinheiro é sangue nas sociedades em que ele tem maior importância moral do que, por exemplo, as necessidades humanas e valores como a solidariedade e o espírito comunitário moderado. Há sociedades em que o dinheiro existe mas tem uma importância secundária na economia.

Roberta

janeiro 5 2016 Responder

Acho tuas colocações sempre muito pertinentes, mas gostaria de levantar, só nos teus dois exemplos, algumas questões. No caso da vendedora, o marido foi escolha dela. Ela poderia ter escolhido e acostumado diferente a pessoa com quem vive diariamente.Se fosse alguém que pudesse lhe prover as necessidades e por isso ela mantivesse a relação, certamente não se sujeitaria a uma jornada tão dura de trabalho.
Outro ponto do qual discordo, se refere à escolaridade. Como professora de escola municipal sei do descaso dos alunos com a aprendizagem. É uma luta pra tentar ensinar a eles pelo menos o essencial. Coisas que garantiriam a eles melhores chances em um concurso vestibular, ou numa disputa por bolsa de estudo. E não estou falando de jovens com qualquer limitação. Falo de alunos de periferia, que frequentam a escola e tratam com desdém tudo o que é oferecido e que poderia colaborar para uma melhor qualidade de vida. Sei que ainda existem os que não tem acesso à escola, mas vamos combinar que a maioria dos que frequentam, não fazem por merecer a vaga que ocupam.

    Anderson do Rosário

    janeiro 5 2016 Responder

    Mais uma vez vc está caindo na falácia da meritocracia Roberta, culpar a mulher por não ter arrumado um marido que lhe de o suficiente para não trabalhar ou não passar dificuldades é uma dupla culpabilização do indivíduo, da mulher e do marido dela pela incompetência de não ter um emprego bem remunerado, O autor explanou perfeitamente a questão do sistema social implicado nesta relação. A cultura machista do homem ser o provedor já caiu por terra faz tempo, de certa forma isso era uma das justificativas do marido ter a mulher como posse, pois ele era o provedor, o que colocava comida na mesa.Com a aspiração da mulher e da sociedade por igualdade de gênero, vemos que problema da exploração de classe atinge ambos os sexos. Sobre a escola, como professor, concordo com a irresponsabilidade dos alunos nos estudos, mas não vi nenhuma contradição da sua opinião com o texto, o autor não fala sobre isto, pois só podemos falar de meritocracia com oportunidades iguais, o que não existe quando a criança é condicionada desde cedo a ter que trabalhar o mais rápido possível pra ajudar em casa, sem perspectivas de um futuro melhor além da subsistência.

      Caio Julio Tavares

      janeiro 11 2016 Responder

      A Roberta está falando da realidade que ela vive e você vem falar de falácias, Anderson? Falácia é substituir a realidade por uma ideologia.

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 5 2016 Responder

    Olá, Roberta.

    Nem sempre uma mulher consegue descobrir a misoginia e abusividade do companheiro a tempo de ter forças pra terminar o relacionamento. E há diversas violências e dependências que impedem uma mulher de se separar rapidamente de um companheiro abusivo.

    Sobre a escolaridade, há muitos estudantes apaixonados pelos estudos que sonham em cursar, por exemplo, Medicina na USP mas esbarram em muitos obstáculos. Ou seja, nem sempre o problema é o desinteresse do estudante.

    Abs

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