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Não é que quiséssemos celebridades santas. O que desejávamos é que fossem ou tivessem sido pessoas éticas
Pessoas que apontaram, após a morte de David Bowie, que ele foi pedófilo e simpatizante do nazismo foram acusadas de querer que ele fosse um "santo". Só que há diferenças importantes entre ser "santo" e ser ético

Pessoas que apontaram, após a morte de David Bowie, que ele foi pedófilo e simpatizante do nazismo foram acusadas de querer que ele fosse um “santo”. Só que há diferenças importantes entre querer que famosos sejam “santos” e demandar que sejam éticos

O falecimento de David Bowie despertou uma discussão sobre celebridades que, apesar de terem um trabalho artístico admirável, eram ou são repulsivas como pessoas. Muitos acusaram de “moralistas” quem apontou que Bowie, apesar de talentoso, era um mau homem por ter simpatizado com o nazismo e estuprado fãs menores de idade (atos sexuais com quem não tem maturidade para entender e consentir a relação sexual são considerados estupro). Ficou então a confusão: criticou-se o cantor por não ter sido moralmente santo ou por não ter sido uma pessoa ética? E o que esperamos de artistas é que sejam “certinhos”, adeptos dos “bons costumes” da moral dominante em vigor, ou que respeitem outros seres sencientes em seu viver e não lhes façam mal?

Há a necessidade de se distinguir ser “santo” de ser ético. Os dois atributos parecem, mas não são a mesma coisa, havendo diferenças fundamentais entre ambos.

O “santo”, no sentido explorado por este texto, é aquele indivíduo que se submete incondicionalmente à moral vigente. Obedece e atende aos costumes e valores considerados “certos” em seu contexto cultural, geralmente por doutrinação, pelo interesse em ser recompensado ou reconhecido por sua conduta ou por medo de punição.

Por exemplo, um homem brasileiro considerado “santo” na primeira metade do século 20 era heterossexual, evitava chamar palavrão, transava só depois de casado e só com sua esposa, defendia o catolicismo como única religião detentora da verdade sobre o mundo, era conservador tradicionalista e obedecia incondicionalmente à lei. Há, aliás, os falsos santos, conhecidos como falso-moralistas, que se dizem defensores da moral mas a violam às escondidas.

Já a pessoa ética é aquela cuja conduta cotidiana preza por não prejudicar outros sencientes e, assim, respeitar-lhes a vida, a integridade física e psicológica, os direitos, a reputação etc. Preocupa-se por consciência, sem precisar almejar benefícios ou ser coagida pelo medo da punição, em ter comportamentos que, nesse sentido, não sejam prejudiciais a outrem. E considera que nem sempre atitudes imorais no contexto cultural do indivíduo são necessariamente antiéticas, danosas.

Nisso a pessoa ética pode ser alguém que, por exemplo, costuma chamar palavrões quando comete erro ao gravar um telejornal e fuma cigarro artesanal quando está longe de outras pessoas, mas é contra o consumo de produtos de origem animal – por representar danos aos animais não humanos -, nunca comete atos de pequena ou grande corrupção, desconstrói todos os dias seus preconceitos internalizados (machismo, racismo, etnocentrismo etc.) e repudia boatos difamatórios.

Adjacentemente aos conceitos, há o fato de que a pessoa “santa” pode ser severamente antiética. Por exemplo, muitos católicos do passado promovidos ao atributo de santos de sua religião eram misóginos, homo e lesbofóbicos, racistas, xenófobos, intolerantes contra pessoas de outras religiões, capacitistas etc.

Por outro lado, como foi exemplificado, alguém conhecido por ser contumazmente “imoral” e “pecador” pode ser muito ético, virtuosamente preocupado em aprender com os erros cometidos e não repeti-los, defensor incansável dos direitos das minorias políticas e das utopias socialmente igualitárias.

Daí fica claro que o que é abordado quando são lembrados os atos ruins cometidos por artistas do passado e do presente é a falta de ética deles em vida. Não é não serem ou não terem sido “pessoas santas”.

Aliás, a própria “antissantidade” é muitas vezes a marca registrada de cantores, atores e outras celebridades cujos trabalhos e posturas pessoais vieram para criticar a moral vigente em seu país e época e escandalizar os conservadores e moralistas de seu contexto. O problema é quando isso também passa por violar a ética e prejudicar outros seres sencientes em seus direitos.

Fica claro que chamar de “moralistas” e “exigentes de santidade” as denúncias de feministas, defensores animais, ativistas contra pedofilia etc. às posturas pessoais abusivas (pedofilia, misoginia, caça, reacionarismo etc.) de artistas homens que morreram, como Bowie, Charlie Chaplin e Johnny Ramone, ou que continuam vivos, como Roman Polanski, James Hetfield do Metallica e Dave Mustaine do Megadeth, é distorcer o que essas críticas realmente dizem. Se é controverso fazer tais denúncias nos dias posteriores à morte de algum deles, isso não é porque estão desejando que tivessem sido “santos”, mas sim outros motivos – como achar que os crimes cometidos por Bowie fazem sua obra musical necessariamente ser também repulsiva.

Mas fica a dica: se esses sujeitos, mortos ou ainda vivos, são criticados por defensores dos Direitos Humanos (e muitas vezes por ativistas de Direitos Animais), é porque não eram ou não são éticos, e não se arrependeram disso. Não queremos que vivam ou tivessem vivido como santos e exemplos de vida, até porque pessoas “santas” e “exemplares” também podem ser cruéis e causar mortes e/ou sofrimento a outrem sem remorso. Mas sim que sejam ou tivessem sido simplesmente pessoas éticas. Que respeitem ou respeitassem o próximo, sem lhe fazer mal.

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